Diversidade nas redações é tema que começa a ganhar fôlego na imprensa britânica

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

A baixa diversidade nas redações e seu possível reflexo sobre o papel social da imprensa vem sendo amplamente debatidos no Reino Unido. A profissão tem no país uma alta concentração de homens brancos e oriundos de classes mais favorecidas.

Não é comum ver no rádio ou na TV jornalistas falando com sotaque regional ou que denote origem humilde. Na área reservada à imprensa no Parlamento são poucas as mulheres acompanhando as sessões – boa parte delas, correspondentes estrangeiras. 

Várias iniciativas estão em curso para mudar essa realidade, conduzidas pelas próprias organizações de mídia e por entidades da sociedade civil. Uma das mais interessantes é capitaneada pela jornalista da BBC Olivia Crellin e pela professora da Universidade de Kent Laura Garcia, mexicana, também jornalista.

Elas criaram em 2018 o PressPad, um programa destinado a viabilizar estadia em Londres para aspirantes a jornalistas de outras localidades durante estágio não remunerado, prática comum aqui. A ideia surgiu porque o alto custo imobiliário da capital foi identificado como barreira para esses jovens conseguirem estagiar onde estão as principais redações do país.

O programa conecta profissionais iniciantes a jornalistas mentores que se disponham a orientá-los e a proporcionar hospedagem durante o estágio, que pode custar mais de £ 1 mil por mês, inviável para quem não tem recursos. Mais de 50 estágios já foram concretizados, com mentores de importantes redações, como o Financial Times.

Jornalismo de elite: distanciamento da realidade? – Não há unanimidade sobre a tese de que um profissional bem-nascido, que estudou em escola particular, não tenha capacidade de contar uma história de miséria. Ou que um homem não possa escrever com sensibilidade sobre o universo feminino. Há grandes exemplos mostrando que é possível.

Mas tem prevalecido aqui a ideia de que a diversidade de gênero e social nas redações pode contribuir para uma cobertura jornalística que reflita melhor as realidades diferentes de um país com tantas religiões, etnias, sotaques e até idiomas que não são o inglês.

Pesquisas mostram que há um longo caminho a percorrer para que as redações espelhem melhor a sociedade britânica. Um estudo feito pela ONG The Sutton Trust, dedicada à questão da mobilidade social, apontou em julho que 43% dos 100 jornalistas mais influentes do Reino Unido – editores e apresentadores de rádio ou TV – frequentaram escolas particulares.

Houve uma queda de 11% em relação a 2014, mais ainda assim é um número alto. Quando se compara à taxa da população, a discrepância é grande: apenas 7% dos britânicos estudaram em instituições privadas. E enquanto menos de 1% do povo do país teve a oportunidade de se graduar em Oxford ou Cambridge, entre colunistas de jornal a taxa é de 44%. O trabalho conclui que a imprensa é um dos setores profissionais mais elitistas do país.

Outra pesquisa, feita pela City University em 2016, revelou que 94% dos jornalistas do país eram brancos e apenas 0,4% se declararam muçulmanos. E o relatório State of the Nation de 2016, que trata de mobilidade social, indicou que só 11% dos jornalistas eram na época oriundos da classe trabalhadora, que representa 60% da população.

A preocupação não é apenas social, mas também comercial. Minorias raciais ou regionais que não se identificam com a cobertura da imprensa tradicional tendem a buscar informação em outras fontes, afetando a sustentabilidade dos veículos.

Sotaques regionais ausentes – Um dos desafios a respeito do aumento da diversidade na imprensa é o sotaque predominante na TV e no rádio, com poucos exemplos de jornalistas falando com acentos regionais. Esta semana Chris Mason, novo apresentador do programa político Any Questions?, da rádio BBC, abordou o assunto em uma entrevista para o The Times.

Ele é de Yorkshire, região com sotaque diferente do chamado “RP”, ou “Received Pronunciation”, a forma de falar do inglês britânico de classe média “neutro”, sem regionalismos nem associação com elites como a realeza, o chamado “Queen English”. Pela grande influência da BBC sobre o país, é também chamado de “BBC English”.

Mason acha que foi beneficiado por viver um momento no jornalismo em que a diversidade é uma vantagem. E sua forma de falar não foi um obstáculo para assumir o cargo. Mas observa que ainda são poucos os apresentadores com sotaque regional.  A situação também foi exposta pela apresentadora Steph McGovern, que em 2018 reclamou publicamente do salário mais baixo do que o de colegas com sotaque “posh”, que tem um sentido de “esnobe”, por causa de sua forma nortista de falar.

Trata-se de uma situação complexa. Alguns dos sotaques regionais britânicos não são facilmente compreensíveis por todas as pessoas, o que pode tornar confusa uma transmissão de rádio ou TV em escala nacional. Outros trazem à tona sensibilidades políticas, como a tensão ainda viva entre Irlanda e Inglaterra.

Equacionar todos os aspectos envolvidos nesse debate não é tarefa simples. Mas há muita gente pensando nisso. E mudanças reais podem acabar ocorrendo ao longo do tempo, para o bem do jornalismo e da sociedade.

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