Jornalistas querem igualdade salarial e o empoderamento das mulheres como fontes

* Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

Não chega a ser uma guerra dos sexos. Mas o papel das mulheres no jornalismo vem sendo discutido em diversas frentes no Reino Unido. Um movimento que faz refletir sobre diversidade de gênero na profissão e também a respeito da perspectiva sob a qual as historias têm sido contadas pela imprensa em todo o mundo.

A situação que mais vem mobilizando o meio jornalístico aqui é a ação judicial aberta por Samira Ahmed, apresentadora do programa NewsWatch, da BBC. Há duas semanas ela entrou na Justiça para exigir da emissora pagamento retroativo da diferença de £ 693 mil entre o seu salário e o do colega Jeremy Vine durante o tempo em que ele estrelava o Points of View (atualmente apresentado por uma locutora em voiceover). A ela devem se seguir pelo menos dez outras jornalistas da rede pública.

O NewsWatch acolhe manifestações dos espectadores em relação à cobertura da emissora e questiona os editores, colocando no ar suas explicações. Tem 15 minutos, vai ao ar nas noites de sexta-feira e é reprisado aos sábados. O programa que Vine apresentava tem formato semelhante, o que fundamentou a reclamação trabalhista.

Na ação, Ahmed reclama do salário seis vezes menor do que o do colega: £ 3 mil por edição, fora outros penduricalhos. As justificativas que a BBC está usando para se defender enfurecem ainda mais as mulheres.

Para começar, argumentou que um dos programas era da linha de notícias, enquanto o outro fazia parte da grade de entretenimento. Sustentou que Vine é uma estrela reconhecida por 79% da audiência, enquanto Samira Ahmed seria conhecida de apenas 29%. E apontou que as perguntas que o apresentador fazia aos seus convidados eram mais complexas – inferindo-se que ele seria mais capacitado do que a moça.

A jornalista rebateu observando que o trabalho de criticar a própria emissora requer um alto grau de diplomacia, profundo conhecimento das questões que envolvem o jornalismo e uma habilidade enorme para entender e navegar na estrutura hierárquica da BBC. Entre as muitas vozes que se colocaram a favor de Ahmed está a NUJ (National Union of Journalists).

O caso de equal pay vem em um momento particularmente sensível no Reino Unido sobre o assunto. O último relatório divulgado pelo Governo, em outubro, indicou que o pay gap (diferença entre salários de homens e mulheres) aumentou pela primeira vez desde 2013, embora tenha diminuído na faixa abaixo de 40 anos.

Para piorar, a BBC vive um inferno astral no que diz respeito aos altos salários, por ser uma emissora pública. Há um movimento criticando os valores pagos a estrelas como o ex-jogador de futebol Gary Lineker, apresentador do Match of the Day, que virou uma celebridade em redes sociais e fatura £ 1,75 milhão. Uma tempestade perfeita.

Mulheres na redação e nas aspas – Outra frente desse debate é a presença das mulheres no jornalismo. E não apenas como profissionais atuantes nas redações, mas como fontes das matérias. Esse foi o tema de um encontro promovido pela Bloomberg na semana passada, em conjunto com a organização Women in Journalism.

O painel reuniu representantes da própria Bloomberg, da BBC, da City University e do The Times. Na plateia, jornalistas de várias idades. Além das situações relacionadas ao sentimento de discriminação de gênero, discutiu-se bastante o desafio de ter mais mulheres sendo entrevistadas, fortalecendo o seu papel na sociedade e também criando empatia com a audiência feminina.

A Bloomberg tem um programa formal para aumentar a presença feminina em suas reportagens e eventos. Há metas a serem atingidas, e até uma série de media trainings para executivas das áreas de finanças e negócios, capacitando-as para conceder entrevistas. Jornalistas da empresa só podem participar de painéis em que haja diversidade de gênero. BBC e Financial Times também desenvolvem iniciativas semelhantes aqui.

Mas o desafio não está apenas na decisão do repórter sobre quem entrevistar. Muitas profissionais presentes ao encontro, inclusive da própria Bloomberg, relataram dificuldades em encontrar mulheres dispostas a falar. Seja porque as corporações ainda nomeiam mais homens do que mulheres como porta-vozes, especialmente em indústrias fortemente masculinas como o setor financeiro, mas também porque nem sempre as mulheres querem se expor, segundo os depoimentos no encontro.

A boa notícia é que os esforços conscientes para transformar essa realidade surtem efeitos.  A Bloomberg tem conseguido elevar o número de mulheres como fontes e como entrevistadas nos programas da TV,  demonstrando o poder das iniciativas bem organizadas para a inclusão feminina.

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