Príncipe Andrew ensina o que não fazer em uma crise

Por Luciana Gurgel especial para o J&Cia 

Luciana Gurgel

Era para ser uma entrevista definitiva, na qual o príncipe Andrew, filho da Rainha Elizabeth, se defenderia de críticas em torno da amizade com Jeffrey Epstein, bilionário condenado por abuso de menores que se matou em agosto na prisão. E rebateria a acusação de ele próprio ter tido relações sexuais com uma jovem de 17 anos.

Mas ao ignorar fundamentos elementares de administração de crises, o príncipe protagonizou o que deve entrar para a história como um dos maiores desastres de comunicação de que se tem notícia. A entrevista no programa Newsnight da BBC no sábado (16/11 ) é um festival de erros e  serve como alerta sobre o que não fazer em uma crise. 

Especula-se sobre o motivo de Andrew ter resolvido falar agora, sem que nada o impelisse a tal e sem provas capazes de reverter a situação. Talvez acreditasse que a emissora pública lhe seria condescendente. Errou. Emily Maitlis fez perguntas duras e pinçou cada deslize.  A edição explorou com maestria a linguagem corporal denotando insegurança.

Mostrar humildade e empatia com as vítimas está em qualquer manual de crises. Mas o príncipe foi crucificado por sequer mencionar as moças abusadas por Epstein. Disse não se arrepender da amizade por ter sido útil para o seu objetivo de promover negócios para o país. E ainda justificou ter passado cinco dias na casa do amigo em Nova York depois de sua condenação por ser uma pessoa honrada e por isso ter se sentido obrigado a ir até lá dizer que não podiam continuar amigos. Um telefonema não resolveria?

A óbvia necessidade de ser assertivo para convencer passou longe. Andrew lançou mão do inacreditável “não me recordo” ao ser indagado sobre se conheceu, saiu para dançar, fez sexo e foi fotografado com Virginia Roberts-Giuffre, que o acusa de tudo isso e exibe uma foto dos dois juntos. Irritou e deixou a impressão de que se não pode negar, é tudo verdade.

Ele tentou ainda desqualificar os detalhes revelados pela moça com argumentos que até poderiam (se verdadeiros) ser referendados com provas. Mas não foram e se tornaram ainda mais frágeis. Como o de que no dia do suposto encontro teria levado a filha a uma festinha na Pizza Express. Registros da segurança confirmariam. Ou que uma doença na época o impedia de transpirar, contradizendo o relato de que teria dançado até suar. Um atestado explicaria.

Em tempo de redes sociais, inconsistências assim são exploradas e ganham dimensão planetária. Ainda durante a entrevista começaram a circular no Twitter imagens de Andrew suado em solenidades. E abraçado a moças, ridicularizando a dúvida que levantou sobre a veracidade da tal foto usando a desculpa de que “não costuma demonstrar afeto em público”.

A falta de preparação adequada oferece ainda o risco de revelar fatos inconvenientes quando se está diante de um bom jornalista. O descuidado príncipe acabou confirmando ter-se encontrado recentemente com a socialite Ghislaine Maxwell, tida como captadora de moças para o séquito de Epstein, enroscando-se ainda mais no caso criminal.

Cadê os assessores? – Por que alguém com acesso a bons assessores incorreria em tais falhas? A resposta pode estar na sensação de impunidade que por vezes acomete poderosos, sejam membros da realeza, artistas, políticos ou CEOs. Adulados por falsos amigos e funcionários submissos, correm o risco de esquecer que a voz do povo nas redes sociais e a imprensa livre não são controláveis.

No dia seguinte à entrevista, por sinal, surgiu a notícia de que o assessor contratado para proteger a imagem do príncipe Andrew pedira demissão tão logo o cliente resolveu levar a ideia adiante. E que a equipe do Palácio de Buckingham não teria tido participação no desastre. Ponto para os profissionais de RP, que ganharam destaque nas bancadas dos principais telejornais e estão sendo reconhecidos como capazes de evitar situações semelhantes.

Além deles, quem está rindo à toa é a  Pizza Express, que ganhou uma exposição gigantesca nas redes sociais devido aos memes sobre o caso. Já Andrew não tem muito o que comemorar.

Aumentam as pressões para que ele deponha ao FBI sobre Epstein no processo movido pelas vítimas. Patrocinadores de sua iniciativa de apoio ao empreendedorismo estão deixando o barco. Jornais questionam da origem de seus bens até declarações racistas que teria dado anos atrás. A coisa não deve acabar em pizza para ele.

Em tempo: na tarde desta quarta-feira (20/11), Andrew anunciou que estava se desligando das funções oficiais.

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