A série Epidemia, produzida pelo podcast 37 Graus em parceria com a Folha de S.Paulo, foi a vencedora da categoria Cobertura Diária do Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde. A iniciativa, que conta com o apoio da Fundação Gabo, é destinada a veículos da América Latina e nesta edição registrou 611 trabalhos inscritos em suas três categorias.
Com produção e reportagem de Bia Guimarães e Sarah Azoubel, o especial trata dos impactos da epidemia de zika no Brasil e as consequências econômicas e sociais que crises sanitárias deixam para trás. São sete episódios com depoimentos de médicos e pesquisadores, e que trazem um paralelo entre a epidemia de zika e outras, como as de H1N1, chikungunya, ebola e Covid-19.
Na categoria Jornalismo Escrito, o prêmio foi para o especial Huir Migrar Parir, investigação conjunta do Distintas Latitudes, La vida de Nos, Mutante e GK, que contou com a participação de 35 jornalistas da Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, México e Argentina. O trabalho retratou a história de uma venezuelana de 19 anos que, depois de descobrir que estava grávida, realizou uma travessia de mais de 4 mil quilômetros, passando pelas fronteiras de Venezuela, Colômbia, Equador e Peru.
A iniciativa também concedeu duas menções honrosas para publicações brasileiras: na subcategoria Jornalismo de Soluções, para a série de reportagem Indústria da saúde no Ceará, do O Povo Online; e em Cobertura Jornalística da COVID-19, para Sequelas da Covid-19, do VivaBem/UOL.
Entidades defensoras da liberdade de imprensa repudiaram as agressões a pelo menos cinco equipes de reportagem que cobriam um passeio do presidente Jair Bolsonaro em Roma, nesse domingo (31/10), onde esteve para participar da reunião do G20.
Segundo relato de Jamil Chade, do UOL, as agressões começaram antes da aparição de Bolsonaro. A repórter da Folha de S.Paulo Ana Estela de Sousa Pinto foi empurrada de forma violenta por um segurança, enquanto o presidente ainda estava na embaixada brasileira. E antes mesmo de Bolsonaro chegar ao prédio, Maria de Lourdes Belarmino, assistente da Globo, foi intimidada e denunciada como infiltrada por apoiadores do presidente.
Depois de discurso para apoiadores, Bolsonaro indicou que sairia para caminhar, e então diversos jornalistas passaram a ser empurrados e agredidos pelos seguranças que o acompanhavam. O correspondente Leonardo Monteiro, da Globo, recebeu um soco no estômago e empurrões após perguntar o motivo pelo qual o presidente não participou de alguns eventos do G20.
Jamil Chade estava filmando a violência contra a imprensa, quando um dos seguranças o empurrou, agarrou seu braço e o torceu, levando seu celular. Instantes depois, o agente jogou o aparelho em um dos cantos da rua.
Segundo matéria de Ana Estela de Sousa Pinto, a Folha também tentava filmar as agressões aos jornalistas, e um segurança tentou tirar o celular dela; e os repórteres Lucas Ferraz, de O Globo, e Matheus Magenta, da BBC Brasil, também foram agredidos verbalmente e empurrados.
O próprio presidente foi hostil com a imprensa. Questionado sobre não ter ido ao encontro do G20 pela manhã, ele respondeu “É a Globo? Você não tem vergonha na cara?” e em resposta a uma pergunta sobre sua ausência na COP26, em Glascow, Bolsonaro disse “não te devo satisfação”.
Em seu perfil no Twitter, Jamil Chade escreveu que denunciou as agressões e que, “em 21 anos como correspondente, foram 70 países e vários presidentes. Mas violência em cúpula foi a 1ª vez. Silêncio revelador por parte do Itamaraty e Presidência. Não vencerão. Nunca”.
Repúdio de entidades
A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) publicou uma carta aberta endereçada a Bolsonaro, assinada pelo presidente da entidade, Paulo Jerônimo, na qual repudia veementemente o ocorrido. Confira um trecho do texto:
“Mais uma vez o senhor envergonha o Brasil, presidente. Repudiado por governantes do mundo inteiro, em cada evento de chefes de Estado o senhor mostra que o País foi relegado a uma situação de um pária na comunidade internacional. Na reunião do G-20 neste fim de semana, mais uma vez, o senhor foi obrigado a ficar pelos cantos, como aqueles convidados indesejados a quem ninguém dá atenção. Como reação, age como um troglodita, hostilizando e estimulando agressões a jornalistas que lhe fazem perguntas corriqueiras. É de dar vergonha”.
A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) destacou que “atacar o mensageiro é uma prática recorrente do governo Bolsonaro que, assim como qualquer outra administração, está sujeito ao escrutínio público. É dever da imprensa informar à sociedade atos do poder público, incluindo viagens do presidente no exercício do mandato. E a sociedade, por meio do art. 5º da Constituição, inciso XIV, tem o direito do acesso à informação garantido”.
A Associação Nacional de Jornais (ANJ) escreveu que “é lamentável e inadmissível que o presidente e seus agentes de segurança se voltem contra o trabalho dos jornalistas, cuja missão é informar aos cidadãos. A agressão verbal e a truculência física não impedirão o jornalismo brasileiro de prosseguir no seu trabalho”.
A Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) disse que “a postura do presidente brasileiro caracteriza uma institucionalização da violência contra jornalistas, que significa um atentado à liberdade de imprensa e, portanto, à democracia. Ao agredir jornalistas e ao permitir que seus auxiliares também o façam, o presidente comete um crime e deve ser responsabilizado por isso”.
O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo (SJSP) reiterou que “a defesa aos jornalistas não tem fronteiras. Continuaremos a lutar de maneira intransigente contra o autoritarismo e as seguidas tentativas de impedir o livre trabalho da imprensa”.
O apresentador Thiago Oliveira anunciou nesse domingo (31/10) que deixará o comando do Esporte Espetacular em São Paulo para trabalhar por uma temporada como repórter do Fantástico. Karine Alves, do SporTV, será a substituta dele no comando da edição paulista do programa esportivo.
Após discurso de despedida, Thiago “passou o bastão” para Karine, que fez uma entrada ao vivo para falar sobre a novidade. Ela anunciou que continuará no comando do Troca de Passes, do SporTV.
Karine Alves
Thiago Oliveira está no Grupo Globo desde 2014, ano em que assumiu o Tá na Área, no SporTV, que comandou até 2018, quando foi para o Hora 1, da TV Globo. Desde o começo do ano, apresentava a edição paulista do Esporte Espetacular.
Karine Alves assinou com a Globo em março de 2020, após passagem pela Fox Sports. Em agosto do ano passado, foi escalada para ser apresentadora do Troca de Passes, programa que comanda até hoje. No segundo semestre de 2020, entrou para a escala de plantonistas do Globo Esporte aos sábados. E em fevereiro deste ano, cobriu a colega Bárbara Coelho na apresentação da edição nacional do Esporte Espetacular. Desde então, já apresentou o programa outras vezes.
A 77ª Assembleia Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP, em espanhol), realizada em outubro, denunciou uma série de problemas envolvendo a atividade jornalística nas Américas, incluindo assédio judicial, estigmatização, reclusão, detenções arbitrárias, exílio, hostilidade e violência contra a imprensa, além de nove assassinatos no último semestre. A situação, segundo a entidade, é “sombria”.
A organização menciona também a crescente intervenção por parte de governos no trabalho jornalístico, restrições ao acesso à informação, falta de transparência, radicalização, repressão e problemas de sustentabilidade dos meios de comunicação.
“A sustentabilidade da mídia é aspecto atual e urgente, depois dos graves danos causados pela pandemia Covid-19, cujos confinamentos gerais levaram a picos de audiência sem precedentes, mas, ao mesmo tempo, a uma gravíssima paralisia econômica que afetou anunciantes e leitores semelhantes”, diz o informe da SIP, que destaca iniciativas ao redor do globo que visam a pressionar empresas de tecnologia pela remuneração de conteúdo jornalístico.
Especificamente sobre o Brasil, segundo a SIP, o presidente Jair Bolsonaro insiste em um discurso sistemático contra a imprensa: “Ataques e estigmatização de jornalistas tornaram-se diários, como também acontece na Guatemala e no Equador”.
Marcelo Rech, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), declarou que “nenhum governo gosta de crítica ou imprensa independente. A diferença entre regimes democráticos e autocráticos está na forma como lidam com a imprensa livre. Os ataques sistemáticos de Jair Bolsonaro e as tentativas de enfraquecer economicamente a mídia indicam que, no Brasil, o governo busca adotar um modelo semelhante aos de Venezuela, Filipinas, Turquia e outros regimes que não convivem bem com a liberdade de imprensa”.
Assembleia que reuniu cerca de 200 profissionais de jornais e revistas de São Paulo nesta sexta-feira (29/10) decidiu pela paralisação das atividades em 10 de novembro. A maioria dos participantes recusou a proposta de reajuste salarial das empresas da Capital.
Thiago Tanji, presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo (SJSP), declarou que “a assembleia pode ser considerada histórica. A proposta dos patrões está muito longe da reivindicação da categoria, ainda mais nesta situação cada dia mais difícil que vivemos”.
Em reunião na quinta-feira (28/10), as empresas de jornais e revistas mantiveram a proposta de reajuste de 5% para salários de até R$ 10 mil, sendo R$ 500 fixos para quem ganha acima disso. Também não houve avanço no reajuste da Participação nos Lucros ou Resultados (PLR).
A contraproposta da categoria foi de um reajuste de 5% retroativo desde junho de 2021 e outro de 3,72% a partir de novembro, além da manutenção da multa da PLR, reajustada em 8,9% para acompanhar a inflação.
Nas redes sociais, o SJSP escreveu que “nossa categoria, que se expôs aos riscos da pandemia e não parou em nenhum minuto durante a crise sanitária, não pode ser menosprezada sobretudo com a inflação batendo recordes, e com as empresas de comunicação gozando de isenções fiscais e distribuindo os lucros a acionistas. Vamos juntos construir a paralisação nos próximos dias, com reuniões realizadas por redação. O SJSP se orgulha da coragem dos jornalistas que representa, mantendo a história de luta de uma categoria cada vez mais importante para a defesa da democracia brasileira”.
O ato de paralisação deve ser de duas horas. Mas na sexta-feira (5/11), haverá nova assembleia para debater os próximos passos do movimento.
O Grupo Estado anunciou que Eurípedes Alcântara será seu novo diretor de Redação a partir de 10 de novembro. Ele integrou a equipe de liderança da revista Veja por 35 anos, de 1981 a 2016.
“Foi editor, editor-executivo e correspondente em Nova York”, destaca o Estadão, em nota sobre a novidade. “De volta ao Brasil, foi diretor adjunto até 2004, quando se tornou diretor de Redação e diretor Editorial do Grupo Veja, cargo que ocupou por 12 anos” Alcântara teve passagens também por O Globo e Poder360.
Ele substituirá a João Caminoto, que encerra seu ciclo na empresa. O Estadão escreveu que Caminoto deixa como legado “importantes transformações no processo de produção jornalística e no formato de nossos produtos noticiosos em diversas plataformas”.
A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) disponibilizou duas novas coleções de documentos de interesse público na plataforma Pinpoint, do Google (a entidade é curadora do projeto no Brasil): 99 transcrições de lives do presidente Jair Bolsonaro no YouTube desde 2019 e quase três mil currículos de comissionados com cargos ativos em todos os ministérios, com exceção da pasta do Trabalho, e em agências reguladoras do Governo Federal.
A coleção de transcrições de lives inclui a de 21/10, na qual Bolsonaro associa a vacina contra a Covid-19 à Aids. A fala resultou na retirada do vídeo em Facebook, Instagram e YouTube. Para encontrar rapidamente este trecho específico no documento, basta buscar “21_10_2021” e “imunodeficiência”.
Outros dados relevantes que podem ser encontrados com as transcrições são o número de vezes que determinados nomes e instituições ou empresas são citados pelo presidente nas lives. Paulo Guedes, por exemplo, aparece em 52 documentos, seguido por Lula (48) e Augusto Nunes (34). Em relação às instituições, as mais citadas são o Senado (61 documentos), o STF (53), a Jovem Pan (51), o YouTube (47) e a Caixa Econômica (42).
Já os currículos podem ser úteis para investigações jornalísticas, uma vez que permitem a consulta a informações importantes, como se determinado comissionado tem experiência para ocupar aquele cargo, ou onde ele já trabalhou, e se existe alguma informação falsa ou distorcida no currículo.
O Pinpoint é uma ferramenta gratuita que pode ser acessada com uma conta do Google. Nela, jornalistas podem encontrar com maior facilidade e rapidez nomes de pessoas, instituições e empresas citadas em documentos e áudios. A Abraji atualiza constantemente a plataforma com mais documentos de interesse público. Na semana passada, disponibilizou o relatório final da CPI da Covid. E a entidade pretende, no final de novembro, adicionar mais coleções de documentos na ferramenta.
Hildázio Santana, ex-coordenador de Esportes da TV Bahia, denunciou nessa quinta-feira (28/10) ter sido vítima de racismo na emissora. Ele alega que foi demitido após ter se tornado suspeito do furto de uma máquina de café na redação, o que não ocorreu. Segundo ele, tratava-se apenas de uma brincadeira com os colegas.
“Retirei uma cafeteira pequena de uma sala e coloquei em outra. A cafeteira não saiu da TV Bahia, continua lá até hoje”, publicou em suas redes sociais. “No dia seguinte, fui chamado pelo diretor de Jornalismo porque as imagens mostravam eu saindo com o equipamento de uma sala para outra. Não coloquei dentro de sacola, nem de mochila, nem embaixo da camisa. Saí com ela nas mãos e por onde passei existiam câmeras mostrando tudo. Há quase dez câmeras de uma sala para outra”.
Hildázio alegou que estava brincando com colegas. A ideia era colocar a cafeteira no mesmo lugar, mas como teve muitas reuniões não conseguiu devolvê-la no mesmo dia, o que teria levantado suspeitas sobre sua conduta.
Segundo ele, o diretor de Jornalismo Eurico Meira tentou demiti-lo por justa causa no dia seguinte: “O Eurico me colocou dentro de uma sala. Tentou me desligar por justa causa, me coagiu, me julgou, e no final me puniu com um desligamento da empresa. (…) Meu Deus! Será que em quase 20 anos de TV Bahia e no cargo de liderança que exercia, coordenador geral de Esportes, sete promoções dentro da emissora, eu iria subtrair ou furtar um equipamento de café?”.
Ao UOL Esporte, contou que, desde o começo, a conversa tinha tom de ameaça: “Contaram sobre a cafeteira e me deram duas opções: ou era demitido por justa causa ou pedia demissão. Falaram para o assunto não vazar e questionei: ‘Vazar o quê?’. Naquela noite, ele queria me demitir por justa causa, mas pela manhã, mudaram para desligamento”.
“Nunca pensei que em quase 20 anos na TV Bahia, eu iria viver um ato tão cruel por uma pessoa que estava ali para me apoiar”, disse o jornalista. “Uma pessoa que deveria ser exemplo no orientar, falar e no cuidar. O racismo é silencioso e desumano. (…) Chega! Precisamos dar um basta. E por isso eu compreendi que precisava falar, me defender, me posicionar”.
Em nota, a Rede Bahia afirmou que a demissão de Hildázio foi uma “decisão gerencial, embasada em questões profissionais, sem qualquer viés persecutório e/ou discriminatório”. A emissora reiterou que sempre trata seus colaboradores “com respeito, igualdade e seriedade”, e que eventuais desdobramentos do caso serão tratados nas esferas e instâncias competentes.
O ex-repórter da Record Gerson de Souza passou a ser réu em uma segunda acusação de importunação sexual a uma colega de trabalho da emissora. Em agosto do ano passado, ele foi denunciado pelo Ministério Público pela importunação sexual contra quatro funcionárias da Record, mas apenas uma das acusações havia sido aceita pela Justiça. Ao virar réu na primeira acusação, em outubro, foi demitido da emissora.
Segundo Rogério Gentile, do UOL, a segunda acusação é importunação sexual a uma produtora do programa Domingo Espetacular. Ela contou que trabalhava diariamente com o repórter e que ele frequentemente lhe dizia frases como “Sua gostosa”, “Sua delícia”, “Com essa roupa que você está usando, o que vai fazer quando sair daqui?”.
A produtora disse também que, quando chegava à Redação, Gerson a cumprimentava com um beijo no rosto, próximo à boca, atitude que “abominava e que a enojava”. Ele também colocava a língua para fora, simulando a prática de sexo oral, e apertava o braço da colega, dizendo: “Sabe por que eu gosto de apertar essa parte do braço? Parece a pele da bunda, então, é como se eu estivesse apertando a sua bunda”.
A desembargadora Fátima Gomes, relatora do caso no TJ, afirmou na decisão que os atos praticados pelo repórter, em tese, enquadram-se no crime de importunação sexual. Já Leonardo Magalhães Avelar, advogado que representa o ex-repórter da Record, disse que vai recorrer e destacou o fato de que as outras duas denúncias contra o jornalista não foram aceitas.
Na época em que as acusações vieram à tona, Gerson disse que ficou perplexo e que sempre foi um homem que respeita seus colegas, independentemente de gênero: “Tenho certeza de que nunca agi de maneira ofensiva e sinto profundamente caso, em algum momento de minha trajetória de 42 anos no jornalismo, algum dos meus colegas tenha se sentido desrespeitado. Sou pai de cinco filhas e avô de quatro netas, e é essencial para mim que mulheres tenham um ambiente de trabalho seguro”.
Quando cheguei ao Jornal da Cidade, de Jundiaí, em 1970, era ainda um foca no impresso, embora já com alguns anos de rádio. Por não saber sobre os costumes que imperavam nas redações, claro que não consegui me livrar do tradicional batismo, ritual que, inclusive, eu desconhecia. Entretanto, não posso negar que o que fizeram comigo foi o bê-á-bá de um aprendizado o qual, sem falsa modéstia, continuo perseguindo até hoje já na reta final desta minha longa jornada.
Pois bem. Fui levado para o impresso pelo saudoso Ademir Fernandes. Depois, ele e o também saudoso Sandro Vaia foram verdadeiramente meus primeiros mestres, os quais, embora eu tenha concluído apenas o ensino primário de um grupo escolar, portanto sem nível acadêmico, me formaram em jornalismo. Contratado pelo JC como redator de Esportes, começava a cumprir minhas tarefas a partir das duas da tarde, quando chegava para começar a fechar as duas páginas da editoria. Num sábado – o jornal não funcionava aos domingos −, Ademir me pediu para que na segunda-feira levasse um quilo de bodoni como presente para os colegas. Nunca ouvira falar e ele me explicou: era um produto que poderia comprar em qualquer padaria da cidade.
E assim fiz. Passei na tradicional Pauliceia, da rua Barão de Jundiaí, fui recebido por Arlete, que estagiava à noite no jornal como aprendiz de diagramação – anos depois se casou com José Aparecido da Silva, o Zequinha Neto (ambos já falecidos), que me sucedeu como correspondente do Estadão em Roraima – e quando fiz o pedido ela riu: “Batismo de foca”. Me contou o que estava acontecendo e me explicou que bodoni era uma das fontes da tipologia usada pela gráfica do JC. Como eu nunca fui de dar o braço a torcer, perguntei-lhe se havia algo com um nome parecido com bodoni.
Então, quando cheguei à redação estava todo mundo reunido. Os sorrisos jocosos foram substituídos por ares de exclamação e uma festa geral assim que coloquei a sacola sobre a minha mesa, abri e expliquei:
− Não tinha bodoni, então trouxe um quilo de torrone.
Quando, em novembro de 1979, cheguei à redação do Estadão como subeditor de Política − sob a chefia de outro dos meus grandes mestres, Eduardo Martins −, passei a ligar o alerta diariamente. Embora já com 37 anos e relativamente experiente como jornalista – chegara a editor-chefe do diário jundiaiense –, sabia que a qualquer hora, inevitavelmente, seria a minha vez de ser batizado. Por isso, passava o tempo imaginando qual seria a sacanagem de que seria vítima.
O tempo passou e nada. Pouco mais de três meses depois fui transferido para a Chefia de Reportagem e mais algum tempo já dividia o cargo com Moacyr Castro. E nada de batismo. Todavia, não perdi por esperar: ele veio. No meio da uma certa tarde, enquanto um temporal castigava a cidade, e sem repórter para escalar – todos já estavam na rua –, resolvi eu mesmo ir cobrir os estragos na favela da Vila Guilherme. Pedi um fotógrafo à produção e o único disponível era Domício Pinheiro, sobre quem escreverei qualquer hora dessas para contar um fato curioso sobre essa mesma reportagem, uma das minhas muitas memórias da redação.
Também precisaria de transporte e então perguntei a um dos subeditores da Geral como pedir um carro. Simples, disse-me ele: bastava ir à sala do editor-chefe, Miguel Jorge, explicar o que queria à secretária Elvira Palumbo − que me revelou ser também irmã do chefe do Tráfego, José Claudio Palumbo − e pedir uma autorização. Enquanto me preparava para seguir sua orientação, nos minutos seguintes esse meu colega – eram três os membros gangue dos sacaneadores que havia na Redação, cujos nomes não revelo por absoluta falta de provas − ele certamente ligou para a secretária e combinaram a tramoia.
José Cláudio Palumbo
Quando lá cheguei, não notei o sorriso irônico nos lábios de Elvira, mesmo porque estava com pressa. Ela rapidamente rabiscou algumas linhas numa folha de um bloco de notas, me entregou e lá fui eu para a sala do Tráfego. Quando entrei não havia nenhum motorista, apenas Palumbo. Disse-lhe do que precisava e lhe entreguei o bilhete. Ele leu e começou a rir. Não, ele não era irmão de Elvira Leão Palumbo, que mais tarde se formou em Direito, prestou concurso para a magistratura e se tornou juíza.
Entretanto, consegui o carro, fui à Vila Guilherme, eu e Domício fizemos a reportagem, voltei, a escrevi e entreguei-a ao editor, nessa época Francisco Antônio Augusti, o Fran, de saudosa memória. Pouco depois chegou uma foto mostrando a cabeça de uma boneca enterrada na lama, um flagrante sensacional, que será assunto de uma próxima crônica. Claro que havia sorrisos – também maliciosos – na boca na maioria dos meus colegas que já sabiam da sacanagem, mas eu me mantive firme, impoluto, disposto a não ceder. Afinal, não era a primeira vez que havia sido batizado. Só que agora não mais como um foca em busca de um quilo de bodoni.
Lamentavelmente, há alguns dias recebi com muita tristeza a notícia da morte de José Claudio de Carvalho Palumbo, de quem me tornei amigo. E com quem ainda viveria outro episódio provocado pela tríade de sacaneadores do sexto andar. Naquela época – anos da década de 1980 – era praxe na Redação se fazer diariamente, por volta das 17h30, uma reunião dos editores, incluindo o chefe de Reportagem. Nela se definiam as chamadas de primeira página.
Nesse tempo eu ainda conseguia andar distâncias curtas sem o uso da bengala. Numa dessas ocasiões, enquanto estava no Mesão discutindo alguns assuntos com a chefia – Luciano Ornelas era o secretário – alguém levou o bastão que eu guardava sob a mesa. Quando voltei, notei que ele havia sumido e comecei a procurá-lo. Venâncio, um dos contínuos – e também meu ponta-direita no time da Redação do qual eu era técnico −, percebeu minha aflição e não se conteve. Contou-me o que havia ocorrido: mandaram-no levar a bengala à sala do Tráfego e pedir para que ficasse guardada lá até alguém ir busca-la. Implorei para que ele fosse, pois estava quase na hora da reunião. Quando voltou Palumbo veio junto, com a bengala na mão. Constrangido, pediu-me desculpas e disse que ficou surpreso por encontrar meu apoio na sua sala e que há muitos minutos estava querendo saber de quem era.
Gargalhadas cercaram minha mesa e eu não tive como me segurar: também me debulhei em risos, até desbragado, como diz na linguagem caipira. Talvez tenha sio esse meu comportamento que me fez passar a ser respeitado, querido e, confesso com orgulho, até mesmo admirado por meus colegas, pois lhes mostrei que nada daquilo me ofendia. Afinal, vivíamos os tempos em que o politicamente correto, que hoje regra impiedosamente o comportamento obrigatório que todos devem a todos quando no mergulho de questões diversas, era tratamento dispensável. Chamado de aleijadinho quando criança e depois passando por várias denominações ao longo da vida, minha deficiência me faz hoje, na terceira idade, uma pessoa com necessidades especiais. E ninguém mais tem coragem de brincar com ela. É politicamente incorreto, impensável naqueles anos de ouro do Estadão.
Contei todas essas histórias e estórias, casos e causos usando-os como acervo para prestar minha homenagem, sentida e amargurada, a um amigo querido, respeitoso e solidário que conquistei no passado distante e que acabo de perder. Não por muito tempo, pois um dia qualquer desse meu pequeno futuro certamente nos encontraremos na Redação do jornal do Céu. Em meio às minhas lágrimas, rogo a Deus que proteja, per omnia secula seculorum, amém, a alma de José Claudio de Carvalho Palumbo. Ou simplesmente Palumbo, o chefe do Tráfego do Estadão. Dele guardo doída saudade e a singeleza que sempre encontrei em seu coração simples, despojado, mas grandiosamente generoso.
Plínio Vicente da Silva
A história desta semana é novamente de Plínio Vicente da Silva, uma homenagem a José Cláudio de Carvalho Palumbo, que morreu em 2/10, aos 81 anos. Palumbo trabalhou por 26 anos no jornal O Estado de S. Paulo, onde entrou como revisor, atuou na editoria de Economia e depois assumiu a Chefia do setor de Tráfego, função na qual se aposentou.
Nosso estoque do Memórias da Redação está muito baixo. Se você tem alguma história de redação interessante para contar mande para [email protected].