Vanusa, um raio de sol numa manhã chuvosa

Vanusa, com Antônio Marcos e os filhos

Por Plínio Vicente da Silva

Era uma manhã chuvosa, de céu enfarruscado do final de setembro de 1968. Eu acabara de abrir o programa Cidade em Dose Dupla, que apresentava de segunda a sexta-feira na Difusora de Jundiai. Meu parceiro era nada menos que José Paulo de Andrade, o lendário comandante de O Pulo do Gato, que manteve no ar por mais de 50 anos na Rádio Bandeirantes. Como sempre fazia, ele chegava por volta das 8h, estacionava seu Gordini em frente ao prédio da emissora na Barão de Jundiaí, e pouco depois já estava no estúdio para juntar-se a mim no comando do programa.

Nesse dia me contou que convidara um astro da música jovem e que faria supresa até sua chegada. Lá pelas 9h foram aparecendo alguns nomes menos cotados, entre eles uma loirinha simpaticíssima, nascida em Cruzeiro, no Vale do Paraíba, mas que acabara de chegar de Uberaba, no triângulo mineiro, onde passou a infância e parte de sua juventude. Seu nome? Vanusa Santos Flores, ou simplesmente Vanusa.

Ela despontou para o Brasil tão logo chegou ao meio artístico. Passou, então, a fazer parte daquela que foi a maior revolução da música jovem, iniciada com a liberação dos costumes na metade final dos anos 60 do século passado, movimento que acabaria tomando conta do mundo todo. Com sua voz belíssima conquistou espaço entre a turma da Jovem Guarda, que nessa época tinha como estrelas, por exemplo, as divas Wanderleia e Cely Campelo.

Tímida diante de um dos maiores nomes do rádio brasileiro, Zé Paulo percebeu, deixou-a à vontade e apresentou seu primeiro disco, um LP de 33 rotações cujo título era Mensagem. Antes de rodar uma das faixas, lhe pediu que cantasse, à capela, um pedacinho de uma das músicas. Ela surpreendeu a todos nós com sua voz afinadíssima em um trecho de Eu sonhei o meu sonho mais lindo. Depois, enquanto ia para o ar a faixa toda de Para nunca mais chorar, todos nós, eu “babando” mais que todos, cercamos aquela menina linda como se fôssemos seu fã-clube. Não estávamos errados: com o tempo ela se tornaria um dos maiores sucessos do iê-iê-iê e depois uma cantora romântica cuja voz só os males do corpo acabariam por tirar de nós o prazer de ouvi-la.

Vanusa foi naquela manhã de setembro um sopro da primavera que acabara de chegar. Tão surpreendente e tão extraordinariamente agradável que sequer conseguimos dar a mesma importância ao grande astro que, logo depois, estaria nos visitando nesse mesmo dia, naquele mesmo programa: Mário Marcos. Diziam os experts que aquele menino com cara de anjo e pose de galã seria tão famoso no futuro como já eram Roberto e Erasmo Carlos. Não foi. O Marcos que faria sucesso mesmo seria seu irmão Antônio, mais tarde o grande amor de Vanusa e com quem ela se casaria.

O resto da história todos conhecem. Uns, os mais novos, pelo que foi escrito e outros, os mais antigos, como eu, trazem na memória a Vanusa que conhecemos desde a Jovem Guarda. Até este domingo, 8 de novembro de 2020, quando a morte levou aquela loirinha linda, de voz maravilhosa, que surgiu diante dos meus olhos como um raio de sol numa fria e chuvosa manhã de primavera no final de setembro de 1968.


Plínio Vicente da Silva

Plínio Vicente da Silva, assíduo colaborador deste espaço, desde Roraima presta uma homenagem à cantora Vanusa, falecida em 8/11.


Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para baroncelli@jornalistasecia.com.br.

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