Memórias da Redação – A conversa entre Elio Gaspari e o dono do JB

A história desta semana é de Paulo Nogueira, atualmente vivendo em Londres, de onde escreve o blog Diário do Centro do Mundo, em que ela foi publicada em 9 de abril (veja aqui). Paulo foi editor-assistente da Veja, editor de Veja São Paulo, diretor de Redação de Exame, diretor-superintendente de uma Unidade de Negócios da Editora Abril e diretor Editorial da Editora Globo. Reiteramos o pedido para que os leitores nos enviem colaborações, pois só uma chegou na última semana.   Grandes Momentos do Jornalismo: a conversa entre Elio Gaspari e o dono do JB A greve dos jornalistas de São Paulo tinha sido um fracasso em 1979. Acontecera o pior: os jornais noticiaram a greve. Os grevistas, no apogeu do entusiasmo pré-greve, sonhavam que os jornais simplesmente não sairiam porque não haveria gente para fazê-los. Mas saíram, feitos por fura-greves que, num efeito colateral trágico para todos os jornalistas, eles próprios incluídos, mostraram aos patrões que era possível trabalhar com redações bem mais enxutas do que as que existiam naqueles dias. Nem a famosa arma secreta prometida numa assembleia por Juca Kfouri – que fazia parte do comando de greve – foi capaz de salvar o movimento. Meu pai, Emir Nogueira, então editor de Opinião da Folha, estava – infelizmente — certo. Papai, veterano de outra greve, a de 1961, viu o que os demais jornalistas não enxergaram: não havia condições de vitória. Numa das maiores demonstrações de coragem que vi em minha vida, papai disse o que pensava perante uma multidão ávida por decretar greve. Foi vaiado e xingado. E naturalmente aderiu à greve tão logo ela foi declarada. O Brasil como que respirava greve, depois de mais de vinte anos de ditadura militar durante os quais parar era considerado subversivo. O gelo foi-se derretendo com o progressivo enfraquecimento dos militares no poder e com a aparição de operários aguerridos no ABC paulista, liderados por um certo barbudo de nove dedos conhecido como Lula. Os militares tinham beneficiado amplamente os ricos, e os trabalhadores começavam, enfim, a buscar mais espaço. O símbolo da desigualdade ficaria registrado numa frase de Delfim Netto, o poderoso ministro da Economia. Segundo ele, o bolo tinha que crescer primeiro para depois ser distribuído. Uma epidemia de greves tomou o País depois que os metalúrgicos abriram a porta. Umas foram bem-sucedidas. A dos jornalistas de São Paulo foi um monumental fracasso. O que era para ser uma festa transformou-se rapidamente num velório. Numa reação bem apropriada às circunstâncias, o Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro sugeriu que seus filiados usassem uma tarja preta numa quinta-feira em sinal de luto, numa demonstração de solidariedade aos colegas paulistas. Na redação do Jornal do Brasil, o lendário JB, muitos jornalistas acataram a sugestão. Entre eles estava um jovem de talento excepcional chamado Elio. Elio Gaspari. Aos trinta e poucos anos, depois de uma ascensão veloz a partir do cargo de assistente do colunista social Ibrahim Sued, Elio era editor de Política, editorialista e autor da coluna Informe JB, a mais importante da imprensa carioca e nacional naqueles dias. O jornalismo vivia o auge da Era do Papel: jornais e revistas ditavam a agenda do País. Não havia ainda a internet, e a televisão era para jornalistas de segunda classe. Inquieto, carismático, espirituoso, Elio já tinha os atributos de comandante de redação que lhe valeriam o apelido de General na década de 1980 em Veja, na qual ele formou com José Roberto Guzzo provavelmente a maior dupla que vi em ação, uma espécie de Lennon & McCartney do jornalismo nacional. Às 16h do dia do luto, os editorialistas do JB se reuniram, como sempre, com o dono do jornal, Nascimento Brito, o Doutor Brito, numa sala ampla, em que se destacava “uma portentosa mesa-redonda, que comportaria todos os ainda ministros da Dilma”, nas palavras de outro jovem brilhante da equipe do JB de então, Sílvio Ferraz, editor de Economia. “Os editorialistas diziam o que pensavam e ouviam o que o dono queria que dissessem, no clássico jogo de compensações”, como recordaria, anos depois, Sílvio. “O Dr.Brito cedia, os coleguinhas também”. (Para sorte minha, Sílvio seria meu chefe na redação de Veja pouco tempo depois. Era o chefe ideal para um iniciante como eu: competente e compreensivo. Adicionalmente, no julgamento justo e criterioso do jornalista José Nêumanne, era também o jornalista mais bonito do Brasil.) Naquela tarde de solidariedade aos colegas paulistas, logo que os editorialistas entraram na sala, Nascimento Brito viu o luto na camisa azul clara de Elio. Era o único que o portava. Travou-se, então, um diálogo antológico – e que conta muito sobre a personalidade vulcânica e independente de Elio Gaspari. “Que história é essa, Elio, virou comunista?”, perguntou Nascimento Brito, empostando a voz. “Comunista eu sempre fui, Dr. Brito”, respondeu imediatamente Elio. “Agora, a tarja na camisa é porque o meu sindicato é dos jornalistas. Se o senhor me der um punhado de ações do JB eu mudo de sindicato e arranco esse pedaço de pano agora”.