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quarta-feira, agosto 4, 2021

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O bilhete de Joel Silveira

Quando o grande repórter vinha a São Paulo e rodava a noite com Mituo Shiguihara

Joel Silveira

Por Walterson Sardenberg Sobrinho

Quando Joel Silveira chegava na sucursal de São Paulo da Bloch Editores, vindo do Rio de Janeiro, carregando o corpanzil e toda a simpatia, o fotógrafo Mituo Shiguihara já sabia: teria noites animadas. Naquele final dos anos 1970, os dois se davam muito bem. Joel era sergipano de Lagarto. Mituo, paulista de Lins, onde o escrivão do cartório, inapto, esqueceu-se do “s” de Mitsuo ao grafar o nome de batismo. Apesar das extensas diferenças de origem, o velho repórter nordestino e o experiente fotógrafo nissei tinham imensas afinidades. Sim, a começar pelo gosto pelas noitadas.

Sabendo dessa ligação, Pedro Jack Kapeller, o Jaquito, sobrinho de Adolpho Bloch e diretor da editora, vivia propondo matérias para a dupla. Uma delas pareceu-lhe juntar o útil, o agradável e o departamento comercial.

Joel e Mituo fariam uma odisseia pela grande e pequena indústria de bebidas do País, das cachaças do interior nordestino aos espumantes da Serra Gaúcha, passando por destilarias mineiras, paulistas, fluminenses, catarinenses, o que houvesse. Na visão de Jaquito, era uma pauta que renderia anúncios publicitários na revista Manchete e, ao mesmo tempo, irrecusável pela dupla nipo-sergipana, muito chegada aos eflúvios etílicos. Consultado a respeito, Joel Silveira estranhou: “Você quer uma matéria ou duas cirroses?”. A matéria jamais foi feita.

No final de 1978, eu, aos 21 anos, recém-contratado, era foca − e foca total − na sucursal paulista, quando vi Joel Silveira pela primeira vez, entrando na redação da avenida 9 de Julho, na altura do Itaim-Bibi. Naturalmente, o jovem jornalista que fui sabia de quem se tratava. Eu já havia lido a devastadora e hilariante reportagem que Joel escrevera, ainda nos anos 1940, sobre a grã-finagem paulistana, para a revista Diretrizes, de Samuel Wainer. Havia sido republicada, por sinal, pela própria Bloch no livro As reportagens que abalaram o Brasil, naqueles anos 1970. Mas eu ainda não tinha a real dimensão de quão revolucionário era o estilo coloquial e divertido de Joel, se comparado ao ramerrão parnasiano da maioria dos seus parceiros de geração. Tampouco havia lido as candentes crônicas da Segunda Guerra dele, escritas no front, no calor da hora.

Tudo isso para dizer que, por obra do acaso, encontrei em casa um bilhete do Joel Silveira para o então chefe de Reportagem da sucursal paulista, Celso Arnaldo Araújo. Como foi parar nas minhas mãos? Creio que o meu velho amigo − e também professor sem cátedra, no dia a dia da redação − Celso pediu-me que fosse ao bairro da Liberdade colher dados policiais para completar uma matéria do Joel. Não me lembro de ter falado com o delegado, mas isso deve ter acontecido. É provável que Joel, em suas andanças com Mituo, tenha, digamos, se esquecido de apurar algumas informações. De qualquer maneira, o bilhete, que reproduzo aqui, é autoexplicativo.

Vi Joel Silveira duas ou três vezes na Redação. Não o acompanhei nos périplos noturnos paulistanos, pois ainda não era então tão amigo de Mituo para ser convidado. Tem mais: o fotógrafo, naqueles dias, devia me achar pouco mais do que um fedelho − o que eu era de fato. Com o passar dos anos dei a sorte de me tornar amigo do Mituo. Fizemos, inclusive, viagens juntos pelo Nordeste em matérias para revistas já não da Bloch, mas da Editora Abril. Corintiano fanático, gozador, bebedor de whisky nas pedras − abominava cerveja −, era um companheiraço, além de um mestre na fotografia, ofício que aprimorou, ainda jovem, numa escola de Nova York.

Joel Silveira morreu em 2007, aos 89 anos. Seu amigo Mituo não teve tamanha longevidade. Morreu em dezembro de 1988, fazendo uma reportagem com Expedito Marazzi − lendário jornalista da área de veículos − para a revista Caminhoneiro. O caminhão em que rodavam despencou na sinuosa e então perigosa estrada Mogi-Bertioga. Lá se foi o “nissei e aculturado”, com “mais cara de cearense do que de nipônico”, como Joel, sacana e carinhoso, descrevia no bilhete que despontou nos meus guardados, como uma estrela.

Já avisei ao Celso Arnaldo: o bilhete era endereçado a ele, mas não devolvo sob hipótese alguma.

O bilhete:


Walterson Sardenberg Sobrinho

A história desta semana é de um estreante no espaço: Walterson Sardenberg Sobrinho, o Berg. Ele foi repórter de Manchete; editor de Placar, Brasileiros e Viagem & Turismo; editor-chefe de Gosto, Próxima Viagem, MIT e The President; e diretor de Redação de Náutica, Contigo e Mergulho.


Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para [email protected].

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