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terça-feira, agosto 3, 2021

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O adeus a Rodolfo Fernandes

A morte precoce, aos 49 anos, abreviou o sofrimento de Rodolfo Fernandes, seus familiares e amigos na tarde de sábado (27/8), na Clínica São Vicente, no Rio. A causa foi insuficiência respiratória, decorrente de esclerose lateral amiotrófica (ELA).

Diagnosticada havia dois anos, a doença é um distúrbio degenerativo do sistema nervoso central, ainda sem cura e de causa desconhecida. Provoca restrições progressivas na capacidade motora, resultando em paralisia, dificuldade para falar, engolir e respirar, sem comprometer a parte cognitiva. Rodolfo trabalhou até a última 5ª.feira (25/8), quando reuniu, no final da tarde, os editores-executivos para decidir a primeira página do dia seguinte e do final de semana, conforme depoimento de Luiz Antônio Novaes, o Mineiro, e Helena Celestino, publicado no jornal.

O imortal da ABL Merval Pereira resumiu: “Marcou sua passagem pelo jornal com uma linguagem que refletia a visão crítica e irônica do mundo e, com os cadernos especiais, […] aprofundando os temas mais importantes do momento”.

Nos últimos tempos, para se comunicar, Rodolfo usava um equipamento com tecnologia eye tracking. Projetado e desenvolvido para o cientista britânico Stephen Hawking, o método se compõe de um software que tem o teclado no monitor, sobre o qual há uma câmera hipersensível, que percebe o movimento dos olhos. Esta relação entre o usuário e a tela, mediada pelo olho, é o que existe de mais avançado na interação entre o ser humano e a máquina. A pessoa com paralisia olha para uma letra, que é acionada, depois outra e, assim, sucessivamente. Uma voz do computador repete a palavra escrita, que também aparece digitada. Independentemente disto, é possível se conectar.

Por esse sistema, Rodolfo podia abrir seu computador, ler jornal todos os dias, trocar e-mails. Miriam Leitão comenta: “A doença avançava e, com gestos, atitudes e delicados sinais, ele foi conduzindo a Redação a entender o sentido da palavra “inevitável” […]. No final, só lhe restava o olhar; e era suficiente”. Filho de Hélio Fernandes, dono da Tribuna da Imprensa, na juventude Rodolfo ia para o jornal nas férias escolares, trabalhar como faz-tudo na Redação. Depois de formado, foi para a Tribuna, em Brasília e, a partir daí, desenvolveu carreira independente. Esteve em Folha de S.Paulo, Jornal de Brasília e Jornal do Brasil.

Chegou à sucursal do Globo, como repórter, em 1989. Seis anos depois, voltou ao Rio, como editor de Nacional e, em um ano, passou a editor-chefe. Dele diz Hélio Fernandes, hoje com 90 anos: “Acho que todos vão concordar comigo: era um homem sem inimigos. Ao contrário do pai, o que prova que nem tudo é genética”. Em sua gestão, O Globo ganhou 93 prêmios, nacionais e internacionais.

Da estada em Brasília, chamou para trabalhar com ele, no Rio, Ascânio Seleme, agora nomeado para sucedê-lo, e que diz: “Um analista estupendo dos bastidores da política nacional. Sempre encontrava um ângulo novo, um ponto de vista diferente da história, da notícia. Era capaz de dar furo em coletiva”. E também o editor-executivo Luiz Antônio Novaes, o Mineiro, amigo daquela data. O Globo tem uma história de diretores de Redação exigentes, duros com sua equipe, desde Evandro Carlos de Andrade.

O cargo, em qualquer veículo, não costuma ser simpático. Na gestão de Rodolfo, poucos se lembram de um diretor tão querido por sua equipe. Cora Rónai define: “Ele herdou a garra do pai, o senso de humor do tio [Millôr Fernandes] e a inteligência desconcertante dos dois. Herdou também a natural elegância da mãe. Era firme e decidido, mas ao mesmo tempo doce e suave”.

E Ancelmo Gois completa: “Conheci poucos com tão elevado sentimento de amizade e generosidade, que distribuía igualmente para reis e plebeus”. Para nós, deste Jornalistas&Cia, foi, mais do que tudo, um amigo. Quanta notícia exclusiva, quantos detalhes das notícias nebulosas, sempre seguidos da recomendação: “Pode editar como quiser”.

A última que enviou, de forma espontânea, em 22/3, já valendo-se da tecnologia de escrita por meio dos olhos foi essa: “Caro, veja que legal. Com a nomeação da Adriana Oliveira para editora de Rio no lugar do Paulo Motta, pela primeira vez na história do Globo, e talvez da imprensa, todas as editorias do jornal são chefiadas por mulheres, à exceção de dois enclaves machistas onde esta realidade ainda vai demorar a chegar: Esporte e Carro.

A lista é impressionante: O País, Rio, Inter, Ciência/História, Economia, Segundo Caderno, Revista O Globo, Rio Show, Morar Bem, Revista da TV, Megazine, Boa Viagem, Prosa & Verso e, naturalmente, o Ela. E o que é melhor: foi um processo natural, sem precisar de cotas ou ações afirmativas, baseado unicamente na competência das envolvidas. Em breve, isso sim, o jornalismo vai precisar de cotas para os homens…”. Antes dela, em 19/1, quando o arguimos sobre a nomeação de Ascânio como seu adjunto, escreveu com os olhos: “O adjunto sempre existiu na nossa estrutura. Eu mesmo fui adjunto do Ali [Kamel], que foi adjunto do [Luís] Erlanger etc. É apenas a oficialização de uma situação que já existia de fato”. Rodolfo deixa dois filhos, Felipe e Letícia, futuros jornalistas, do primeiro casamento com Sandra Araújo.

Após o velório na tarde de domingo, 28/8, no Memorial do Carmo, seu corpo foi levado ao Crematório do Caju.

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