Fundo apoiará sustentabilidade de empresas jornalísticas num mundo que mudou

Especial Reino Unido

Luciana Gurgel

Por Luciana Gurgel (https://twitter.com/lcnqgur?lang=pt), especial para o J&Cia

Os desafios impostos às organizações de mídia pelas novas tecnologias e mudanças de comportamento do leitor, ouvinte ou espectador são uma preocupação em todo o mundo. Com efeitos mais ou menos severos de acordo com as realidades locais.

Vários países da Europa têm olhado a questão com atenção, incluindo o Reino Unido. O país anunciou esta semana a criação de um fundo para ajudar os veículos a sobreviverem nesse novo universo.

A iniciativa segue as recomendações do Relatório Cairncross, do qual já falamos aqui há alguns meses. Trata-se de um mergulho profundo nas questões que afetam a imprensa, conduzido pela jornalista e acadêmica Frances Cairncross, trazendo recomendações para a sociedade e para o governo.

O Future News Fund vai financiar experiências direcionadas à sustentabilidade financeira dos veículos. A autora do relatório comemorou: “A inovação é importante para que as empresas de mídia, principalmente as menores, sobrevivam e continuem atingindo amplamente a sociedade”.

Ele será administrado pela fundação de inovação. Nesta, começará a funcionar em outubro, e as ações serão executadas até abril de 2020. O programa poderá ser prorrogado e expandido conforme os resultados. Haverá atenção especial à imprensa regional, que aqui vem encolhendo a passos rápidos.

Mas não é só ela. O último relatório de circulação publicado pelo ABC, que audita os jornais no Reino Unido, confirma a tendência de redução do interesse do leitor pelos jornais impressos. Os mais atingidos foram os tabloides, que apesar da pecha de sensacionalistas conseguem dar bons furos por aqui.

The Sun, líder em circulação no país, despencou 12% em comparação a junho de 2018, passando para 1,28 milhão de exemplares. Sua versão dominical, Sun on Sunday, reduziu em 13% a tiragem.

Os diários Mirror e Star, do grupo Reach, igualmente diminuíram a circulação, em respectivamente 13% e 15%. A edição dominical do Mirror caiu 15% e a do Star Sunday teve tiragem 16% menor. Pior ainda ficou o Sunday People, diminuindo 18%.

Mas o drama não atinge somente os tabloides. A redução em circulação do The Times foi de 7%. O Daily Telegraph baixou em 12% sua tiragem. E The Guardian, 4%. Sobrou até para o Financial Times, que reduziu em 4% o número de exemplares na versão impressa.

Um dado curioso na lista: as edições dominicais dos veículos, que aqui têm nomes diferentes e são contabilizadas de forma independente no ranking de circulação, caíram mais do que as edições diárias.

Isso não significa que todos esses títulos estejam em crise financeira. Na realidade, temos visto vários deles com iniciativas inteligentes para captar os leitores que migraram para o acesso digital, algumas das quais já compartilhamos aqui. O Financial Times é apontado como um modelo. The Guardian conseguiu sair do vermelho sem paywall.

O fundo criado pelo governo é bem orientado na direção da inovação tecnológica. Não se trata de subsídio ou caridade. Mas sim de um apoio para que as empresas jornalísticas encontrem caminhos sustentáveis em um mundo que mudou e que não volta mais a ser o que era.

O uso da tecnologia para aprimorar o trabalho jornalístico é uma realidade. As plataformas digitais passaram a fazer parte do mundo contemporâneo, principalmente para pessoas mais jovens. O direcionamento de verbas publicitárias para canais que oferecem mais eficiência ao atingirem diretamente os públicos de interesse é uma questão de mercado.

Demonizar as plataformas digitais ou o leitor que se sente mais atraído pelas notícias encontradas em redes sociais não ajuda em nada na solução. E pode atrasar um processo que é inexorável: a tecnologia está aí para ficar. E o público aderiu a ela.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *