Brasil Econômico: dois anos de vida e a liderança como meta

Em outubro de 2009, após alguns meses de estudos, viagens, múltiplos contatos, o Grupo Ongoing desembarcava no Brasil, representado pela Ejesa e pela acionista Maria Alexandra Mascarenhas, para lançar um novo diário de economia, no vácuo deixado pela Gazeta Mercantil. Elegeu Ricardo Galuppo para implantar e comandar toda a operação editorial do jornal e emprestou ao País alguns de seus diretores portugueses, para ajudar no start-up da operação.

Tudo foi construído do zero e em poucos meses, com uma equipe de dezenas de profissionais, combinando experiência e juventude, o jornal chegou ao mercado em formato berliner, com muitas apostas. Algumas vingaram, como o próprio formato, os especiais aprofundando determinados temas; e outras não, como o suplemento cultural. No meio do caminho, surgiu a compra do Grupo O Dia, do Rio de Janeiro, e, com isso, a Ejesa ampliou tanto a sua atuação geográfica quanto o seu escopo editorial. Tentou emplacar uma versão paulista do carioca Meia Hora, mas desistiu em pouco tempo, desanimada com os resultados.

Galuppo, hoje transformado em publisher do Brasil Econômico, tem agora responsabilidades ainda maiores sobre os destinos do jornal. Mas, pela conversa que teve com este Jornalistas&Cia, não mostra nenhum temor em relação ao êxito do empreendimento. Ao contrário. Garante que o jornal chega até o final do ano à circulação de 50 mil exemplares e que a meta é em alguns anos alcançar a liderança do mercado, feito dos mais difíceis, face à consolidação, à retaguarda e ao prestígio alcançados pelo Valor Econômico em mais de uma década de vida.

Galuppo falou a J&Cia, em entrevista que você confere a seguir:

Jornalistas&Cia – Qual o balanço que pode ser feito do Brasil Econômico nesses dois anos de vida? Sua evolução comercial e de circulação atingiram, superaram ou ficaram aquém das expectativas?

Ricardo Galuppo – A avaliação é positiva e se tiver que resumi-la em uma palavra, seria sucesso. Nos orgulhamos da história do jornal. Os dois anos foram de muito trabalho, sobretudo porque ele não existia. Não era um produto que estava sendo reciclado. Construído a partir do zero, já está sólido o suficiente para partir para a segunda etapa, que é busca da liderança do mercado. Nossa evolução comercial e de circulação superou a expectativa inicial.

J&Cia – Qual o atual patamar de circulação (entre assinaturas, venda em bancas e distribuição dirigida)?

Galuppo – O Brasil Econômico trabalha com a meta firme de uma tiragem diária de 50 mil exemplares (chegaremos a esse patamar no final do ano), com forte concentração no Sudeste, no Sul e no Distrito Federal. Por se tratar de um jornal destinado a um nicho muito específico, a venda em bancas tem impacto marginal na circulação. Ela representa, com boa vontade, no máximo 5% de nossas vendas. A receita é composta por publicidade legal, assinaturas e publicidade, como é praxe nesse segmento. E, também, pelos projetos especiais. Por enquanto, ainda somos o 2º jornal de economia do País. O público do Brasil Econômico é formado por 95% de AB e apenas 5% de C. Não podemos nos esquecer que, em 2010, a atividade da Ejesa foi marcada pelo desafio de integrar o Brasil Econômico, fundado em 2009, com os jornais do grupo O Dia, do Rio de Janeiro. Isso, claro, gerou exigências específicas. A empresa fez investimentos vultosos, de mais de R$ 100 milhões no ano passado, e era nossa obrigação voltar nossas atenções para esse aspecto.

J&Cia – O relacionamento com as demais empresas jornalísticas voltou a um patamar de normalidade, ou a empresa continua desfiliada da ANJ, após a pressão feita pela instituição contra a Ejesa, questionando seu controle acionário?

Galuppo – Da nossa parte, nunca houve problema. As vemos como concorrentes, mas não temos nenhum problema com nenhuma delas. A Ejesa, não é segredo, posicionou-se contrária à postura adotada pela ANJ, que fez questionamentos indevidos a respeito de nossa legalidade. Por isso, optou por desfiliar-se de uma entidade que, na nossa opinião, faz distinções entre seus associados. Somos uma empresa brasileira e 100% dentro da lei. Ponto final. Ela tem entre os acionistas o grupo português Ongoing, nos limites estabelecidos pela Constituição. Pessoalmente, falando como cidadão brasileiro, eleitor, reservista, contribuinte, com carteira de vacinação em dia, sou contra o limite de investimentos estrangeiros nos meios de comunicação. É a minha posição pessoal. Mas como executivo da Ejesa e publisher do Brasil Econômico, tenho dito que a empresa cumpre a legislação nos mínimos detalhes. E, por essa razão, se considera sob a proteção da Constituição brasileira.

J&Cia – Essa, aliás, já é uma questão superada para a Ejesa?

Galuppo – Sim. Mas enquanto a ANJ continuar a nos atacar, não há possibilidade de voltarmos a nos filiar. A Ejesa foi criada para ser um novo player no mercado jornalístico brasileiro, que há tempos não recebia novos investimentos como os que estamos fazendo.

J&Cia – A criação do cargo de publisher, que você agora ocupa, tem quais objetivos institucionais e de mercado? Aliás, quais os planos da Ejesa para o Brasil Econômico em 2012?

Galuppo – A função de publisher é nova e mal compreendida na imprensa brasileira. A mudança se deu após uma série de conversas com os acionistas sobre a necessidade de expandir o alcance do Brasil Econômico. Na verdade, acrescentei algumas funções às que já desempenhava, como a representação do jornal e a validação de alguns projetos comerciais. Para 2012, a meta é a liderança.

J&Cia – Um dos objetivos da Ejesa para o jornal, revelado quando de sua implantação no Brasil, era a aposta na internet, de modo a transformar o título num jornal nacional de fato, sem as limitações do papel, Isso evoluiu? Os planos permanecem?

Galuppo – Os jornais e revistas estão se tornando cada vez mais multiplataforma e isso significa que, além da versão impressa, precisam ter um portal, versões para iPad, iPhone e mobile. O presente, não mais o futuro, é multiplataforma. O Brasil Econômico já nasceu multiplataforma. Precisamos avançar nesse aspecto e isso está em nossos planos.

J&Cia – O líder do mercado, Valor Econômico, a propósito, fez um importante investimento com o objetivo de consolidar sua presença na web. Foram várias contratações, inclusive fora de São Paulo, apenas para produzir conteúdos específicos para o site. O Brasil Econômico terá também equipes para as edições online?

Galuppo – Não temos informações específicas sobre os planos do concorrente e, por essa razão, prefiro esperar pelos resultados para comentar esses movimentos. Nossa ideia, no entanto, é um pouco diferente do que está descrito em sua pergunta. Mas ficando apenas na pergunta, posso dizer que sonho com o dia em que não existam mais barreiras entre plataformas. O jornalista produz o conteúdo de qualidade e a empresa o embala, no momento e na forma mais adequada a cada uma delas, naquela que for mais conveniente. Recentemente, os sites da Ejesa passaram a ser abrigados pelo portal iG. Isso tem ampliado nossa audiência. O objetivo agora é tornar o site ainda mais ágil, quente e dinâmico. Com a exploração adequada dos meios de comunicação.

J&Cia – E quanto aos investimentos em tecnologia mobile “tablets, celulares etc.”

Galuppo – Estamos investindo nos conteúdos para iPad e iPhone. O conteúdo para iPad do Brasil Econômico é composto pela edição impressa em e-paper, além de oferecer a possibilidade de acesso às últimas notícias, índices de bolsa e outros conteúdos. Estamos atentos a tudo isso.

J&Cia – Outra aposta do jornal era em priorizar algumas coberturas, para aprofundar a abordagem de temas em que a redação apostasse, sem a preocupação de levar para suas páginas um noticiário extensivo. Como isso evoluiu?

Galuppo – No ano passado publicamos 35 suplementos sobre temas relevantes, que demandaram uma análise mais aprofundada, como Fórum Econômico Mundial, Previdência Privada, Relações com Investidores, Especial Eleições e Sustentabilidade. Neste ano, o número será ainda maior.

J&Cia – O jornal trouxe profissionais experientes para suas hostes, mas ao longo do curso de dois anos também perdeu, outros. Como avalia o perfil do mercado, hoje, para profissionais especializados em Economia? Há forte demanda por eles? Os salários estão sendo puxados pra cima?

Galuppo – As redações são dinâmicas e, assim como a nossa, outras estão sendo obrigadas à reciclagem imposta pelo aquecimento do mercado. Isso é positivo, claro. Nossa ideia é, na medida do possível, trazer profissionais experientes e, ao mesmo tempo, profissionais jovens e sem vícios, que possam ser treinados por nós. Nossa principal contratação, este ano, foi a de Joaquim Castanheira [ver J&Cia 808]. Trabalhamos juntos cerca de 15 anos atrás, na revista Exame e eu sempre fui um admirador do trabalho do Joaquim. Outras virão antes de dezembro.

J&Cia – Qual é o tamanho da equipe editorial atual, incluindo sucursais?

Galuppo – Não quero falar em números pois o que vale hoje não serve para amanhã. Mas o ideal é uma equipe que tenha em torno de 70 jornalistas, sem contar os fotógrafos e o pessoal da arte. Tem que ser uma equipe nem tão grande que, em caso de solavancos, precise ser reduzida com um programa de demissões em massa, nem tão pequena que falte gás para fechar o jornal. Essa é a meta.