Memórias da Redação ? Duas do velho Fê

Esta semana temos um colaborador estreante neste espaço: Ayrton Kanitz (kanitz@comunicasul.com.br), diretor da agência Comunicasul, de Porto Alegre, que trabalhou em Caldas Jr., Jornal de Santa Catarina, Coojornal, Deutsche Welle Internacional (Alemanha) e Diário do Sul. Também foi professor concursado do Curso de Jornalismo da UFSC. Duas do velho Fê 1972. Nestor Fedrizzi, já falecido, dirigia o recém-implantado Jornal de Santa Catarina (hoje da RBS), em Blumenau. Era o primeiro off-set do Estado, com pretensões a revitalizar o jornalismo catarinense. Na equipe predominavam gaúchos. Um deles, interpretando mal o new journalism, mandou bala na abertura de matéria sobre uma disputa em município vizinho. O tiroteio deu ao município ares de velho oeste. O prefeito não gostou e baixou na redação, acompanhado de um guarda-costas. Estavam os dois, mais Fedrizzi, no aquário. O velho Fê era um italiano educado, baixo e magrinho, que chefiara a extinta Última Hora em Porto Alegre. Paraninfo da turma de Jornalismo da PUC-RS em 1969, proferiu o discurso e embarcou imediatamente numa Rural Willys rumo ao Uruguai. Não deixava nada barato. Naquele momento, em Blumenau, Fedrizzi buscava agitadamente encontrar a matéria da discórdia na pilha colossal de papéis e jornais que habitualmente adornavam sua mesa. Não encontrava. E o prefeito insistindo, aumentando a voz, crescendo. Até que cometeu a asneira: “Num jornalista desse tipo só batendo”, disse, e deve estar pensando até hoje na desastrada ousadia. Agigantou-se o velho Fê – além de gentil e magrinho, era tremendamente invocado –, que irrompeu pela redação em direção à saída, dedo em riste: “Pois então quero ver se tu bate mesmo! Te espero na rua!”. Minutos depois, metade da redação acalmava Fedrizzi no meio do calçamento tórrido da av. São Paulo, enquanto o prefeito e o guarda-costas saíam de fininho pela porta lateral… Outra do velho Fê, apelido carinhoso. Estava na casa dos 40. Nós, dos 20. Participávamos em Tubarão, município do Sul de Santa Catarina, de um encontro estadual de imprensa. Fedrizzi vinha castigando, em artigos, um comentarista esportivo dado a práticas inaceitáveis no exercício da profissão. O desafeto profissional também participava do evento. Ao final, já nas despedidas, um coleguinha – provavelmente trazendo recado – se aproxima de Fedrizzi e segreda, em tom de advertência: “É bom o senhor parar de atacar o Fulano. Ele é meio brabo!”. Não teve tempo nem pro clássico deixa disso; o rosto imediatamente afogueado, Fedrizzi dá um passo para trás, levanta os braços e, para não deixar nenhuma dúvida, brada para o quarteirão inteiro ouvir: “Pois muito mais brabo sou eu!!!”, salta o Velho já procurando o adversário no entorno. Talvez não haja mais espaço para este perfil de diretor nos jornais de hoje… Mas que falta faz!