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sábado, maio 23, 2026

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#diversifica – Especial: Subjetividades – Transcrição: Ep. 3 – Entrevistada: Luciana Barreto

[ LUANA IBELLI / ABERTURA ]

Olá! 

Tá começando o #diversifica, um podcast sobre diversidade, equidade e inclusão no jornalismo. Esse é o especial Subjetividades.

Eu sou Luana Ibelli, e tenho muito prazer de estar nesse terceiro episódio, onde a gente vai entrevistar mais um jornalista que tem história em representar diversidade nas redações. 

A nossa convidada é uma referência sobre negritude na TV. Uma inspiração para meninas negras que hoje podem olhar para um grande jornal e falar:

Quero ser assim quando crescer! 

Luciana Barreto, muito obrigada por ter aceitado nosso convite. 

[ LUCIANA BARRETO ]

Olha a responsabilidade dessa apresentação! 

Eu que agradeço, vai ser ótimo conversar com vocês.

[ LUANA IBELLI ]

E para mim é uma alegria muito grande, assim, pessoal, né? 

Porque a gente trabalhou numa emissora, né, na TV Brasil, durante um tempo… e era muito reconfortante quando eu entrava ao vivo, começando ainda, e você estava lá para me receber no estúdio…

Então, só queria te dizer que isso me deu muita força para estar aqui para fazer tudo que eu faço. Então, já começo assim, já, talvez chore um pouquinho ao longo da entrevista… 

[ LUCIANA BARRETO ]

[Risos] 

[ LUANA IBELLI ]

… não sei, vamos ver. Mas, brigada. 

[ LUCIANA BARRETO ]

Eu falava assim.

Gente, quem é aquela menina linda, pelo amor de Deus! Essa garota tem que apresentar. 

Pelo amor de Deus!

[ LUANA IBELLI ]

Pois é, e só aconteceu de eu ir porque tive essa referência, vi você falando… mas eu vou adiantar isso ao longo da entrevista, né. 

Pra gente começar, eu queria que você falasse um pouco da sua trajetória, né? O que faz a sua essência, assim, dessa jornalista que você é hoje, e um pouquinho do que você faz, atualmente. 

[ LUCIANA BARRETO ]

Bom, eu… diferente de algumas outras jornalistas negras que estão hoje na televisão, eu sou uma mulher, preta, de periferia. 

Então, a minha trajetória, não dá para entender o que eu sou hoje, ou jornalismo que eu faço, né, um jornalismo extremamente engajado com questões de direitos humanos, ou de humanismo, né. Eu posso falar que é um jornalismo de humanismo, porque o leque é bem amplo, de questões que eu que eu gosto de trabalhar… Não dá para entender sem entender a minha origem, né? 

Então, eu nasci numa família muito pobre, da periferia da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. E lá eu entendi, junto com uma família muito engajada, também, em luta por direitos, direitos básicos, eu tô falando, é direito a saneamento básico mesmo, é direito a ter acesso à estrada, ônibus, direitos muito básicos.

Então, quando eu cresci nessa família que tava muito engajada nessa luta por direitos, eu já na adolescência comecei a perceber que a gente precisava de ter canal de denúncias. E eu comecei a perceber também que a gente não era a notícia. 

E aí eu fui entendendo que o jornalismo tinha esse viés, pelo menos um viés elitista, classista, e que a gente talvez não fosse a notícia se a gente não entrasse lá para falar.

Olha! Essa redação precisa de alguém que veja essa população. 

Então, são exemplos básicos, por exemplo, a Baixada Fluminense tem 13 municípios. 

Se tivesse um acontecimento que virasse notícia no Rio de Janeiro, a pessoa, o jornalista poderia dizer, até a esquina da rua tal, com a rua tal, do bairro de Copacabana, digamos assim. 

E se acontecesse algo na Baixada Fluminense falava, aconteceu na Baixada Fluminense

São 13 municípios. 

Aí, já mostra o classismo do tipo de jornalismo que a gente ainda faz nas redações de grandes veículos de comunicação.

[ LUANA IBELLI ]

E o que você tá fazendo hoje, no seu trabalho? 

Assim…só se alguém ainda não viu e não conhece, né? 

Mas é muito gostoso ouvir da pessoa [risos]. 

[ LUCIANA BARRETO ]

Hoje eu sou âncora da CNN, já há três anos, tô no início do projeto, eu posso dizer que eu estou antes do projeto, né? Eu sou uma das primeiras contratadas da emissora. Coloquei emissora no ar. 

Faço o jornal Visão CNN, que é um jornal que faz o início da tarde, uma transição para um jornalismo mais pesado, que é o jornalismo da CNN mesmo, que é um jornalismo muito voltado para a política, economia, sociedade. E a gente faz essa transição. 

Então, o meu jornal é um jornal de muita análise… duas horas de análise sem nenhuma reportagem, só fala e análise, fala e análise. E muito link. 

Então, eu faço essa transição para um jornal que vai ficando um pouco mais político, que é o 360 com a Daniela Lima.

Essa é a minha função.

[Risos] 

[ LUANA IBELLI ]

E aí eu quero voltar um pouquinho, que você estava falando do jornalismo que a gente ainda faz, eu acho que tem a ver com esse questionamento que é um pouco do centro do que a gente traz na discussão desse podcast, né, com o tema subjetividades.

Quero que você fale um pouquinho se você acredita que é possível ser objetivo no jornalismo. Se é possível ser neutro, imparcial. 

E como que isso está relacionado com a pauta da negritude.

[ LUCIANA BARRETO ]

Olha… 

A  imparcialidade e a neutralidade são palavras que são objetos de estudos de comunicação… eu acredito que a gente pode ter, é como é que eu vou dizer…

Um certo equilíbrio.

Não vou a gente nunca vai ser imparcial, né? Não tem como você ter uma uma escolha da notícia, a visão do mundo que você tem…Não tem como você trazer essa imparcialidade total e completa para notícia, para o olhar da notícia. 

O que você pode trazer é um foco mais de… como é que eu vou dizer? De equidade para notícia no sentido de equilíbrio mesmo, sabe? Então, eu acredito muito no olhar com equilíbrio. O que é o olhar com equilíbrio? Por exemplo, na CNN, a gente tenta, é estar muito focado nos fatos.

Fatos são fatos. 

Então essa, esse é o mote da CNN. Então, eu acredito muito nos fatos, tô muito focada nos fatos.

Agora, cá entre nós. Quando a gente escolhe o que é notícia, a gente já tá colocando um pouco da nossa visão de mundo, do que, como eu disse como primeiro exemplo, do que nós somos. 

Quando você tem uma redação, que é o que acontece hoje no Brasil, e aconteceu mais ainda no passado, uma redação de homens, brancos, como a mesma origem social, é muito provável que o que você tem como o que é notícia seja muito semelhante, né? O olhar sobre a notícia.

Então, para te responder… Eu tô dando voltas aqui, para te responder… eu vou te responder com exemplos… sobre o meu trabalho, especificamente. Você consegue isso em todas as emissoras que eu trabalhei. Vamos pensar no Internacional. 

Você consegue trazer uma notícia de um atentado terrorista, por exemplo que acontece num num país do Hemisfério Norte, então é um país da Europa, ou os Estados Unidos… e essa notícia, ela vai conseguir reverberar durante horas, em uma televisão brasileira ou num veículo de comunicação do Brasil.

Você vai ficar horas tratando essa notícia, então isso é escolha, nossa, do que é notícia, é importante. Um atentado com cinco mortos, por exemplo, nos Estados Unidos. Um atentado com 250 mortos na Nigéria…Moçambique, ou qualquer país da África, a gente não consegue dar 30 segundos. Quando a gente realmente acha que é notícia, ou não. 

Então essa escolha, ela tá carregada de um leque de problemas que a gente carrega nas nossas redações. Entre eles o racismo estrutural.

É um leque de problemas, né, do que a gente realmente acha, do que a gente tem empatia, do que é a sensibilidade. Então, esse eu… esse eu, essa formação, esse profissional que está ali olhando pra notícia e escolhendo o que é notícia, e que tenta uma neutralidade, ele não vai conseguir ser imparcial.

Porque ele traga todo esse olhar, todo esse eu para a notícia. É só um exemplo muito simplório pra te mostrar que você não consegue trazer essa imparcialidade, ainda que você queira. 

 Agora, você pode estar muito focado nos fatos. E fatos são fatos.

[ LUANA IBELLI ]

E você falou que… pelo menos a minha compreensão, né, é que a gente consegue chegar nesse equilíbrio quando a gente tem esses profissionais, lá atrás, pautando esses temas com essas visões diversificadas. 

E aí eu queria trazer esse dado, né? É o Perfil Racial da Imprensa Brasileira, que foi feito pelo Portal do Jornalistas e pelos Jornalistas e Cia…no ano passado, mostrou que só 20% dos  jornalistas nas redações do Brasil se autodeclaram pardos ou pretos, ou seja, negros.

E a gente tá numa população que é mais de 50% né? Nós, pessoas negras, pardas e pretas somos mais de 50% da população. Quais são as consequências, né? Primeiro… não as consequências, mas por que em 2022 os jornalistas não estão nas redações ainda, os negros ainda não estão nas redações brasileiras? 

[ LUCIANA BARRETO ]

Bom, isso é um problema muito clássico numa falha do nosso sistema educacional, né? Então, a nossa educação, do Brasil, melhorou muito da década de 70 até especialmente depois da nossa Constituição Cidadã de 1988, o Brasil fez o dever de casa, a gente tinha um grande número de analfabetos…

A gente vem de um país escravagista, com pouco mais de 130 anos de abolição. A gente lembra que não muito longe, negros não estudavam e mulheres também não frequentavam a   escola. 

A gente tá… vai comemorar agora o bicentenário da independência e sabe disso, que a gente tinha restrição a mulheres e aos negros. 

Nossos problemas são estruturais. 

A gente conseguiu avançar… a gente conseguiu avançar até a página que a gente queria avançar. Porque a gente lida com o racismo, e o racismo ele impede, definitivamente impede, o avanço de parte da população.

Então… o Achille Mbembe, que é um pensador, né, camaronês, ele fala muito sobre a necropolítica, que não é o só o matar, mas muitas vezes o deixar morrer, e a gente… o Brasil, o estado brasileiro por muito tempo deixou ou deixa ainda parte da sua população ao Deus dará. 

Não se importa, por exemplo, com a qualidade do ensino que é ministrado em boa parte do Brasil, longe dos grandes centros urbanos. 

Não se importa se essas pessoas…o alto índice de evasão escolar que tem nesses lugares. Não se importa se a gente está numa periferia, numa escola de periferia, e tem dezenas de trocas de tiros, tiroteios, por ano, né? 

Se tem… se a gente fala de entrada de policiais nas favelas, e se aquelas escolas ficam dois três dias sem aula naquela semana. E tem pesquisas que mostram, por exemplo, que na Favela da Maré… eles fizeram uma pesquisa dessa, os alunos chegam a ficar cerca de um mês sem aula por ano… 

[ LUANA IBELLI ]

Nossa… 

[ LUCIANA BARRETO ]

… o que significa que durante o ensino fundamental, eles ficam um ano, eles perdem um ano de estudo, durante o ensino fundamental. 

Isso é uma forma de deixar acontecer

É um deixar morrer, a educação, também. Né? Isso também é uma parte de uma necropolítica.  

Então, respondendo objetivamente à tua pergunta, onde está essa população negra, onde está essa população que poderia contribuir com esse olhar mais diverso dentro das redações? 

É essa população aí.

Um ou outro vai conseguir furar a bolha, eu sou parte disso, não porque o estado brasileiro quis, mas porque um ou outro consegue através de muito… não esforço pessoal, mas de muita renúncia pessoal.

Eu não gosto de falar de esforço pessoal, porque a gente não tem que falar, essa história de heroísmo. Não é uma história heroica, a gente não tá falando de meritocracia aqui, a gente tá falando de renúncia. 

Então, através de muita renúncia pessoal, um ou outro consegue. E aí… a gente tem essa diversidade falha nas redações. E aí a gente…

O sistema todo é falho, no final das contas, né? 

O sistema é falho, o que a gente fala é falho, porque a gente não consegue ter minimamente essa essa diversidade que o Brasil oferece, que talvez seja o maior motor do Brasil nos grandes…centros de poder, ou nas grandes profissões de poder.

E a gente sabe que a comunicação é uma profissão de muito poder.

[ LUANA IBELLI ]

É, e você falou das renúncias, né? E eu fico pensando em barreiras também. 

Muitas pessoas negras, quando falam da dificuldade da entrada, das barreiras, então, desde a educação, como você falou…

E aí, a gente… essa população já tá atrás, né? 

Então, para acessar uma redação, que também já é um círculo um pouco mais fechado, muitas vezes o próprio processo seletivo traz uma série de requisitos que não fazem parte da base da maior parte dessa população, né, Lu? 

[ LUCIANA BARRETO ]

Exatamente. 

A gente tem uma grande… pra ser justa, uma grande leva de educadores que pensam o Brasil, né? Não à toa, muitos educadores são perseguidos, porque pensam o Brasil, pensam como a gente pode ser melhor como nação…

Pensam como a gente pode ser melhor na nossa identidade, pensam como a gente pode ser melhor nas nossas divisões. E com isso, como a gente pode ser melhor como um todo, né?

Mas a gente não pode fechar os olhos que existe uma grande resistência, porque esse Brasil ainda é lucrativo para uma pequena parcela que se agarrou, muitas vezes, ao poder, né? Se agarrou ao privilégio, se agarrou a estar em alguns espaços e não deseja dividir isso.

Então, é, seria muito ingênuo pensar que não, é só um deixar morrer. É só um deixar acontecer. Acho que tem um propósito aí de não dividir, não ter… é uma questão de territorialidade mesmo, de ocupar esses espaços e gente que não quer sair desses espaços.

Não é à toa que a nossa política, ela não é nada representativa do que é a população brasileira, e a gente pode pensar… a política pensando nas grandes famílias que estão ainda passando de pai para filho, o poder em determinadas regiões…

Mas a gente pode falar também do quanto a nossa política é formada por homens brancos, né? Então, acho que tem uma parcela que não quer sair desse poder, e se sentiu muito ameaçado, eu acho… 

O Brasil vem fazendo, depois de 1988, especialmente, né, epois da Constituição Cidadã, o Brasil vem fazendo todo um um trajeto na tentativa de ter mais inclusão de pessoas, oferecer, ofertar maiores possibilidades para a população mais pobre… 

É, a gente pode falar tudo, com todos os erros, todos os acertos, mas a gente percebe que existe essa tentativa. E isso causa um grande conflito no Brasil que não conseguiu resolver seus problemas de identidade [risos] …

[ LUANA IBELLI ]

[Risos]  

[ LUCIANA BARRETO ]

… não conseguiu resolver seus problemas de história.

Não conseguiu resolver seus problemas, né? A gente precisa sentar e conversar. 

O professor…ai meu Deus, agora… me fugiu o nome. 

[Pausa]

O professor Silvio Almeida

[ LUANA IBELLI ]

Uhum…

[ LUCIANA BARRETO ]

… de vez em quando fala sobre isso, né, essa semana mesmo tava lendo um texto dele, e ele diz que a gente não tem que, talvez, refundar o Brasil, reconstruir o Brasil, não, acho que já nem cabe mais isso.

Tem que construir.

Porque, realmente, a gente tá com problemas bastante graves, assim.

[ LUANA IBELLI ]

E aí, eu fico pensando também, né, no quanto… em quais as consequências, né, dessa falta de pessoas nas redações, falando disso.

Quais as consequências disso nas narrativas jornalísticas, né, que a gente tem.

Por exemplo, você falou também nessa questão…de como é uma questão de poder, né? 

A Danila de Jesus, que é uma mulher preta especialista em formação de pessoas, ela fala isso…

Até aqui, a falta de diversidade te beneficiou

Então, acho que é uma questão, né… que realmente as pessoas não vão permitir muitas vezes, né, que chegue na redação…

Então a gente já tem essa dificuldade, mesmo, de estar nesses lugares. 

[ LUCIANA BARRETO ]

É, porque… não só o que a gente traz com a gente, né, o nosso conteúdo… é uma questão de ocupar espaços que são desejados pelo poder. 

Exemplo, eu sinto muito desde que virei âncora, e isso é quase toda uma vida, mas conforme eu vou conseguindo mais visibilidade, conforme eu… inclusive mostro mais competência no meu trabalho, conforme isso vai avançando, eu sinto também avançando o discurso de ódio.

Né, que é algo inclusive que é motivo de estudo meu, foi o meu tema de mestrado. 

E eu percebo que ter uma mulher negra num espaço de poder ainda é um incômodo muito grande para parte da população brasileira. E esse incômodo, você pode sentar calada em frente a essa pessoa, essa pessoa pode te ver calada. 

O incômodo é você estar ali.

Porque essa pessoa se sente ameaçada de você estar ali. É ocupar esse espaço. 

É como se a sociedade brasileira dissesse, esse espaço é um espaço que não deveria te pertencer, esse espaço tem um dono… 

Tem um tipo… tem um um fenótipo esse dono, né? 

Então, isso aconteceu muito tempo com mulheres, né? Depois, hoje a gente tem uma redação com muitas mulheres, ou redações com muitas mulheres. Temos muitas mulheres ancorando, mas é… mulheres ancorando.

Agora, mulheres negras… isso é como se dissesse assim, já é demais, aí já é demais. 

E isso faz com que a gente tenha o que a gente chama de tokenismo, né? Que é, uma ou outra. Como se fosse como se as empresas escolhessem um ou outro representante para dar a resposta de diversidade que parte da sociedade busca.

A gente sabe desse jogo, a gente… todo mundo sabe desse teatro, né? 

Tá todo mundo no mesmo teatro, mas a gente… [risos] 

Cada um sabe qual é o seu lugar nessa peça, mas você não consegue trabalhar para mudar isso se você não estiver nessa engrenagem. 

Então você faz parte dessa engrenagem, no meu caso, eu faço parte da engrenagem que é uma engrenagem no mundo, não é uma engrenagem específica ou da minha empresa ou do meu país, é uma engrenagem no mundo, e eu faço parte dessa engrenagem me utilizando dela para denunciar isso, que eu acredito que não é correto.

[ LUANA IBELLI ]

É, né? E aí a gente até entre-  

Sempre que a gente fala nessa questão, da inclusão nas redações, tem as posições, né, que as pessoas ocupam. Porque às vezes você pode estar ali, né, como uma repórter, mas o seu editor, que é quem tá acima de você, não tem esse letramento, né?

Então às vezes fica muito difícil a gente propor pautas ou realmente mudar alguma coisa, né?

Você já sentiu isso, assim, essa dificuldade? De… eu até tento, mas existem mais pessoas aqui que não estão permitindo, assim, por exemplo.

[ LUCIANA BARRETO ]

Como eu te disse, eu faço parte da engrenagem tentando mudar, então eu sou uma pessoa chata! 

[Risos]

[ LUANA IBELLI ]

[Risos] 

Às vezes tem que ser, né, infelizmente. 

[ LUCIANA BARRETO ]

É… Não, as pessoas gostam de mim, acho que sim, não sei.

[ LUANA IBELLI ]

Suspeito… suspeito… [risos]. 

[ LUCIANA BARRETO ]

[Risos] 

Que que eu faço? Eu nem me sinto mais cansada de fazer isso, já é o meu padrão. As minhas equipes, ou as pessoas que trabalham no meu entorno, trabalham comigo, já é natural esse letramento. Sai, e eu vou o tempo inteiro, já nem percebo que eu tô fazendo palestra na reunião de pauta [risos]. 

É muito normal pra mim, é muito… quando eu olho, tá todo mundo me olhando, ou então eu já chego e tão me perguntando, vem cá, você viu esse caso, o que você acha, a gente traz assim ou assado? 

É muito natural, a minha equipe, as minhas equipes, todas as equipes com as quais eu já trabalhei, todas elas… acho que começou a fluir, sabe?

Já se interessavam por diversidade, já se interessavam por temas de direitos humanos, se interessavam por temas de gênero, de orientação sexual…

E quando eu via tava muito… tudo fluindo. Então eu não preciso mais dizer o que é notícia, qual o olhar pra notícia, flui muito, mas desse convívio, dessa fala, dessa troca.

E aí você percebe que… cara, tem muita gente boa nas redações. 

Jornalista é muito gente boa, né? 

[ LUANA IBELLI ]

Uhum… 

[ LUCIANA BARRETO ]

E tem muita gente boa nas redações. 

Acho que a gente precisa, e eu falei isso no Twitter uma vez, a gente precisa de cursos, de letramento, mesmo, racial… De cursos de formação, de diversidade mesmo, convivência, pluralidade. 

Porque, se você traz os olhares, por exemplo, periféricos, todos os outros olhares pra esse convívio, é muito rápido, jornalista é muito esperto e muito rápido.

Tudo flui.

Então, assim, eu não tenho muitos problemas com as minhas equipes, são pessoas que trabalham comigo, rapidamente pegam o meu jeito… 

Acho até, me sinto muitas vezes admirada porque, quando eu saio de algum lugar sempre tem festa, tem choro, então… 

[ LUANA IBELLI ]

[Risos] 

[ LUCIANA BARRETO ]

…eu não se tão chorando de tristeza, ou de alegria… 

[ LUANA IBELLI ]

[Risos] 

[ LUCIANA BARRETO ]

[Risos] 

Mentira! Mas, sempre tem festa, tem choro, então eu acredito que tem essa troca, esse conhecimento, e esse letramento constante mesmo. 

[ LUANA IBELLI ]

É muito legal, né, você poder exercer esse papel ali com as suas equipes, mas eu fico pensando também no papel institucional, acho que isso é importante, também, pra inclusão. 

E você comentou isso antes, né, que a gente poderia ter mais cursos, você acha… como você acha que institucionalmente… 

Porque, assim, é muito legal que você, Luciana, consiga ter essa disposição, e essa energia, esse vigor, pra falar pras pessoas, né, e fazer esse letramento. 

Mas, as instituições talvez precisem ter ações mais concretas? Porque nem todo mundo, né, vai estar nesse papel. 

[ LUCIANA BARRETO ]

É, essa parte cansa, né? 

Essa parte cansa não só no jornalismo, na comunicação, mas em todas as empresas. 

A gente sabe que a pauta de inclusão é uma pauta muito atual, moderna, né, todo mundo fala em ESG… Tudo muito perfeito desde que não chegue aos grandes cargos, né, desde que você não ocupe os cargos com maior remuneração, com maior poder… 

Então, essa pauta, ela vai ficando cada vez mais rara conforme você vai subindo na hierarquia da empresa. 

Eu instigo sempre as empresas que eu estou, sempre instigo essa pauta. Muitas das vezes eu vejo com felicidade que vem de cima o estímulo de, não, vamos fazer sim… tem essa formação. 

Agora, nosso grande desafio no Brasil, e aí agora eu falo que é mais no Brasil, porque a pauta de ESG ela já é muito mais avançada em países da Europa, ou nos Estados Unidos, eu pude, por exemplo, ver de perto nos Estados Unidos, viajei pra entender um pouquinho como eles fazem essa inclusão…

Recentemente também fui pra Noruega ver como é essa inclusão lá…

[ LUANA IBELLI ]

Legal. 

[ LUCIANA BARRETO ]

…e eu vejo que eles estão muito à frente, de nós.         

Porque aqui é tudo muito misturado. Vou voltar o que eu falei, dos nossos desafios. 

A nossa pauta ESG, ela vai esbarrar muito, entre outros problemas, mas um problema muito grave do Brasil, que talvez seja o problema mais grave do Brasil…

O racismo estrutural. 

A gente tem um problema extremamente grave. E aí, ele vai permitir, que é o que acontece no Brasil, nas empresas, que a gente distribua, faça a inclusão, né? Mesmo de pessoa com deficiência… a gente faz a inclusão em cargos que a gente acha que pode fazer. 

Mas a gente nunca chega nos cargos de maior poder. Ou chega muito raramente. 

Esse é o nosso desafio, porque quando a gente consegue trazer essa diversidade, ou levar essa diversidade pra hierarquia, subir na hierarquia da empresa, a gente consegue fazer um movimento muito grande. 

E outras pesquisas, muitas pesquisas mostram que essas empresas conseguem aumentar os seus lucros, com essa diversidade.  

[ LUANA IBELLI ]

Parece que só na hora que a gente fala de lucro é que anima, né? Os olhos, aí… 

[ LUCIANA BARRETO ]

Pois é! 

[ LUANA IBELLI ]

… dos espaços de poder.

[ LUCIANA BARRETO ]

E aí, no Brasil, por isso que eu falo que eu acho que a gente tem um problema maior, que no Brasil, nem o lucro anima quando a gente fala em inclusão e diversidade.

Me parece que o brasileiro tem uma dificuldade muito grande de abrir mão do seu privilégio, né.

Como dizia Martin Luther King…

[ LUANA IBELLI ]

[Risos]

[ LUCIANA BARRETO ]

… ninguém abre mão do seu privilégio assim, sem luta. 

Mas aqui no Brasil, me parece que a luta é intensa, porque as pessoas tem muito medo de perder os seus privilégios.  

[ LUANA IBELLI ]

E é fácil manter o seu privilégio nesse contexto, né, porque você pode dizer que não tem um profissional negro pra ocupar aquele cargo de gestor. 

Mas será que não dá pra preparar esse profissional, como que você vê isso? 

[ LUCIANA BARRETO ]

Conversando, eu faço muita palestra, medio muitas mesas e hoje em dia, me parece que a gente tem esses profissionais. 

Me parece que essa foi uma grande desculpa, nos últimos anos, pra dizer que não tem inclusão, eu não tenho esse profissional, eu não tenho esse profissional formado… ai, a gente precisa desse estudante que fale inglês, as pessoas não falam inglês… 

E aí você descobre, mediando mesas, conversando com gente do ramo, gente da formação, gente de RH, que… olha, não é bem assim. 

Por exemplo, qual é a garantia que você tem que as pessoas brancas que você contratou falam inglês? Muitas vezes, sequer fazem uma prova, né? De que elas realmente falam inglês.

Então, você tem ali, os empecilhos e as barreiras são colocadas pra que essas pessoas não ocupem determinado espaço. Mas não necessariamente essa qualificação dessa pessoas é a principal barreira. 

Me parece que não é, a gente tem essa qualificação. 

Muito pelo contrário, a gente sabe, por experiência própria, de quem [é] minoria, pessoas que tem que ultrapassar barreiras, ou abrir mão de muita coisa pra chegar a determinado lugar, precisam mostrar duas ou três vezes mais a sua competência.       

[ LUANA IBELLI ]

Sim…

[ LUCIANA BARRETO ]

Então a gente tem profissionais extremamente competentes, o que a gente tem é uma série de barreiras sendo colocadas pra que essas pessoas não cheguem a determinados locais.

[ LUANA IBELLI ]

O Jairo [Marques], que fez uma entrevista antes de você, né, ele falou um pouco disso também, justamente desse cansaço. 

E eu fico pensando, quantas vezes a gente já ouviu que os nossos passos vêm de longe, mas o nosso cansaço com certeza, né. 

Eu acho que não existe uma pessoa negra… claro, né, não que não exista.

Mas é muito comum na nossa história, como você falou… eu ralei muito, tive que trabalhar enquanto fazia faculdade, a minha história também é assim, e a de tantas outras pessoas… 

E eu fico pensando no quanto isso cansa a gente.

E eu fico pensando também que, ao mesmo tempo que algumas pessoas conseguem ultrapassar esse cansaço, outras não. 

Então acho que a gente perde muita gente também, né, no meio do caminho. 

[ LUCIANA BARRETO ]

Perde! 

E eu gosto muito de falar a frase que eu vou falar agora, toda palestra que eu vou dar, eu falo contra a meritocracia, obviamente, né, porque é um grande erro falar em meritocracia nesse país, especialmente. 

Mas eu falo muito sobre essas histórias heroicas, sabe? A gente tem que batalhar pra falar contra histórias heróicas. 

Vez por outra, as pessoas querem contar a minha história e falam, ah, a Luciana, filha de um motorista de ônibus, veio lá da periferia de Nova Iguaçu, e conseguiu, hoje é âncora da CNN…

Eu falo, eu não quero que conte a minha história heróica, não tem que ser uma história heróica. Porque essa é uma história de muita renúncia.

E é uma história que, no Brasil, é uma história que leva as pessoas a adoecerem. 

Física e mentalmente.

Então, a gente não deve incentivar esse tipo de história, eu conto a minha história e falo… sempre frisando, é importante que o Brasil permita que as pessoas… dê condições pra que as pessoas não tenham que passar pelo que eu passei, é diferente.    

[ LUANA IBELLI ]

Pois é. 

[ LUCIANA BARRETO ]

É diferente. 

Agora, a gente precisa dar condições. Porque você não pode exigir que as pessoas passem o que a gente passou. E chegue a determ-

E tem gente que chega num lugar xis, que parece um lugar de maior privilégio, e adoece ali. 

E tem gente que desiste naquele lugar xis. 

E tem gente que se mata naquele lugar xis, a gente…   

[ LUANA IBELLI ]

Com certeza! 

[ LUCIANA BARRETO ]

… tem que falar sobre isso! 

[ LUANA IBELLI ]

Sim! 

[ LUCIANA BARRETO ]

A gente tem que falar sobre o adoecimento mental.

Então a gente não deve exaltar as histórias heróicas, muito pelo contrário. 

A gente tem que falar contra elas o tempo inteiro.

Não é bonito! Não é bonito que alguém tenha enfrentado toda a sorte de dificuldades pra chegar em determinado xis…

Isso é uma vergonha para esse país, isso é uma vergonha para o Brasil…

[ LUANA IBELLI ]

[Risos] 

[ LUCIANA BARRETO ]

A gente não pode permitir que isso aconteça mais! 

As pessoas tem que ter o mínimo de condições, esse país tem que dar o mínimo de condições pra que essas pessoas cheguem a esse local como outras pessoas chegam.

Outras pessoas privilegiadas, ricas, e que muitas das vezes, herdaram todo o seu privilégio em cima da dor de pessoas como nós.

[ LUANA IBELLI ]

Com certeza, Lu. 

Nossa, é muito forte você falar isso, né, porque quando eu lembro que a minha mãe, pra que eu pudesse ir pra faculdade, ela tinha que andar quatro quilômetros pra trabalhar, pra que eu tivesse transporte pra fazer a minha escola, enfim… pra diversas outras coisas. 

Eu não queria isso. 

Tanto é que quando eu penso em ter o meu filho, e com certeza você pensa isso com a sua filha, você não quer que a sua filha passe por isso, você não quer ser essa mãe. 

A gente quer que outras histórias sejam contadas, né. 

Realmente, é claro que a gente admira, e é muito admirável você trazer a sua trajetória, e a nossa trajetória de sofrimento, de luta, mas é fundamental que as pessoas entendam que a gente não precisaria sofrer tanto pra fazer o mesmo que outras pessoas… 

Porque no fim a gente tá falando de que, de chegar e ser uma jornalista, e poder fazer o seu trabalho com excelência, independentemente de todo esse sofrimento, né…

[ LUCIANA BARRETO ]

É…

[ LUANA IBELLI ]

…de todas essas renúncias. 

[ LUCIANA BARRETO ]

As pessoas querem continuar contando, e exaltando, olha que legal, que linda essa história, porque elas querem continuar contando a mesma história.

Só que cabe a nós, especialmente, que passamos por essas histórias, alertar que a gente não quer continuar contando a mesma história.

A gente… essa história é pra você ficar envergonhado.

Essa história é constrangedora, nossa função é constranger vocês, vocês no Brasil, que a gente não pode mais continuar passando pelas mesmas histórias. 

A gente não quer um ou outro que chegue a determinado local, à custa de renúncia, sofrimento, dor… e tantos outros caiam pelo caminho.

[ LUANA IBELLI ]

Que outras histórias você acha que a gente poderia estar contando sobre a negritude, se não fosse tudo isso que a gente… não pode falar, por causa de todos esses problemas e essas dificuldades? 

[ LUCIANA BARRETO ]

É, eu acho que a gente vai… isso inclui também o branco pobre, que às vezes a gente deixa de falar, mas eu acho que projetos, por exemplo, como o projeto de educação de Sobral, no Ceará, um projeto que vem revolucionando, né, vem dando muito gás aos educadores no Brasil e mostra que, olha, é possível, tá? É possível na educação pública… 

A gente tem um ou outro colégio público no Brasil, né, lá no Rio de Janeiro a gente tem o Pedro II, por exemplo, tradicionalmente um colégio que recebe alunos de todos os lugares e a gente tem vários desses colégios espalhados pelo Brasil, mostrando que é possível.

O poder no Brasil, digamos, então eu tô falando agora de quem está no poder e são muitos dos nossos governantes, parlamentares, eles fingem, olham pro lado e fingem que não é possível.

Na verdade não é interessante. Não é uma pauta que tem importância. 

Mas eu acho que a nossa saída tá por aí, a nossa saída tá no que muita gente tá dedicando a vida, e acho que os educadores são as pessoas que a gente tem o tempo inteiro que colocar nesse lugar de pódio, porque são pessoas que estão batalhando pelo Brasil, nós estamos aqui graças aos educadores…  

[ LUANA IBELLI ]

Sim, com certeza. 

[ LUCIANA BARRETO ]

E é através disso, dessa luta, que a gente chega e que vai fazer a inclusão, e aí eu não tô falando só do negro, eu tô falando inclusive do branco pobre. 

Eu tô falando de gente que não tá conseguindo quebrar essa barreira. 

[ LUANA IBELLI ]

Uhum. 

E uma vez que a gente quebra essa barreira, né, agora voltando um pouco pra falar sobre essa coisa da redação, que eu acho que você tem muita coisa pra compartilhar nesse sentido…

Você tem algum exemplo mais recente de você sentir que a sua presença fez toda a diferença pra mudar o rumo da conversa? 

[ LUCIANA BARRETO ]

Ah, acho que todo dia eu tenho esse exemplo, né. 

Eu converso com parlamentares o tempo inteiro… eu consigo ter uma autonomia, a minha empresa me dá uma autonomia pra eu falar o que eu acho que tem que falar com os parlamentares.

E o tempo inteiro eu sinto o viés que talvez não tenha sido abordado em vários outros jornais, entendeu? Então, eu tô sempre trazendo questões que talvez eles nem tenham pensado, entendeu? 

Então, eu não tô falando só dos parlamentares, eu tô falando dos especialistas, do economista que tá falando sobre neoliberalismo e eu puxo o tema da fome… e tá, mas onde se encaixa a ajuda… Eu tô falando com o educador e tô falando das escolas periféricas.

É isso que eu acho que tá o tempo inteiro presente. 

O meu jornalismo carrega comigo tudo o que eu sou, então eu trago essa mulher que tem a experiência, que viveu, que sabe o que é a fome, sabe o que é a violência…

Eu não tô falando sobre algo que eu nunca vi. Eu conheço e conheço de muito perto. 

Sabe o que que é encontrar corpos pelas ruas, porque passei também por isso, né, pelo extermínio, conheço o extermínio… conheço a postura da polícia…

Conheço muito das dificuldades dos estudantes, por exemplo, pra permanecerem na escola. Conheço o que é uma família destroçada pela violência por conta de, muitas vezes, pais e mães que nunca estiveram dentro de casa… 

Tudo o que você só vê na periferia, pais e mães que saem pra trabalhar na madrugada e voltam quase de madrugada. 

Eu sei o que é ver crianças o tempo inteiro sozinhas dentro de casa, entendeu? Se criando. São crianças que se criam… então… porque o estado também não dá creche, a escola não dá possibilidades, então… 

Só quem sabe o que é uma… uma menina por exemplo, quando fala sobre a menina não ter um absorvente higiênico, que é uma pauta que foi muito recente agora, e que parte do Brasil conheceu essa pauta agora, eu falei…

Oi? Isso é o Brasil! [Risos] 

Vocês não conhecem o Brasil!   

Então, assim, eu trago muito isso comigo, sabe? Eu sei a glamourização da pobreza, né, achar que a pobreza é não ter carne. 

Oi? 

A pobreza é não ter comida mesmo. Não estamos falando de carne, estamos falando de restos, de comer o que der… planta, né… inseto. É o que traz. 

Então muitas dessas… dessa Luciana, dessa pessoas que vivenciou, que conhece, que sofreu e chorou junto, vem comigo no jornalismo. 

Então, acho que isso é diário.   

[ LUANA IBELLI ]

E tem muita gente com você, né, quando você tem a oportunidade de fazer alguns comentários, eu tava falando um pouquinho antes da gente começar a entrevista, que cê tá lá no Twitter, e surge um comentário seu diante de algo tão óbvio que precisa ser dito e muitas vezes não é dito, né, diante de pessoas que tão ali, e você fala, nossa, porque essa pessoas tá aqui? E falando isso.

E você vai lá e faz um comentário, e traz essa realidade. Eu acho que isso tem um valor tão grande, Lu, pra tanta gente… pra mim, pra quem tá lá vendo então, é visível mesmo isso que você falou, nos seus comentários e o que a gente quer é ver cada vez mais gente, né.  

E tem muitas mulheres hoje, né, muitas mulheres negras comentaristas que fazem esse papel, é muito legal de ver isso.     

[ LUCIANA BARRETO ]

É, eu acho que o olhar, né, o olhar que o jorn-

O que o jornalista tem mesmo de mais importante é o olhar que ele tem sobre os fatos, né, e as várias possibilidades de abordagem que ele traz nos fatos. 

Eu recentemente saí de um jornal que eu dividia com dois outros profissionais, Elisa Veeck e Rafael Colombo, e no dia da despedida eles começaram a falar, o Rafael Colombo começou a fazer uma homenagem e foi muito espontâneo, porque não tinha nada programado. 

E eu fui me emocionando, mas quando ele foi falando sobre isso, né, sobre o quanto eu agregava com o olhar, com as perguntas, e ele brincou e falou assim… ele nem sabe, vou falar isso agora, ele vai descobrir. Ele falou assim.

E as perguntas? Ela faz as perguntas, Luciana faz as perguntas, eu falei, gente, porque que eu não pensei nisso? 

E aí eu comecei a chorar.

Porque na verdade, ele tava fazendo pra mim o melhor elogio que ele podia fazer. Porque eu me sinto… o que eu sinto que eu posso agregar é esse olhar. 

É esse olhar diverso que vai tirar a pessoa, o entrevistado muitas vezes do conforto dele, né. 

Muitas vezes, nós jornalistas, o que nós temos que fazer é causar esse constrangimento do bem. É um constrangimento pra fazer a pessoa pensar sobre essa possibilidade, esse aspecto que ele talvez nunca tenha pensado.   

[ LUANA IBELLI ]

Perfeito, Lu.

[ LUANA IBELLI / INDICAÇÃO PAUTA PÚBLICA E VIDA DE JORNALISTA ]

Agora e vou fazer uma pausa, pra indicar um conteúdo que acho que tem tudo a ver com esse tema que a Luciana tava falando, né. Conversa. 

Se você se interessa pelas conversas que os jornalistas trazem, pelos bastidores da notícia, tem dois podcasts que se você ainda não ouve, você que é nosso público do Portal dos Jornalistas, se você ainda não ouve, com certeza vai agregar muito na sua vida, se você ouvir. 

O primeiro é o Pauta Pública, um podcast quinzenal da Agência Pública apresentado pela Andrea Dip e a Clarissa Levy, que traz jornalistas e convidados de diversas áreas pra falar de reportagens que ajudam a explicar o Brasil. 

O segundo podcast é o Vida de Jornalista, do Rodrigo Alves, que sempre vai aparecer aqui nas nossas conversas, já que vários convidados que passaram e passarão aqui, já foram entrevistados lá, inclusive a Luciana Barreto, né, que foi lá no comecinho do Vida, em 2018.

Pois é, e o Vida de Jornalista tá voltando com uma série de episódios sobre eleições, muito úteis pra jornalistas que querem aprender técnicas de checagem, e até pra quem quer combater desinformação na família.

Pra ouvir tudo isso, é só procurar Vida de Jornalista e o Pauta Pública no seu tocador favorito. 

[ LUANA IBELLI ]

Lu, agora, já que a gente falou do Vida de Jornalista, né, quando você deu entrevista pro Rodrigo, tem quatro anos já, você falou da época em que você ainda tava na TV Brasil, né, na TV pública. Queria falar um pouquinho disso. 

Que que mudou, né, assim, nesse tema de negritude, de lá pra cá, e se você sente que tem diferença de abordar esse tema numa emissora pública e numa emissora privada, como você tá agora. 

[ LUCIANA BARRETO ]

Ah… tem diferença. Tem diferença e o jornalismo público é um jornalismo que eu sou apaixonada, é um jornalismo que tem… deveria, né, pelo menos na origem dele, ele tem uma missão de trabalhar para o povo, de servir ao povo. 

Quem é o povo? 

Jornalismo privado também deveria, mas quem é esse povo que a gente serve, né?

Numa empresa privada, a gente tem ali o público alvo, né? Ou tem o assinante, aí tem o perfil do assinante. E às vezes isso delimita muito o trabalho, o perfil do assinante é um assinante que gosta mais… ele tem pós graduação, tem universidade, tem pós graduação, gosta mais da área de economia… 

E às vezes há uma confusão de que essa pessoa não quer ouvir sobre… a vida na periferia, ou não quer ouvir sobre… 

É uma grande confusão. 

Que eu acredito, né, eu acho que a gente subestima muito a inteligência também dessa pessoa, mas enfim, eu não trabalho em instituto de pesquisa, não sou eu que vou falar sobre isso. 

Vou falar sobre o jornalismo público, que trata de, ao meu ver, e ao que eu fiz durante muitos anos lá na TV pública, as pautas que são negligenciadas. 

Então, algo que você jamais veria, muitas vezes, nos grandes meios de comunicação. 

E às vezes, eu vou te dizer… durante anos eu tive a impressão de que eu pautei alguns meios de comunicação.

Fui premiada, né, no jornalismo público, algumas vezes, por conta de trazer esse olhar, que eu falo, toda essa Luciana junto, para a notícia, e às vezes uma notícia que ninguém entendia porque era notícia.

Que tudo começa aí, né? 

O que é notícia?  

Fatos são fatos, o que que esse fato passa a ser notícia, é o meu olhar que traz isso.

Então, pra citar um exemplo, a gente tinha recentemente… o movimento negro denunciava que as peças de Umbanda que tinham sido presas pela polícia, você sabe que a gente tem o Código Penal de 1898, que é o Código Penal que trata como … não, desculpa… 1890, 1890. 

O Código Penal de 1890, que trata o crime de… trata curandeirismo como crime…     

[ LUANA IBELLI ]

Nossa…

[ LUCIANA BARRETO ]

…então começa a criminalização das religiões de matriz africana. 

Especialmente, até 1930, a gente tem a apreensão de várias peças das religiões de matriz africana e ficam na polícia.

Existia uma luta de parte do movimento negro, de lideranças de religiões de matriz africana, que essas peças fossem devolvidas, são peças sagradas. 

A polícia… me parece que a Polícia Civil tomou gosto por essas peças, o que eu entendi cobrindo essa história é que eles tinham um museu e a parte do museu deles era praticamente essas peças…  

[ LUANA IBELLI ]

Nossa.

[ LUCIANA BARRETO ]

…tirasse essas peças, não tinha mais museu… [risos].  

[ LUANA IBELLI ]

[Risos]

[ LUCIANA BARRETO ]

…foi o que eu entendi. 

E aí a luta era grande, e depois de muitas décadas de luta, eles conseguiram, foi algo que pra mim foi emocionante, fazer essa entrega, né, primeiro quando eles ganharam a causa, de trazer, de poder levar todas essas peças sagradas de um século pra um local que eles consideravam que deveria estar… e depois também essa transição, isso é uma notícia. 

Então, eles me procuravam. As pessoas já me procuram, né. Com certeza, ali eles vão encontrar o abrigo pra pauta que eles acham importante, porque eles vão dizer.

Ela vai entender que isso é uma notícia. Os outros não vão entender. 

Era como se eles dissessem isso, sabe? Era isso que eu sentia o tempo inteiro. 

Então, essa, por exemplo, é uma notícia que eu cobri, que depois vários veículos grandes de comunicação também foram cobrindo e entendendo que aquilo era uma notícia importante pra história do Brasil.

Então, talvez, se a gente não tivesse a comunicação pública, não tivesse essa possibilidade da comunicação pública tratar do que eu chamo de pautas negligenciadas, são pautas que dizem respeito a parte da parcela da população que muitas vezes não tem o dinheiro pra ser o assinante… ou parte da parcela da população que muitas vezes não tem dinheiro pra viver, ou parte da parcela da população que muitas vezes não tem dinheiro nem pra ser chamada de cidadã. 

Então, é essa parcela da população que o jornalismo público tem que servir.   

[ LUANA IBELLI ]

Muito legal, Lu. 

Agora, quero entrar em outra questão, que tem tudo a ver com a tua história e é uma coisa que eu queria muito abordar, que é esse impacto da presença da mulher negra na TV, né. 

Que que significa pra mulheres negras, pra autoestima da mulher negra, ter uma presença num veículo que ainda é tão imagético, e excludente também, infelizmente.

[ LUCIANA BARRETO ]

É… significa que, de cara, é a possibilidade do sonhar, né, do acreditar. 

É tornar possível. 

Então, quando eu digo que eu olhava a Glória Maria na TV, né, a Dulcinéia Novaes, são duas mulheres negras que estavam na mesma época, elas já diziam, é possível. 

É possível, é tornar possível. 

E acredito que a gente ainda é a continuidade disso, né, a gente é a continuidade avançando. 

Porque, se você perceber, elas não só tornaram possível que a gente estivesse, e a gente torna possível que a gente esteja de cabelo crespo, né, de black… 

[ LUANA IBELLI ]

[Risos]

[ LUCIANA BARRETO ]

E a gente torna possível que a gente fale sobre nós, que a gente traga todo o nosso eu, muitas vezes a nossa ancestralidade também pra o texto. 

E isso, isso é um caminho que eu acho que não volta mais, é um caminho que se abriu, que era o privilégio de poucos, poucas pessoas podiam trazer esse eu…

Eu fui à Europa, eu falo alemão, eu…

[ LUANA IBELLI ]

[Risos]

[ LUCIANA BARRETO ]

Só que era essa… eurocentricidade que vinha, né. 

E a gente traz o que? Uma africanidade junto de nós. 

E a gente positiva essa africanidade, positiva no sentido de… o tempo inteiro, os meios de comunicação tentaram desqualificar essa africanidade, né. 

Quando a gente traz notícias, por exemplo, de África, que a gente traz notícias o tempo inteiro, notícias negativas, de fome, de miséria, e a gente vai tentando o tempo inteiro desqualificar essa pessoa, dizer para a criança negra que não é legal isso. 

Como a gente desqualifica as periferias, como a gente desqualifica a cultura das periferias… 

E o tempo inteiro a gente superestima as culturas, a cultura do… Hemisfério Norte. O tempo inteiro a gente traz essa coisa da positividade. 

Acho que a gente vai positivando o que antes era sendo, vinha sendo historicamente negativado. 

Acho isso extremamente importante, acho fundamental, queria até contar uma história. 

Eu tava na TV pública… lembrei de África e lembrei dessa história. 

Tava na TV pública e fiz um especial sobre Angola. E aí, pra isso, eu fui ao consulado de Angola, mas antes eu já tinha feito especial, coloquei no ar, fiquei super feliz… nossa, consegui fazer uma matéria, porque eu fazia muitas matérias muito diversas, né. 

E aí quando eu fui ao consulado, o pessoal, ah, a gente viu aquela matéria, muito legal, legal… mas, da próxima vez, você não quer atualizar lá o arquivo de vocês? 

Aí eu falei, por que? Aí ele, a gente não tem fusca em Angola desde 1970.

[Risos]

[ LUANA IBELLI ]

[Risos]

[ LUCIANA BARRETO ]

Então, pra você ver o que é o Brasil! O Brasil é isso, a Angola que eu… eu tava super feliz de tá mostrando Angola, e a Angola que eu tava mostrando já não tinha mais absolutamente nada com a realidade, né. 

Então, eu ainda estava muito aquém do que deveria ser, entendeu? 

A gente tá muito longe, mas muito longe inclusive de fazer o nosso cérebro funcionar, do nosso cérebro trabalhar, da gente conseguir crescer como nação, como identidade, a gente tá muito longe disso. 

[ LUANA IBELLI ]

Sim, né, assim, por mais que a gente tenha evoluído, eu sei que, pelo menos na minha época…

Eu fiz a disciplina de jornalismo televisivo em 2008, e naquela época eu já ouvi da minha professora que os meus cabelos não eram adequados pra tá ali, né, então todos os outros alunos receberam feedbacks assim, dos seus trabalhos de outras questões, e eu recebi da minha aparência. 

E eu lembro do quanto você falou, na sua entrevista, uma vez, em uma entrevista que você nem se imaginava tá ali, que você demorou pra ir pra TV, e hoje olha a jornalista que você é, né. Você fala, nossa, essa pessoa parece que nasceu pra isso, né. 

E eu acho que a gente ainda tá avançando, mas como você falou, né, ainda falta tanto. 

Eu sei que hoje é mais difícil as pessoas ouvirem isso na faculdade, mas eu acho que é mais fácil sonhar, você sabe que talvez você possa chegar nesse lugar, esse lugar existe pra pessoas como você.

Eu pelo menos sinto isso, né, quando eu vejo cada vez mais mulheres negras na televisão. 

[ LUCIANA BARRETO ]

Sim, você vê como as barreiras vão sendo impostas o tempo inteiro, né, as barreiras vão sendo levantadas, né.   

O fato de alguém, um professor, numa universidade, num curso superior, dizer pra você que você não é adequado, ou pelo menos o que você é, o seu cabelo ou o seu tom de pele, não é adequado a estar em determinado espaço, é uma estratégia que eu te falo que é uma estratégia desse racismo estrutural, mas que vai o tempo inteiro levantando barreiras para pessoas chegarem a determinados locais, especialmente os locais de poder, como você percebe, né? 

Então eu delimito que no local de poder, alguém tem que ter um perfil xis. Esse perfil xis não condiz com tudo o que você é. 

Você não vai entrar nesse lugar. Porque esse perfil xis não condiz com o que você é.  

Então, eu recebi também, já, de estudante, me lembro de uma estudante de uma faculdade, inclusive, não me lembro…de um estado, era o Nordeste. 

E ela me descreveu dizendo que a professora dela, tava indignada. Falou que jamais uma âncora poderia ter um cabelo black power.

Que ela me escreveu na hora me dizendo, como assim, ela não conhece você, não conhece o seu trabalho? 

Porque, é porque a gente aprende na faculdade de jornalismo que um âncora é discreto, tem uma aparência discreta, e aí, esse professor acredita que a sua aparência não é nem um pouco discreta, o que eles querem chamar de exótico…      

[ LUANA IBELLI ]

Exótico! 

[ LUCIANA BARRETO 

… ou qualquer coisa parecida com isso.

[ LUANA IBELLI ]

Lu, eu ouvi tanto isso!

Quando começaram… é claro, né, eu comecei de algum lugar, alguém foi lá e olha, você não quer vir, participar, ser apresentadora, repórter… 

Começaram a me preparar pra isso. Mas eu ouvia sempre nesse lugar. 

Você é exótica. É legal ter uma pessoa assim. 

Mas eu ficava pensando… mas, a maioria das pessoas no Brasil se parecem comigo e com pessoas como eu, pessoas pardas e pretas.

E isso já me deixava num lugar de desconforto, eu me sentia sozinha. 

Quando eu ia pra rua também, eu não via outras repórteres, acho que eu fiquei quatro anos indo pra rua diariamente e eu não via outras repórteres negras.

E muito menos com pele mais escura do que a minha. 

Mulheres retintas, então? Imagina, era muito pouco.

E eu acho que isso deixa a gente se sentindo sozinha, né. Eu queria te perguntar agora, pensei… você, depois de todos esses anos, você se sente mais pertencente? 

Ou ainda você lida com isso, de olhar pros lados e falar,  às vezes eu queria mais gente como eu. 

[ LUCIANA BARRETO ]

Com certeza eu quero ter mais gente como eu, porque esse é a minha luta, né, a nossa luta não tem que ser… 

A gente só vai conseguir algum avanço se for de forma coletiva. Individualmente a gente não vai conseguir nada, ponto final. 

Agora, que os recados são dados o tempo inteiro, eles são dados.

Vamos pensar na maquiagem, as maquiagens das televisões.

Você chega nas maquiagens das televisões, tem quinze bases, pra passar no rosto. Quinze bases brancas.

[Risos]

[ LUANA IBELLI ]

Exatamente.

[ LUCIANA BARRETO ]

Porque eles não acreditam ou não imaginam que possa vir um convidado negro. Porque eles se acostumaram que os brancos falam o tempo inteiro, os convidados são brancos, os entrevistados são brancos, os âncoras são brancos.

Então, aquilo ali já é uma delimitação do que… o espaço que eles construiram. Esse espaço que eles construiram. 

Então, você chega lá, eu gosto de fazer essa brincadeira, né, eu gosto de chegar na maquiagem e falar. 

Ih, a minha entrevistada é negra. E se vier uma entrevistada negra? 

Aí eu olho assim, porque eu gosto de causar essa reação nas pessoas. As pessoas sequer se dão conta. 

Você às vezes consegue ver um mês de televisão, um mês com convidados brancos, todos os entrevistados são brancos.

[ LUANA IBELLI ]

E ninguém acha estranho. 

[ LUCIANA BARRETO ]

Ninguém acha estranho. Ninguém acha estranho nem se esse convidado branco for falar sobre questão racial… 

[ LUANA IBELLI ]

Lu…

[ LUCIANA BARRETO ]

…as pessoas não achavam estranho isso, hoje acham. 

[ LUANA IBELLI ]

Hoje acham. 

Olha, o primeiro programa sobre racismo que eu fiz na minha vida foi em 2013, eu acho, e uma das coisas que me chocavam era isso, né, eu comecei produzindo ali, o Caminhos da Reportagem, né, que também a gente conseguiu alguns prêmios abordando essa pauta, e as pessoas vinham me indicar entrevistados brancos, e eu ficava…

…Mas gente, como que a gente vai fazer um programa sobre racismo sem nenhum convidado negro? 

As pessoas realmente não pensavam nisso, e era até tenso né, propor essas coisas, porque as pessoas falavam, não, mas a gente tem que ter o outro lado! Que seria uma pessoa branca falando sobre isso.

Então, assim…

[ LUCIANA BARRETO ]

[Risos] 

E tem lado isso? [risos]

[ LUANA IBELLI ]

Caramba! É, exatamente! 

E aí, outra história que eu lembrei, que você falou da maquiagem, isso acontecia muito, inclusive de ter uma vez que a gente recebeu dois convidados, um convidado branco, né, e chegou um convidado negro de pele retinta, e a produtora veio falar…

…Lu, você não sabe o que aconteceu, a gente não tem base. 

E aí um convidado sentou pra receber aquele cuidado, porque é um cuidado, né, quando o convidado chega, ele vai no camarim, ele é um pouquinho paparicado, toma uma aguinha, passa ali a sua base, e ele vai dar a entrevista. 

E na hora do convidado negro, não tinha. Então, ele não ia ter esse momento de sentar, e de receber esse cuidado… e aí, a produtora, ela simulou alguma coisa ali, pra não ficar uma situação chata, pra tirar um brilho da pele… 

[ LUCIANA BARRETO ]

Quando não botam um pó mais claro e a pessoa vai cinza pro ar, né… 

[ LUANA IBELLI ]

Nossa! Pra mim sempre aconteceu… 

[ LUCIANA BARRETO ]

… fica acinzentado. 

[ LUANA IBELLI ]

… era umas bases muito… 

E imagina, eu não sou retinta. E mesmo assim, as bases não eram da cor da minha pele. E eu me sentia muito mal no ar, porque eu falava, eu não tô me sentindo bonita, assim, né. 

Tem uma coisa ali, cê tá muito exposto diante das câmeras, né, e aí você não poder tá ali com um tom de base que é da sua pele, que é uma coisa muito pequena, assim, é uma coisa sutil, que pra gente é óbvia, mas que pra maioria não é. 

E isso ainda acontece? Eu fico tão chateada de saber… 

[ LUCIANA BARRETO ]

É, os recados, eles estão sendo dados o tempo inteiro, né, as mensagens às vezes aparecem nas entrelinhas, às vezes elas são assim, descaradas o tempo inteiro pra dizer que esse espaço aqui não foi um espaço que foi construído para te receber. 

Ponto final.

É assim que as pessoas constroem os seus… é isso que a gente fala da estrutura, né, que tá construída, o tempo inteiro essa estrutura tá construída pra receber determinado grupo, determinada pessoa, entendeu. 

Não tem um difusor, por exemplo, pra secar um cabelo crespo. Tá todo mundo acostumado a fazer escova no cabelo… 

[ LUANA IBELLI ]

Exatamente…

[ LUCIANA BARRETO ]

… então não tem um difusor pra secar um cabelo crespo, não tem alguém que saiba ajeitar um cabelo crespo, entendeu? 

Quando não, querem fazer uma maquiagem que tenha algo muito parecido com o que eles viram nas revistas, ou nos editoriais de moda, que absolutamente não tem condições de você entrar no ar com uma maquiagem daquela, porque às vezes o maquiador também não sabia fazer a sua maquiagem. 

Então, é uma série de restrições, de barreiras que são levantadas o tempo inteiro, que a gente sabe que, é o que eu te digo, as mensagens, os recados, tão sendo dados. Isso daí, a gente não tem a menor dúvida. 

[ LUANA IBELLI ]

É, mas aí, fortalecendo em grupo, acho que a gente tá conseguindo quebrar algumas dessas barreiras. Mesmo que você tenha que, por exemplo… 

Você carrega a sua malinha, né, com todo o seu material, que é já pra não passar por esse tipo de coisa, e você bate lá com a sua malinha, olha, eu tô aqui, não tem a minha base, mas eu tô aqui, e vou fazer o meu comentário, e vou ocupar esse espaço… 

Acho que é por aí, né, Lu?  

[ LUCIANA BARRETO ]

É, e já vai também… 

Acho que, a Elisa Lucinda fala muito isso, eu gosto de falar mas sempre trazendo a Elisa, porque ela faz isso muito bem, né. 

Ela falou uma vez, a nossa obrigação é constranger os brancos. 

[ LUANA IBELLI ]

[Risos] 

[ LUCIANA BARRETO ]

Parece que a gente tá fazendo uma coisa de brigar um com o outro, não!

É mostrar pra eles, olha só como… como isso tá sendo construído, olha isso, né. 

Constranger também é falar. Mas cadê aquela maquiagem? O meu convidado é preto, sabe? O meu convidado vai chegar a qualquer momento, meu convidado é retinto… 

[ LUANA IBELLI ]

E você vai fazer como? 

[ LUCIANA BARRETO ]

E aí você vai fazer como, entendeu? Porque sequer passou pela sua cabeça. 

Mas eu queria falar uma coisa que também me chama a atenção, do quanto a gente avançou nessa luta, né, de equidade para… no Brasil, quando a gente fala de questões raciais, relações negros e brancos, e quanto a gente não avançou quando a gente fala em indígenas, por exemplo. 

[ LUANA IBELLI ]

Pois é. 

[ LUCIANA BARRETO ]

A gente consegue fazer toda uma discussão sobre as questões indígenas, sobre a Amazônia, sem nunca ouvir um indígena.   

[ LUANA IBELLI ]

Pois é, a gente vai trazer uma jornalista pra falar, né, que é a Luciene [Kaxinawá]…

[ LUCIANA BARRETO ]

É uma coisa enlouquecedora…

[ LUANA IBELLI ]

É… fundamental.

[ LUCIANA BARRETO ]

Hoje a gente fica, assim, muito constrangido quando a gente vê uma roda com cinco homens… homens falando, e aparece uma pauta sobre a questão de gênero. 

Aquele constrangimento, né, porque você tem cinco homens ali, que já é uma… [risos] é autoexplicativo, não precisa nem comentar. E eles vão falar sobre questões de gênero, questões que envolvem mulher, ou uma pauta como a gente viu agora, de um anestesista estuprador. 

E aí, aquele constrangimento porque você só tem homens no local, no recinto, e aí você percebe, sente. 

A gente tem um total constrangimento quando cê tem um local só de jornalistas brancos pra falar, aí aparece uma pauta sobre questões raciais, como apareceu no George Floyd, pegou todo mundo…a televisão descobriu naquele dia, ih, não temos negros.

[ LUANA IBELLI ]

[Risos]

[ LUCIANA BARRETO ]

Naquele dia descobriu todo mundo, né, que não tinha negro, aí causa aquele constrangimento. 

Mas as pessoas não ficam constrangidas de ficar falando sobre questões indígenas… 

[ LUANA IBELLI ]

Sem indígenas.

[ LUCIANA BARRETO ]

… sem nunca chamar pelo menos um convidado indígena. 

As pessoas não se constrangem. 

[ LUANA IBELLI ]

E eles têm falado né, quando a gente tá… pelo menos nas redes sociais, quem tá ativo, eles apontam isso o tempo inteiro e já passou da hora de abrir esses espaços, né, Luciana? 

[ LUCIANA BARRETO ]

É, porque acho que o primeiro momento, vou voltar com Elisa Lucinda, o primeiro passo é o constrangimento. Porque se você nem se constrange disso, nada … você não vai modificar isso, né? 

Eu agora, recentemente, participei de um livro, e eu abro o meu texto desse livro, é um livro com jornalistas, né. E eu abro meu texto desse livro contando uma história que eu ouvi de uma apresentadora negra. E ela me disse, agora ela não tá mais atuando, mas ela me disse que… ela nem mora mais no Brasil. 

Mas me disse que ela foi buscar emprego numa grande emissora, aquela época que a gente tá, o que eu vou fazer da vida, continuo ou paro de vez? 

E ela tava nessa fase, continuo ou paro de vez? E ela… eu vou tentar, nessa grande emissora. 

Então foi com o material dela, debaixo do braço, e chegou nessa emissora e falou, ah, vim trazer meu material, não sei o que, pra vocês darem uma olhada. 

E a pessoa falou, não, não, não, a gente já tem a nossa apresentadora negra. 

[ LUANA IBELLI ]

[Suspira]

[ LUCIANA BARRETO ]

E isso é muito recente, né? É muito recente que uma pessoa não tenha ficado constrangida, você imagina… 

[ LUANA IBELLI ]

… de falar isso.

[ LUCIANA BARRETO ]

…essa pessoa não ficou constrangida de dizer isso. 

Então, eu acho que o primeiro passo, e aí eu acho que a Elisa é muito sábia quando fala isso, nossa função é constranger. Então o primeiro passo é causar esse constrangimento, quando cê causa esse constrangimento, você sacode a pessoa e fala. 

Acorda! 

Acorda! 

[Risos]

[ LUANA IBELLI ]

Cê não tá vendo a realidade óbvia, né, [risos] na sua frente. 

[ LUCIANA BARRETO ] 

É tão óbvio isso, acorda, por favor!

[ LUANA IBELLI ]

Eu acho que já tem mais gente acordando, né, Luciana, graças também ao trabalho de pessoas como você, então acho que a gente… eu tenho um certo otimismo assim, eu acho que a gente pode influenciar positivamente, com essa mensagem. 

Acho que a gente tem que finalizar, infelizmente, mas antes da gente finalizar, porque são muitos assuntos, queria que você falasse dos seus sonhos pessoais, profissionais, né. 

Porque quando a gente fala de inclusão, de estar nos lugares a gente tá falando disso também, né, de coisas que a gente quer realizar. 

Então, o que você ainda pensa em realizar na sua vida? 

[ LUCIANA BARRETO ] 

Tem uma coisa que eu estava conversando agora, há pouco tempo, com a Ana Paula Xongani, e ela me falou algo muito interessante, e é algo que fica batendo na minha cabeça igual um martelinho, sabe? Na minha cabeça, porque? 

Porque a gente tá o tempo inteiro contando sobre, denunciando as nossas desigualdades, a gente tá o tempo inteiro na televisão tentando falar que algumas operações policiais mataram tantos inocentes… 

A gente tá vendo os corpos de pessoas que parecem com a gente, ou seja, poderia ser seu filho, seu pai, e a empatia é uma empatia direta, coisa que não acontece, às vezes, com outros jornalistas… eles não vão conseguir alcançar essa empatia de… ver seu pai, seu irmão, seu filho ali, e é uma empatia direta, ver aqueles corpos às vezes, jogados pelo chão, sangrando como porcos, como baratas muitas vezes. 

Então a gente conta muita história da dor, né, a gente denuncia muito essa história da dor, né? E essa dor, só quem tá lá na hora, consegue entender o alcance dessa dor, né. 

Como é difícil pra gente, como âncora… quando a gente fala de nós, muitas vezes a gente tá denunciando a história da dor, né? Muitas vezes a notícia, quando a gente é notícia, é a notícia da dor. 

Então eu tô cansada de tá falando que morreram mais negros na pandemia, que as mulheres negras são as que ganham o menor salário no mercado de trabalho, que elas ainda estão ocupando as cozinhas dos espaços, que a gente aumentou a fome mas que essa fome tem cara e tem cor…. que essa fome tem gênero… 

Eu tô cansada de dizer isso o tempo inteiro. 

E eu não quero parar de dizer, simplesmente vou fechar o olho, isso não existe.

Então, a Ana Paula me despertou algo quando ela falou assim, a gente tem que começar, também, a contar, a mostrar pras pessoas que a gente é feliz.  

[ LUANA IBELLI ]

[Risos] 

[ LUCIANA BARRETO ] 

O tempo inteiro. 

Né, então, assim. Eu ouvi ela falando da Giovanna Ewbank, como ela mostra ali, o tempo inteiro, nas redes dela, uma família feliz, filhos, uma pessoa gente boa, tudo do bem, sol, praia, tudo é lindo… 

E acho que o nosso objetivo é chegar a esse momento. Nosso objetivo é chegar a esse momento, que acontece já pra muitos, pra muitas pessoas negras nos Estados Unidos, por exemplo, né, que conseguiram alcançar um determinado patamar, que se distanciam só da história da dor…

Pude, já, também, inclusive em locais pobres dos Estados Unidos, como o Alabama, um estado que tem muitos negros, mas é interessante você fazer, sei lá, um passeio de barco e ver toda aquela negritude, vários tipos de óculos, vários tipos de cabelo, gente feliz, gente… 

E aí fiquei pensando, né, que a gente ainda tem um certo constrangimento de contar a nossa história da felicidade. Porque é um ambiente de muita dor. E a gente ainda não consegue avançar pra história da felicidade. 

Então, quando a Ana Paula falou isso, eu pensei, é isso, isso bate na minha cabeça como um martelinho. Que a gente em algum momento tem que chegar a contar a história da felicidade também.

Isso não significa que uma coisa exclui outra, você não vai fechar os olhos pra história da dor. Porque infelizmente ela tá aí, ela nos cerca o tempo inteiro.

Mas a gente precisa positivar e mostrar que existe uma possibilidade de uma história da felicidade. Que ela pertence a nós. Que a gente também pode ter uma família feliz, sem ausências, que a gente pode vibrar, os nossos filhos, planos, futuro…

[ LUANA IBELLI ]

Dar um futuro, né, pras nossas ancestrais… 

[ LUCIANA BARRETO ] 

Futuro belo… Futuro. Exato. 

[ LUANA IBELLI ]

Uma velhice confortável pra sua mãe preta… 

[ LUCIANA BARRETO ] 

A gente tem que aceitar que isso também é pra nós. 

A gente tem que aceitar e a gente tem que trabalhar pra isso. Porque quando a gente tá o tempo inteiro imerso na dor, fica muito difícil.

Eu confesso a minha dificuldade, por isso que isso fica batendo na minha cabeça. 

[ LUANA IBELLI ]

Mas Luciana, você é… agora é aquele momento que provavelmente… dar uma respirada. 

Você é essa pessoa que mostra, né, que é uma história que apesar de trazer dor, você é uma história de felicidade pra muitas pessoas que se veem em você, né. 

E assim como eu não tive esse referência, acho que hoje é muito mais fácil pra meninas, como por exemplo, a Anna [França], que é a nossa estagiária, que é uma menina negra, ela com certeza vê muito mais possibilidades do que eu vi, e do que você viu. 

E a gente espera que essas histórias realmente possam acontecer pras nossas. 

Então, queria muito agradecer a sua presença, tudo isso que você falou, finalmente poder tá com você aqui.

Espero que cada vez mais mulheres negras estejam ocupando todos os espaços no jornalismo…

E queria que você, antes da gente encerrar, né, fala um pouquinho onde as pessoas podem te encontrar, em rede social, se você tem algum projeto que você quer destacar. 

[ LUCIANA BARRETO ] 

Bom, o meu projeto de mestrado vai virar um livro em breve, eu tenho fé. 

E eu falo sobre discurso de ódio nas redes sociais, mas a minha ideia foi construir uma espécie de mecanismo pra que mulheres que tenham que lidar… ou homens, pessoas negras que tenham que lidar com esse discurso de ódio o tempo inteiro quando chegam em posição de poder, entendam o que deseja aquele odiador naquele momento. 

Ele deseja te parar. Né? 

E é isso que a gente não vai fazer. Porque a gente não vai cumprir desejos de odiadores, né, a gente não vai fazer isso.      

Então, em breve eu vou analisar esses mecanismos, as palavras que eles utilizam… 

E pra entrar em contato comigo, o tempo inteiro, nas minhas redes, é importante, o meu Twitter @lubarretotv, e meu Instagram é @lubarretooficial.

[ LUANA IBELLI ]

Pronto! 

Brigada, Lu, espero que as pessoas continuem te seguindo, esse seu trabalho lindo, importante, que inspira tanta gente. 

[ LUCIANA BARRETO ] 

Eu que agradeço. Foi maravilhoso conversar com você! 

[ LUANA IBELLI ]

Brigada! 

[ LUANA IBELLI / ENCERRAMENTO ]

Gente, vamos então encerrar mais um episódio, obrigada pela tua companhia até aqui. Vamos fazer os nossos agradecimentos, né. 

Nossa equipe, Anna França, estagiária, Fernando Soares, editor, Victor Félix, repórter, equipe do Portal dos Jornalistas, né, bom dizer. 

Tem os nossos apoiadores, também, que é a Ajor, Associação de Jornalismo Digital, a ICFJ, International Center for Journalists, a Meta Journalism Project, a Imagem Corporativa, e a Rádio Guarda-Chuva.  

E tem também os nossos parceiros institucionais, a Énóis Conteúdo e a Oboré Projetos Especiais

Muito obrigada por acompanhar a gente em mais um episódio, e até a próxima. Tchau! 

 

Consórcio de Veículos de Imprensa realizará debate presidencial em 14 de setembro

O Consórcio de Veículos de Imprensa, formado por Folha de S.Paulo, G1, O Estado de S.Paulo, O Globo, UOL e Valor Econômico, formaram um pool para a realização de um debate entre os candidatos à Presidência da República em 14 de setembro, em São Paulo.

O debate convidará os quatro candidatos que estiverem nas primeiras posições da pesquisa DataFolha ou Ipec da semana que antecede a realização do evento. Em caso de empate nas intenções de voto, o candidato convidado será aquele cuja aliança tenha mais parlamentares no Congresso. O debate será realizado desde que ao menos três dos quatro candidatos compareçam no dia.

O evento permitirá tanto perguntas entre os candidatos como de jornalistas para candidatos. Ele será transmitido ao vivo exclusivamente nas plataformas digitais dos veículos do consórcio. Segundo a última pesquisa Datafolha, seriam contemplados Lula, Jair Bolsonaro e Ciro Gomes. Simone Tebet ficaria com a quarta vaga, já que, mesmo empatando com outros candidatos, ganha no critério de representatividade no Congresso.

Em 24 de setembro ocorrerá um outro debate presidencial, realizado por um pool formado pelas emissoras CNN Brasil e SBT, o jornal O Estado de S. Paulo, a revista Veja e a rádio NovaBrasilFM. O evento será nos estúdios do SBT, também em São Paulo.

Congresso de Jornalismo Investigativo da Abraji começa nesta quarta (3/8)

Ajor terá mesa sobre produtos jornalísticos no Congresso da Abraji

Tem início nesta quarta-feira (3/8) a 17ª edição do Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), que será realizado de 3 a 7 de agosto, de forma mista (online e presencial), com mais de 80 atividades e quase 200 palestrantes. As inscrições seguem abertas.

A parte online e gratuita do evento será em 3 e 4 de agosto. Já em 5, 6 e 7 de agosto será realizada a versão presencial e paga do Congresso, sem transmissão pela internet, na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), em São Paulo.

“Encaramos a proposta de fazer, pela primeira vez, um congresso em formato misto, facilitando a participação de jornalistas de outras regiões sem abrir mão do encontro presencial, que não acontece há dois anos”, explica Natália Mazotte, presidente da Abraji. “Em 2022 celebramos os 20 anos da Abraji e enfrentamos os desafios de uma eleição presidencial e de um ambiente político polarizado. Criamos uma programação que reflete esse clima de reencontro, celebração e desafios para a prática jornalística”, completa.

O último dia do evento será dedicado ao 4º Domingo de Dados, com oficinas sobre jornalismo de dados e palestras sobre bastidores de investigações do tema. Também foi integrado à programação online do Congresso o IX Seminário de Pesquisa em Jornalismo Investigativo, em que pesquisadores apresentam seus trabalhos e jornalistas recém-formados, seus trabalhos de conclusão de curso (TCCs).

É necessário inscrever-se separadamente nos eventos online e presencial. O custo do ingresso para a versão presencial do Congresso está dividido da seguinte forma: profissionais associados à Abraji − R$ 170; profissionais não associados − R$ 240; estudantes associados à Abraji − R$ 85; e estudantes não associados − R$ 120. Estudantes de graduação e pós-graduação da Faap têm 55% de desconto.

O Portal dos Jornalistas dá apoio de divulgação ao Congresso.

Confira a programação completa e inscreva-se aqui.

Censura: Caixa veta termos em páginas que exibem anúncios do banco

Reportagem de Lucas Neiva no Congresso em Foco revelou que a Caixa Econômica Federal proíbe uma lista de termos em matérias jornalísticas de veículos cujas páginas exibem algum anúncio do banco. Ao todo, são 239 termos proibidos.

As palavras incluem “Jair Bolsonaro” e “Lula“, candidatos à Presidência da República, além de termos como “Congresso”, “abuso sexual“, “presidente da Caixa Econômica“, “cloroquina“, “Covid“, “Marielle Franco“, “Paulo Guedes“, “Regina Duarte“, “Itamaraty”, “fake news“, “Amazônia”, “Felipe Neto”, “ditadura militar“, “Flávio Bolsonaro“, “Sergio Moro” e “Dom Philips“.

Ainda segundo a reportagem, agências que atendem à Caixa foram instruídas a punir veículos que desrespeitarem a regra, aplicando sanções como suspensão da campanha publicitária. Para André Pereira César, cientista político ouvido pela reportagem, “isso mostra que a Caixa virou um instrumento cada vez mais do governo, e não de Estado. (…) Temos duas vertentes. De um lado, a ideia é não mencionar o adversário ou antigos aliados que viraram desafetos; e do outro é impedir a provocação de Jair Bolsonaro, de sua família e de seus aliados no governo”.

O caso ganhou enorme repercussão negativa nas redes sociais. Parlamentares também condenaram a posição da Caixa.

Regina Pimenta, vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), declarou que, “quando a Caixa Econômica Federal define que vai debitar do investimento publicitário contratado junto ao veículo valores correspondentes a matérias que citem expressões ‘proibidas’, pratica censura, o que é inaceitável em regimes democráticos”.

Procurada pela reportagem, a Caixa declarou que a medida mencionada “é uma prática de mercado que visa tão-somente a isenção e proteção da marca, preservando a imagem da instituição ao realizar sua inserção em conteúdos aderentes às estratégias mercadológica e negocial do banco e ao seu planejamento de marketing”.

O Congresso em Foco procurou também a Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) do governo federal, responsável por toda a publicidade feita pela administração da União, mas não teve retorno.

Leia a reportagem na íntegra.

#diversifica – Especial: Subjetividades – Transcrição: Ep. 5 – Entrevistada: Luciene Kaxinawá

[LUANA IBELLI /ABERTURA]

Olá!

Seja muito bem-vinda e bem-vindo a mais um episódio do #diversifica, um podcast sobre  diversidade, equidade e inclusão no jornalismo.

Esse é o especial Subjetividades.

Eu sou Luana Ibelli e vou conversar com mais um jornalista. que representa a diversidade nas redações e que dá destaques a temas invisibilizados contando com a própria experiência para enriquecer as pautas.

A nossa convidada de hoje foi a primeira de um grupo a aparecer como repórter numa TV. E  quando ela aparece ela nunca tá sozinha, porque ela carrega muita gente com seu nome e o seu trabalho que é incrível.

Luciene Kaxinawá, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Eu que agradeço.

Tô muito feliz em estar aqui, tá participando e ter esse pedacinho né, que você falou de trazer muita gente.

Eu trago um povo inteiro junto comigo de fato, e muito feliz de trazer o meu povo para esse momento de fala.

 

[LUANA IBELLI]

Ai que legal.

Que bom que você tá feliz, tambémmuito feliz com a sua presença.

Então  queria que você começasse falando um pouco de somente da sua trajetória né, o que formou a jornalista que você é, e um pouquinho do que você tem feito hoje.

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Eu sou Luciene Kaxinawá, na minha língua materna, Pano, meu nome é Ibatsai. Ibatsai significa mãe que cuida, mulher guerreira, ancestralidade, tem muitos significados né, e isso  me faz forte também para falar quem eu sou.

Eu sou indígena, do povo Huni Kuin, do Acre. Nasci em Porto Velho, filha de Francisco, ele trabalha em construção civil, pedreiro, também trabalhou em extração da borracha no Acre, e minha mãe que é indígena né, dona Maria e também trabalha como diarista.

Já é uma conquista muito grande né, ser jornalista neste contexto familiar que a gente sabe que é muito difícil né, mas ser indígena, jornalista, é um desafio ainda muito maior.

Comecei a ter o reconhecimento da minha identidade com 10 anos de idade e foi aí que eu comecei a investigação né, que um colega até comentou, falou assim: “o trabalho de entrevistas começou aí” né,  para entender quem eu sou, quem é o meu povo, porque que eu não estava no contexto aonde o meu povo estava, por que que eu não ouvia as notícias sobre o meu povo. Meu povo que eu falo assim, povos indígenas no geral né, na mídia, nos locais que eu ia em revista, jornal, eu não via, então porque?

E o que eu pude perceber que, a minha visão de comunidade, de povo indígena, não era a mesma que eu via na escola, era muito diferente porque quando eu tive esse contato, eu tive medo, né. E medo porque se é o meu sangue, se é a minha família? Mas medo porque foi uma construção que eu tive aqui fora né, e aí a partir dos 10 anos eu tive um contato dentro, uma imersão cultural dentro da minha cultura e conheci mais e queria mais né.

Com 16 anos comecei a trabalhar em um veículo de comunicação, entendi um pouco mais dos bastidores do que trabalhava  o jornalismo de TV, me apaixonei e foi isso que eu decidi fazer né.

A missão hoje, é dar vez, voz, espaço aos povos indígenas, as comunidades quilombolas, aos ribeirinhos porque na região onde eu moro existem muitos ribeirinhos, com muitas histórias que também tem saberes, muito ancestrais como os nossos e eu estou aqui né, como forma de ponte, de contato, de dar esse espaço né, de oportunizar essa experiência para cada um deles.

 

[LUANA IBELLI]

O que você tá fazendo hoje assim, como jornalista né?

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Hoje eu trabalho de forma independente.

Desde o ano passado, assumi os riscos do jornalismo independente, faço jornalismo investigativo, socioambiental e presto serviço para algumas agências de notícias e sempre divulgando a Amazônia né,  divulgando os conflitos que existem dentro das terras indígenas principalmente no estado de Rondônia aonde eu moro. Existem muitos riscos para as comunidades.

E também divulgando o que há de bom né, um pouco mais sobre a cultura, o que é ser indígena no Brasil hoje, tentando fazer a desconstrução dos estereótipos que foram criados, o uso da internet também tem sido fundamental, participando mais ativamente dos movimentos né, movimento da Juventude indígena de Rondônia, estando atuante dentro das comunidades, das aldeias, conhecendo outras culturas e divulgando isso também.

Então é um pouco do trabalho que eu venho fazendo nas redes sociais, para algumas agências, o que estiver acontecendo ali que tem Amazônia no meio, eulá.

[Risos]

 

[LUANA IBELLI]

Perfeito.

E acho que… queria introduzir né, esse assunto que a gente sempre começa falando disso,  sobre a questão da objetividade jornalística, se acabou de falar né, que você tem como missão dar voz né, a povos invisibilizados.

Então queria que você falasse um pouco o que que você acha da objetividade jornalística, se é possível ser neutro, imparcial no jornalismo.

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Acreditava muito…

Eu acredito que cada um defende a sua bandeira né, e assim… no jornalismo tradicional, ainda existe sim essa imparcialidade, essa neutralidade mas… também tem essa questão de cada um defende o seu né.

A gente as vezes dá uma levada um pouco mais para essas causas por exemplo, o que eu faço nas minhas matérias né, mostrar de fato o que tá acontecendo, ouvir as comunidades, ouvir os indígenas e atrás de resposta, esse é o nosso trabalho do jornalismo né, ir atrás de resposta, ir atrás da outra versão do outro lado, mas a gente quer que aquele problema seja solucionado né, no nosso interior, no nosso euzinho a gente quer que aquilo seja solucionado.

E é isso que a gente tem tentado fazer com os nossos trabalhos também né, digo nós assim, rede de comunicadores indígenas que tá ativo ali na Amazônia também, tá aprendendo mais sobre a comunicação né, e entenderam a necessidade da comunicação para poder tomar esse espaço de fala.

Tomar os espaços aonde eles podem falar, podem representar o povo, podem falar suas questões, trazer aí as coisas que estão incomodando e também mostrar o que há de bom, o que dá para aprender com as comunidades indígenas.

 

[LUANA IBELLI]

É um trabalho bastante necessário né, porque na mídia tradicional a gente não vê tanto isso.

Então queria te perguntar né, como que você vê o panorama atual né, da mídia do jornalismo tradicional no Brasil em relação às questões indígenas?

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Eu tava comentando até aqui nos bastidores né,  não conheço nenhuma um outro indígena ou indígena que trabalha em veículo de comunicação TV por exemplo né…

E é difícil encontrar indígenas em redações, é… hoje, acredito que isso pode mudar daqui para frente com crescimento né, das redes sociais, com o crescimento desse espaço todo isso pode mudar mas o cenário atual assim, não conheço nem não tenho contato com outras pessoas que trabalham dentro de redações que sejam indígenas.

Esse espaço precisa ser mais ocupado e precisa ser discutido mais porque outras questões já são discutidas mas e os povos indígenas né?

E por que que seria estranho ter um indígena dentro de uma redação?

Não, nós ocupamos faculdades, nós trabalhamos na cidade, nós ocupamos os espaços urbanos também, nós precisamos dos nossos espaços para trabalhar, porque não uma redação né?

Porque não trazer um pouco da nossa cultura dos nossos saberes dentro das redações também?

E uma outra coisa, ajudar a informar para esse público, por que o que eu percebo como jornalista, como amazonida, como indígena é que há uma dificuldade muito grande de profissionais de comunicação de se comunicarem com as comunidades tradicionais e com a população da Amazônia, usando alguns termos por exemplo.

O uso do termo índio não se usa mais né, porque não define quem são os indígenas. O termo correto é indígenas por que significa povos originários e não se utiliza o termo tribo para falar sobre etnia e muitos ainda utilizam por falta de conhecimento né, e a gente precisa mudar essa realidade.

É preciso aproximar a linguagem, é preciso aproximar o material, o conteúdo que é entregue para que nós na Amazônia, para que nós indígenas possamos receber esse material, entender e tornar isso parte do nosso cotidiano também.

 

[LUANA IBELLI]

É uma das consequências é que existem muitos estereótipos né, que o jornalismo ainda perpetua sobre povos indígenas.

Você vê isso?

Quais são esses estereótipos, assim?

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Então… é… eu nem sempre eu tive meu cabelo pretinho né.

Teve uma época que eu radicalizei e mudei a cor do cabelo, fiquei loira e eu ouvi muito, é… de várias pessoas, não só dentro das redações, que primeiro eu tinha perdido a minha identidade, não parecia mais indígena, falou assim: “Ah, mas você nem tem cara de indígena, é a primeira vez que eu vejo uma índia loura né e tal.” Eu falei assim: “ah gente, o ser indígena não tá assim no nosso rosto, a gente não tem que ter olho puxado, a pele mais… né, diferente, o cabelo lisinho preto.”

No Ceará por exemplo, os indígenas não tem essa característica, é diferente né, tá no sangue, não quer dizer que eu sou indígena eu tenho que ter esse padrão aqui, não é, tá no nosso sangue é isso que diz ser, quem é que, eita…  é isso que define o que é ser indígena, é o nosso sangue, a nossa cultura, o nosso costume, a nossa tradição, é aí que tá, sabe, a diferença de ser indígena, e do que as pessoas acham que é ser indígena.

O que tem muito no imaginário da cabeça das pessoas, é que o ser indígena ainda mora dentro de uma maloca, ainda anda nú, ainda pode casar com várias mulheres, nem toda cultura tem essa abertura na casamento, enfim… tem muitas coisas que ainda precisam ser mudadas né.

A gente se atualizou né, as tecnologias estão dentro das comunidades também, e consumimos informações, principalmente agora, estamos muito preocupados com o que tá acontecendo no Brasil.

 

[LUANA IBELLI]

É… e falando nisso né, é… falando no que está acontecendo no Brasil, acho que também a cobertura né, da pauta indígena ela tá muito relacionada por exemplo a questões ambientais né, enfim, as questões que acontecem no norte, então fala um pouquinho disso, como que é essa relação?

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Então.. é como… eu acho que assim, a maioria das vezes né, como que é tratada a Amazônia nas grandes mídias aí, nas grandes empresas de comunicação.

A Amazônia muitas vezes ela é vista como um lugar cheio de belezas naturais, de fato é, mas também a Amazônia é formada de gente né, de pessoas, e essas pessoas têm um contraste muito grande, tem pessoas né, que tem um padrão de vida muito legal, muito estruturado, tem um padrão de vida que não é tão estruturada assim, são várias identidades, vários rostos, várias situações que existem dentro da Amazônia.

O empreendedorismo na Amazônia é uma coisa muito forte e não se é tão falado assim nas mídias né.

O que se ouve muito é a questão do desmatamento né, as questões ruins, é… quando tem um grande crime, como aconteceu infelizmente do nosso amigo jornalista aí, a situação do Dom e do Bruno né, que foi noticiado mundialmente, então eu vejo que algumas vezes, o que é mostrado nas grandes mídias, são as partes ruins.

Mas também tem muita parte boa, também tem histórias muito interessantes para serem contadas e que estão lá, sendo invis… invis… invisibilizadas – quase que não saiu –  e que precisa ser contadas sabe.

Um produto que chega aqui em São Paulo, que vem da Amazônia, tem todo uma história, tem todo um trajeto, a castanha, o café, vou trazer a história do café.

O povo Paiter Suruí, do interior de Rondônia, produz café, café orgânico, e uma área que foi totalmente reflorestada né, e ele tem um trajeto pra cá, ele vem pra São Paulo, ele é vendido pra uma empresa muito grande de café aqui, também é exportado para a Suíça.

É uma história muito interessante para ser contada também, tem o etnoturismo que está crescendo muito na região Amazônica, então trazer pautas, é… que falam sobre as invasões é importante, muito importante!

Sobre o desmatamento, é muito importante também, mas trazer o que tem de bom dentro da, dentro desse contexto amazônico né, acho que é muito interessante.

É um trabalho arriscado, muito arriscado, pra… principalmente pra jornalista que cobre isso né, que tem que tá dentro das reservas, tem que tá dentro das comunidades, que que tenham acesso direto com indígenas que estão ameaçados de morte, e… assim… é um trabalho muito tenso, muito tenso mesmo!

As vezes tem publicações, a gente não pode divulgar o nome das pessoas mas pode dizer que é uma liderança, tem que ter todo um cuidado na verdade né, tem a questão da segurança deles que é muito importante.

 

[LUANA IBELLI]

Entendi.

Você já… já se sentiu assim, segura nessas coberturas?

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Já, eu já recebi ameaça dentro do meu trabalho, do meu ambiente de trabalho, é…

Um político foi dentro do meu ambiente de trabalho me ameaçar, dentro da reserva indígena já já me senti ameaçada várias vezes também.

Não é um trabalho assim que, fala assim, nossa você gosta da Amazônia, vai lá se aventurar, não é para aventureiros, é para quem tem coragem…

Viver na Amazônia também é pra quem tem coragem!

[Risos]

 

[LUANA IBELLI]

Entendi, e fico pensando né, que o norte é muito invisibilizado né, de uma forma geral.

Você acha que isso tem relação com essa proximidade, é… das questões indígenas, essa invisibilização?

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Acredito que as pessoas pensam em Norte, e pensam em Floresta né? Muitas vezes…

E tem a questão geográfica também que eu uso, que assim, a gente até brinca né, que a questão de as pessoas não saberem aonde que fica cada lugar né.

Tem a brincadeira do, o Acre existe? né… e tem a brincadeira, Rondônia não é Roraima, muita gente confunde, então é preciso conhecer mais sobre o norte, é preciso sim trazer essa visibilidade.

A gente tem uma frase que usa que é, vem forte que eu sou do Norte né, eu tenho força, eu venho para mostrar quem eu sou, então eu acho que o norte ele precisa ser mais visibilizado né, tem essa invisibilidade sim.

Tem muita coisa rica para mostrar, tem muita coisa para mostrar, muita coisa legal que precisa ser explorado sabe, de uma maneira assim, positiva também.

 

[LUANA IBELLI]

Agora eu queria entrar num.. num assunto relacionado né, que é o seguinte: tem um texto, que eu tava vendo na Enois, de uma jornalista que chama Ariane Sussuí, acho que é assim que se pronuncia. Ariane, se tiver errado me perdoa (risos), mas ela fala né, do quanto…

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

É Sussui.

 

[LUANA IBELLI]

Sussui, Ariane Sussui.

Ela sempre, ela falando né, que ao longo da história, indígena sempre apareciam como personagens né, muito estereotipados, depois começaram até aparecer como fontes nas  reportagens jornalísticas e agora reivindicam cada vez mais estarem por trás das narrativas jornalísticas.

Como que você vê isso?

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Então, eu acho sensacional!

A Ariane ela também fazia parte da Coiab né, que é  um, uma coordenação aí de indígenas da Amazônia, e fazia parte da rede de jovens comunicadores na Amazônia e assim, é muito legal porque vendo esse movimento da juventude que quer saber se comunicar, que quer comunicar o que tá acontecendo sabe, é um, é uma revolução muito grande assim, eu fico muito feliz, muito feliz, com esse movimento todo né, de trazer isso, de eles contarem a própria história, a versão deles da história, como os fatos acontecem, o que eles estão vendo.

Porque muitas vezes a nossa história é contada por outras pessoas, que não entendem o contexto, não tem a vivência da realidade dos fatos e eu acredito que quando você conta aquilo que você vive, aquilo que você presencia né, e que é um modo de vida seu, ou o que seja, você traz verdade pra aquilo que você tá colocando ali.

Você mostra, você cumpre o seu papel de fato de mostrar a realidade dos fatos né, você traz verdade, você traz, é…

Eu acho que todo um sentimento ali também junto e consegue entregar tudo seu naquele material, seja vídeo, foto, texto, eu acho que é assim que é, pelo menos comigo funciona assim. Eu entrego tudo de mim pra um material por que é o que eu sinto, é o que eu vejo, é a realidade dos fatos.

Eu conto que, o que acontece de verdade né, e eu conto a história que eu estou vendo  a minha história  a história do meu povo.

Não é uma outra pessoa que entrou e tenta entender o contexto e conta, porque se perde muita coisa nesse conto de histórias sendo por uma outra pessoa.

Exemplo disso são os livros didáticos usados nas escolas no Brasil. Porque não usar livros escritos por indígenas pra contar essa história do Brasil, sabe?

Tem muita literatura indígena legal, que dá pra inserir nas escolas, que dá pra estudar, fazer um projetinho, ah, vamos estudar um mês assim, vamos, indígena é isso aqui, sabe.

Deixar aquele, aquele estudo de estereótipo que foi criado no passado né, de índio selvagem tudo mais, não, “Vamos entender o que é o indígena hoje?” Indígena é assim, é… quando chegaram os colonizadores estavam aqui, não tratar como a descoberta do Brasil, mas contar o contexto real de como que foi, a gente costuma dizer que foi invasão mas, mas enfim, tem vários jeitos para contar essa história aí que eu acho que seria interessante.

Acho que a mudança começaria por aí.

 

[LUANA IBELLI]

Você costuma falar nas suas entrevistas né, das consequências de você, de outros contarem a nossa história por nós né, e aí vem todos esses desajustes né, da realidade e do que as pessoas contam.

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Vou dar um exemplo também, muito interessante!

O nome Kaxinawá foi dado por um não indígena durante uma expedição. O nome do nosso povo é Huni Kuin.

Huni Kuin quer dizer povo verdadeiro e Kaxinawá era porque eu tinha indígena na floresta, ele tava caçando e alguém perguntou pra ele o que ele tava fazendo e ele respondeu nawakaxi. Nawakaxi é morcego, morcego branco, morcego. E aí, pra não ficar essa palavra, eles inverteram e ficou Kaxinawá por muito tempo.

Eu gosto desse nome né, porque eu gosto porque, por muito tempo  meu povo foi conhecido como Kaxinawá, mas muitas lideranças hoje adotam Huni Kuin que quer dizer povo verdadeiro, quer dizer a nossa identidade, então já começa daí.

Quem que contou, que começou a contar a nossa história, começou a contar com o nome totalmente diferente, foi uma interpretação diferente, assim como aconteceu com o povo Paiter Suruí, como o Uru Eu Wau Wau, que era porque um cachorro tava latindo do outro lado do rio e ficou Uru Eu Wau Wau, mas eles são Jupaú, que quer dizer os boca preta né, que é pintura com jenipapo…

Então a importância da gente contar a nossa história tá aí, no significado já a partir do nome do povo sabe.

As pessoas tão dizendo quem eu sou, não (sou) eu quedizendo quem eu sou, e aí elas acreditam… é como se eu chegasse lá a falasse assim: “Ah, seu nome a partir de agora vai ser laranja.”. Você fala para mim “Não”, ai você fala “Não, meu nome não é esse….”, eu falo não, a partir de agora vai ser e as pessoas começam a te chamar assim.

Esse é o impacto de outras pessoas contarem a nossa história. Agora se eu contar a minha história pra você, você vai entender, respeitar e vai ser isso a partir de então.

 

[LUANA IBELLI]

Já que você falou de nome né, vamos entrar nesse assunto que é uma coisa muito forte na sua história, né Luciene, e que talvez muita gente não conheça.

Você vivenciou uma batalha pra poder assinar como Luciene Kaxinawá. Conta como que foi?

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

É… Comecei, no início da carreira eu assinava como Luciene Marçal que é o meu primeiro sobrenome, do sobrenome da minha mãe, porém eu não era feliz… [Risos]

 

[LUANA IBELLI]

[Risos]

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

… com esse, com essa assinatura porque eu já entendi a importância da minha identidade  eu queria assumir a minha identidade e gostaria muito que fosse como Luciene Kaxinawá.

Passei quatro anos lutando pra conseguir assinatura como Luciene Kaxinawá, é…

A empresa…, assim, a orientação na verdade que eu recebi, era de não assinar com esse nome porque não tinha no meu registro de nascimento, então eu não poderia assinar, mas eu vivia sempre me questionando, “Poxa mas tem outros profissionais que usam outros nomes né?…”

 

[LUANA IBELLI]

Exatamente!

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

“…por que que eu não posso?” Eu tive que entrar com uma ação judicial, pra fazer alteração do meu nome e com esse pedido na justiça, na união, foi que eu solicitei formalmente pra empresa que eu trabalhava, a alteração do nome e eu falei assim: “olha, a partir de agora eu gostaria de ser chamada assim!”.

E aí, a partir de então, fui chamada como Luciene Kaxinawá.

A primeira vez que eu fui chamada como Luciene Kaxinawá ao vivo, eu segurei muito, a lágrima nos olhos, porque foi como isso que você falou sabe, eu represento não só eu mesma, eu represento um povo todo.

É… tem uma psicóloga que eu sempre tava junto com ela, e ela falava assim: “Lá vem, – quando fala assim –  Luciene Kaxinawá, lá vem ela com toda a aldeia dela”.

E é assim que eu me sinto né?

Falei assim: “Vou levar o nome do meu povo agora para o mundo inteiro!” E fiquei muito feliz!

Depois dessa transmissão ao vivo, eu chorei horrores de felicidade dentro do carro, gravei um vídeo que eu não tive coragem de postar, mas assim, fiquei muito feliz! E eu acho que nesse momento surgiu uma nova mulher sabe, com mais força, com mais garra, assim, agora sim eu vou com tudo, eu vou com força, eu vou lutar e vou cumprir a minha missão.

Me deu sabe, uma energia muito grande, muito forte, é o que eu falo assim, a energia, a minha energia astral sabe? Floresceu muito dentro de mim!

 

[LUANA IBELLI]

E como que foi pra as pessoas verem, do seu povo né, vê esse nome numa TV?

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Então, eu tive um reconhecimento, nossa, eu não esperava esse reconhecimento né? É muito maior do que eu imaginei quando foi feito o anúncio da primeira jornalista brasileira na TV.

É… recebi mensagens de muitos parentes de lugares assim que eu não conhecia, me acolhendo, muito felizes, “Vamos lá, você representa a gente, você vai representar a gente e tal, é… leva as nossas pautas aí pro mundo vê”, nossa foi muito lindo, muito lindo.

E no começo do ano,  eu fui pra minha comunidade, é visitar os parentes e tudo, e lá eles estavam me chamando de jornalista ou de Cacica [risos].

Aí, é, eles falou assim: “E jornalista, não sei o que…”, e me acolheram muito bem, e nossa é muito legal, muito!

Eu não esperava isso, eu tinha muito medo, eu tinha muito receio de não ser é…acolhida porque eu tenho uma vivência muito grande na cidade né?

A maior parte da minha experiência é na cidade, então, aí eu venho com meu nome…

Aí eu achei assim, ah, eles podem pensar que euquerendo usar o nome mas não, não é isso, porque eu já tava fazendo um trabalho em Rondônia, e depois comecei a fazer um trabalho no Acre, e depois fui fazer um  trabalho no Amazonas, e já tava cobrindo Amazônia toda e foi crescendo isso né, e foi fantástico!

 

[LUANA IBELLI]

Então vamos falar um pouquinho da sua experiência, né.

Você foi a primeira repórter indígena da TV brasileira né, e você sempre fala isso com muito orgulho, então queria que você contasse um pouco como que foi essa experiência de ser a primeira, e o que você vivenciou né, nesse período.

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Não esperava esse título.

Ahmmm… tinha…, eu trabalhava em uma outra emissora, acho que como menor aprendiz ainda né, eu comecei, e aí as pessoas já me olhavam assim… diferente tipo né…, “Uma indígena aqui dentro da redação e tal”.

Aí beleza, passou um tempo, uma jornalista olhou e falou assim pra mim: “Você não tem noção, você tá fazendo história, só que você ainda não percebeu isso.”

Passou alguns anos, eu recebi o convite de uma emissora internacional, e antes de eu receber esse convite, eu já tinha ouvido que se eu quisesse trabalhar em uma emissora grande eu tinha que estudar muito né, porque esse não era o meu lugar.

E eu ouvi durante a faculdade também, o meu…, alguns parentes falando, meu pai falou assim: “Ah, faculdade é pra quem tem dinheiro, a gente não tem dinheiro”. Então eu tive várias vezes motivações para desistir mas eu usava isso ao contrário.

Não, eu vou provar pra mim mesma que eu posso e consequentemente as pessoas vão enxergar isso e eu posso motivar outros indígenas a: entrar para faculdade, a ocupar os espaços na medicina, nas redações, no direito…

A minha irmã começou direito, não concluiu ainda, mais né, a gente espera que conclua, é… e pode conquistar os espaços né, e…  Ih, eu me perdi!

[Risos]

 

[LUANA IBELLI]

Pois é.

Você falou disso dos espaços né, existe muita essa idéia de que o indígena não pode estar em todos os espaços né, ainda uma visão de um mito, que o indígena precisa estar na tribo,  vamos usar esse termo porque assim as pessoas falam né.

Você sente isso?

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Sim!

Nas redes sociais, a gente ouve muito isso, vê nos comentários, “Volta pra sua maloca…”

 

[LUANA IBELLI]

Nossa!

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

“… Você não tem que tá na cidade… O que você tá fazendo aí…”

E tem muita questão de, a gente tem um celular, né?

Eu tenho um iPhone. “Ai índio de iPhone? Ah, todo índio agora tem iPhone? Ah porque a Funai deu, porque não sei o quê.”…

Cara, ninguém dá nada para gente, a gente tem que trabalhar. Se eu tenho um iPhone hoje, é fruto do meu trabalho e é ferramenta para o meu trabalho. É uma necessidade que eu tenho né. “Ah, mas índio anda de caminhonete, não sei o quê.”

Você não conhece o contexto, se foi ele que comprou, se é de alguma fundação, se é de algum trabalho, é…

E se ele tiver condições e quiser comprar, ele pode porque se uma outra pessoa aqui fora tiver condições, ela pode comprar também e ela não é julgada por isso. Então tem muito isso assim que: “Ai, o índio tem que ficar dentro da aldeia, tem que ficar na floresta, tem que ficar na maloca e tal”. Não, não é assim!

 

[LUANA IBELLI]

Agora sabe que eu fiquei pensando, é… que ao mesmo tempo que existe isso de falarem que o indígena precisa ser de um determinado jeito, vocês também sofrem preconceito exatamente por ser assim.

Então queria que você falasse um pouco disso né. Como que é chegar numa redação por exemplo, que as vezes, que a gente sabe é um ambiente muito homogêneo, você já trabalhou em TV, você sabe disso né, e a TV tem vários padrões.

Então como que é pra um indígena poder se assumir, por exemplo, você tá, né, com vários elementos e aproveita um pouco para falar também os elementos que você trouxe aqui né, no seu corpo e como que é isso né, que muitas vezes não é aceito.

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Sim!

Então, hoje eu vim com essa, com esse xale aqui, ele é produzido pelo meu povo, ele é confeccionado pelo meu povo, são… são… grafismos indígenas né, esse aqui é da jiboia.

A jiboia é como se fosse nossa mãe, é… a nossa sabedoria, a cura vem da jibóia pro nosso povo.

Trouxe os brincos aqui. Esse daqui eu aprendi fazer.

 

[LUANA IBELLI]

Não, tá lindo!

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Tô aprendendo os artesanatos também, são da nossa, da minha cultura do povo Huni Kuin,pintada com o jenipapo.

O Jenipapo ele é uma fruta né, que a gente faz a tinta quando tá verde, rala, esquenta, e tem todo um processo, e é uma fruta sagrada, né… de proteção.

Então, a gente usa muito pra quando vai pra alguns eventos, vai representar, vai para guerra né.

Tinha muito isso no passado, de ir para guerra mas a gente se prepara para guerra, para ir para Brasília principalmente, quando tem movimento. E é muito lindo assim, é muito sagrado, tem significado.

Esse daqui é do povo Paiter Suruí né, tem a representação da onça. Essa daqui é da onde vem a minha fala, a minha fala vem de dentro né, e eu tenho o desenho da jibóia aqui que é da sabedoria, da cura.

Eu trouxe alguns cocares também, vou pedir ajuda aqui…

[Risos]

 

[LUANA IBELLI]

[Risos]

Ai que legal!

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Esse daqui foi feito pelo Vô Mopiri é de…

 

[LUANA IBELLI]

Que lindo.

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

…penas de arara.

Eu sempre ando também, hoje como eu trouxe o meu xale, eu não achei necessário usar.

 

[LUANA IBELLI]

É, pro pessoal que só tá ouvindo a gente, porque a gente vai pro o YouTube e tá no Spotify. Então já aproveita para olhar gente, dá uma olhadinha no YouTube né, ou no vídeo não sei quando que o Spotify vai colocar vídeo, mas talvez aconteça em breve, que vocês vão ver as coisas lindas que ela tá, que ela tá mostrando.

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Esse segundo cocar, ele é feito de penas de Garça com arara também.

 

[LUANA IBELLI]

Lindo, nossa!

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

E esse outro aqui, esse primeiro que eu mostrei, ele é… dá para ser usado dos dois lados.

 

[LUANA IBELLI]

Dos dois lados.

Uhum.

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Esse último, ele é tradicional. Ele é, só o povo Paiter Suruí…

 

[LUANA IBELLI]

Ahã

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

…do interior de Rondônia tem esse, esse tipo de cocar, é o mais diferente de todos né.

São muitas penas de várias aves, dá um trabalhão para fazer….

 

[LUANA IBELLI]

[Risos]

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

…mas também é muito lindo né, ele traz uma energia, e uma força muito grande para gente né.

Que a gente leva, por que que a gente anda com cocar?

É a força da natureza! A gente leva a vida. A gente leva um pedacinho da floresta com a gente. É isso que representou o cocar.

O cocar também diferencia os poderes dentro das comunidades né, cacique, pajé, enfim… liderança e tudo.

Dentro do… Perdão, eu jáfugindo do contexto né?

 

[LUANA IBELLI]

Não, pode…

[Risos]

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Dentro do Jornalismo, eu como indígena…

[Risos]

 

[LUANA IBELLI]

Não, aproveita, é isso.

[Risos]

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

… é…. eu sempre gostei de andar assim né. As pessoas falam assim: “Ah, você anda cheia de miçanga, você anda cheia de pintura e como é que você vai trabalhar em televisão assim?”.

Poxa, hoje eu consigo trabalhar com mais liberdade, dessa maneira, com o jornalismo independente né, mas eu já enfrentei algumas situações de… quererem tirar algumas, alguns adereços né,

Recebi uma orientação, certa vez eu recebi uma orientação, de tirar os brincos né. Fui toda repaginada aí, cabelo e tudo, roupa, e aí pediram pra que eu não usasse mais brinco de pena.

Ai eu falei: “Ai, me desculpa, eu posso abrir mão do meu cabelo, eu posso abrir mão das minhas roupas, eu posso abrir mão de muita coisa, mas assim, da minha identidade eu não abro mão porque eu já levei tanto tempo para conquistar!”

E os meus brincos de pena, de miçanga, são um pedacinho de mim, é a minha essência.  Então eu não consigo tirar.

Bati o pé e fiquei mas muitas vezes em vários veículos que eu passei, eles tinham essa orientação de: “Ah, não usa brinco de pena, não usa colar e tal, não sei o quê”, porque vai chamar muita atenção, porque isso, porque aquilo outro”.

Falei: “Ai gente, vocês tão tirando um pedacinho da minha essência.”

Não é que eu vou aparecer com tudo isso, mas assim, poxa, um adereço, um brinco, um colar eu acho que é a minha identidade, como esse xale aqui né.

Quem olha, quem consegue assistir pelo YouTube, e for parente Huni Kuin, já vai identificar que eu sou do povo.

É a minha identidade de fato, isso representa muito para mim, muitas pessoas acham que é besteira, que é para chamar a atenção.

 

[LUANA IBELLI]

E representa um povo também né.

E acho que é importante porque os gestores às vezes quando a gente fala de inclusão né, tem esse chamado pra que as pessoas estejam lá né, tem, muitas vezes utilizam também da diversidade pra aparecer nos lugares né, como uma marca, como algo que vai chamar atenção,  mas não estão dispostos à realmente acolher tudo que essa diversidade traz, né?

Muito diferente é…, uma pessoa indígena está com um adereço que diz respeito ali à sua identidade e qualquer outro adereço né, qualquer outra coisa de roupa, enfim.

Então acho que é importante né, que estejam atentos á isso e que possam realmente acolher em todos os lugares.

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Uhum!

Eu acho que… e perguntar.

Sabe assim, perguntar não ofende sabe.

Então perguntar.

Isso faz sentido para você?

Você se sentiria confortável assim?

Isso é importante para você?

Do que você não abre mão?

Acho que seriam perguntas interessantes pra essa questão da inclusão.

Pra, pra contextualizar sabe, quem não é de dentro, pra quem é de dentro e vai pra fora, pra deixar todo mundo mais confortável possível também, porque são culturas totalmente diferentes, a gente entende, tem um contraste muito grande, mas eu acho que seriam perguntas interessantes a se fazer quando se tratar de inclusão.

 

[LUANA IBELLI] 

Você tem algumas medidas assim,  que você conseguiria pensar? Algumas coisas práticas pra… claro que são vários povos né, acho que 300 etnias a gente tem no Brasil…

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Mais, mais um pouquinho.

 

[LUANA IBELLI]

Mais…

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Uhum!

 

[LUANA IBELLI] 

Então não são todos iguais, mas existem coisas que talvez pudessem ajudar assim, que pensar como incluir realmente pessoas indígenas, uma vez que elas entram nas redações?

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Eu acredito que o primeiro passo é entender. O que é povos indígenas? Quem são os indígenas do Brasil?

Entender que tem essa diversidade, que é muito grande, é gritante, porque por muito tempo sem entender o quê indígena era um povo só, falava uma língua só, e não é assim.

São mais de 305 etnias, são mais de 270 dialetos diferentes, e cada um tem o seu costume né.

Então eu acho que começaria aí, sabe?

Entender o que são povos indígenas, quem são os indígenas e entender que tem essa diversidade muito grande.

E chegar e conversar sabe ó…, é essas perguntinhas que a gente acabou de fazer né: “O que é importante pra você? O que você não abre mão? Que faz sentido para você?”

Porque, por exemplo, na minha cultura a gente come jabuti. Na cultura do outro não come, dá azar, nem pode nem ver.

Então se isso for levado, algum costume for levado pra uma redação por exemplo, o que não pode acontecer? Como que dá para ver isso, sabe? Como que a gente consegue, é… fazer um equilíbrio aí?

Antes eu tinha muito medo! Por exemplo… Vou contar um segredo… – ai gente, eu vou contar um segredo para vocês!

 

[LUANA IBELLI] 

Gosto!

[Risos]

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Antes eu tinha muito medo e não gostava de ir em cemitério.

Fazer pautas em Dia de Finado, era horrível. Eu não, nunca. A minha orientação era nunca entrar dentro de cemitério até que um dia eu tive que entrar, que eu tava fazendo pauta.

Então, nunca ninguém chegou e perguntou para mim falar, perguntou para mim falou assim:   “Aí tem alguma coisa que para você, não seria legal?” Sabe?

E aí eu entrei, enfim… mas já passou!

Eu acho que seria interessante perguntar isso no modo cultural. Se “Ah, tem alguma coisa que pra você, se eu fizer, se eu pedi para você fazer, te ofende?” Sabe? Porque aí sim, eu acho que tem um diálogo importante, porque varia de cultura para cultura. Tem muitas, muitos costumes diferentes né.

Então tem coisas que pra mim não ofende mas pra outra cultura pode ofender.

Então é muito importante a gente tá atento a essa diversidade.

 

[LUANA IBELLI]

É… um trabalho também com os colegas né. Você tava falando que é isso, as vezes você chega numa redação as pessoas já olham de um jeito diferente.

Como que é também que poderia ser feito esse trabalho com os outros, pra que a presença de uma pessoa indígena, com todas as suas características né, de identidade, não chocasse tanto né, e não fosse uma coisa tão fora da curva assim.

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Então, eu acho que é mais tentar né, tratar com a maior naturalidade possível porque nós não somos bichos exóticos.

Nós somos pessoas que têm costumes diferentes. É tentar conversar, entender, acolher, ensinar.

Se a pessoa não souber algo, não julgar, porque eu já fui muito julgada né, “Índio é burro… Índio é preguiçoso… Ela não vai conseguir fazer isso…. Ela não tem capacidade pra isso…” Eu ouvi muito!

Mas não é bem assim.

Nós podemos, nós temos capacidade, se você quiser me ensinar algo que eu não sei, eu vou ser muito aberta, eu vou ser muito receptiva.

Se você falar: “Luciene você quer aprender isso? Você sabe isso?”

Eu não tenho vergonha de falar: “Não sei. Eu falo não sei, não conheço.”

“Você quer (aprender)?” Quero porque eu sou curiosa. Quero, vamos aprender, faço.

Você pede assim:

“Lú, você vem…, faz um documento aí pra mim assim, assim, assim?”

Não sei fazer.

“Ah, mas eu te ensino, te explico como é que é. Você faz?”

Faço!

Então é isso, é acolher, é ensinar, é tratar assim, da maior…, a maior forma possível de naturalidade, é tentar encarar isso com naturalidade.

Sei que muitas vezes não é fácil porque não faz parte do cotidiano aqui fora né, faz parte do nosso cotidiano.

Vir com brinco, vir com acessório, vir com pintura, principalmente com pintura. A pintura chama muita atenção.

E eu acho que tratar abertamente os nossos, nós indígenas também falarmos sobre isso dentro das redações, é importante pra que isso não seja estranho dentro das redações ou em qualquer outro lugar.

Falar assim: “Ó, isso aqui faz parte da minha cultura, isso aqui sou eu, isso aqui representa isso, e isso representa aquilo, é feito assim, assim, assado, matou a curiosidade, as pessoas ficam sabendo, não tem mais ignorância sobre o assunto, e aí tá tudo bem.

 

[LUANA IBELLI]

Ás vezes eu acho que o jornalista de uma forma geral, não jornalista, mas a mídia às vezes, subestima muito né.

Você falou isso né, de é só perguntar, é conversar, eu acho que com o público assim também, porque eu sei que muita gente poderia pensar, muitos gestores né: “Ah mas, aí o público vai ver ela aparecer com pintura” e vai ficar: “Nossa, mas o que é isso?”. Não vai prestar atenção na notícia, mas não necessariamente, as pessoas elas podem aprender né, não exclui.

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Não.

Eu acredito mais, que se for um, por exemplo, no meu caso…, eu como correspondente usando meu brinco de pena, eu sou correspondente da Amazônia.

Eu estou representando o lugar o qual eu estou representando ali, no trabalho né.. Eu estou, eu me perdi…

 

[LUANA IBELLI]

É, você estava falando que você…

[Risos]

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

[Risos]

É, foi bem ai que eu me perdi.

 

[LUANA IBELLI]

… eu tava falando que, as vezes existe uma desculpa assim né, ah, vai tirar a atenção da notícia né… ah, ela vai aparecer de pintura e as pessoas vão ficar se perguntando: “Aí, o que é isso? Meu Deus, nunca vi!”

Eu acho que não necessariamente né, as vezes a gente subestima muito o público.

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

O publico pode aprender á se acostumar.

A Mari Palma por exemplo, ela é um exemplo né. Eu ouço muito ela falar nas redes sociais de que ela ouviu muito, a jornalista não usa piercing, não tem tatuagem, foi um tabu quebrado.

Por que que isso não pode acontecer com povos indígenas? Pode, pode acontecer sim.

E no meu trabalho como correspondente na Amazônia, eu usava os meus brincos, os meus colares sabe, e dava mais representatividade e propriedade de fala.

Eu acredito de fato naquele momento que eu estava fazendo aquele trabalho.

 

[LUANA IBELLI]

E também mostrar a diversidade que existe né.

Uma das nossas entrevistadas, Nayara Felizardo, ela fala isso, quanto, que muitas vezes você privar o público de ver essa diversidade de sotaques e aqui a gente tá falando da sua diversidade né, de adereços por exemplo, priva as pessoas de conhecerem um Brasil que é muito diverso.

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

[Risos]

O Brasil é muito rico.

O Brasil é um país, nossa…, é um país que acolhe todo mundo. Então a gente tem um pouquinho de cada cultura né?

A gente tem a cultura dos povos indígenas que, que é muito grande, que faz parte do dia a dia, mas também tem outras culturas aí muito forte, como japoneses e outros aqui também no nosso país.

Então acho que é possível sim a gente se acostumar, porque a gente já se acostumou no dia a dia com tanta diferença né, tanta diversidade, porque não nas telas, enfim, nas redes sociais, em outros lugares.

 

[LUANA IBELLI]

Agora quero falar um pouquinho de trabalhos que você já fez, onde você mostrou né, comprovadamente o quanto essa diversidade é rica pra fazer narrativas muito boas que trazem, né, várias perspectivas diferentes.

Fala um pouquinho então, por exemplo, um dos últimos trabalhos né, pra mídia tradicional assim, você fez alguns trabalhos pra Vogue.

Então conta um pouquinho como foi essa experiência, que você trouxe nesses trabalhos.

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Então, a Vogue foi uma surpresa. É… foi um contato muito legal, que uma das agências me proporcionou.

Eles estavam com um pauta muito interessante, pra falar sobre guardiões da floresta né, uma campanha toda voltada sobre Amazônia, e me convidaram para fazer parte dessa, dessa campanha como jornalista.

Contei a história de três ou quatro personagens que fazem parte desse contexto Amazônia né, Sâmela Sateré Mawé, a Denise também, que faz parte de…, são duas mulheres né, tem a Rita Teixeira também, que faz parte de um acolhimento de mulheres que sofreram violência doméstica, que precisa m tomar um novo rumo na vida, assim de empreendedorismo e tudo mais, e dão alternativas.

E também contei a história de um pajé, do Amazonas também, eu esqueci a etnia dele agora gente, desculpa, mas eu contei um pouco do trabalho dele. Ele faz um trabalho muito legal no centro de medicina indígena, Bahserikowi, lá em Manaus, muito legal.

E… assim, foi muito bom contar a história e ver, e conhecer parentes também, que tem um papel de protagonismo ali na Amazônia, que faz um trabalho importante.

A Sâmela com jovens né, tem a Vanda witoto também, nossa, como aquela mulher é guerreira gente! Aquela mulher é demais!

Ela conseguiu, é…. construir um hospital dentro de uma comunidade que não estava sendo assistida durante a covid. Ela atendia sozinha, fazendo trabalho de formiguinha. Toda uma comunidade com 35 etnias né, no Parque das Tribos.

E conhecer esse trabalho.

Até o maquiador era amazônico ali, sabe? Todo um contexto, tudo ali, foi um trabalho muito lindo, um trabalho muito lindo, fantástico de fazer.

Estivemos num Mirante gavião, que é um local lá que ficou todo mundo…, maravilhoso também.

Uma das nossas personagens, a Milena, ela até chegou a falar assim: “Nossa, isso aqui é um portal. Isso aqui é um portal de energia, muito bom, muito positivo” e eu pude sentir isso nos dias que a gente tava lá.

Foi um trabalho incrível, incrível, incrível, que rendeu prêmio né, na Conder. Teve um prêmio internacional, essa edição.

E esse ano voltei a fazer trabalhos com a Vogue pra contar a história da Dandara Queiroz, que é uma modelo que se descobriu né, indígena também e está fazendo processo dela de retomada cultural, está conhecendo mais sobre a história do povo dela que é Guarani, e participando já de alguns eventos, algumas movimentações, sempre nesse contexto né?

E eu fiquei muito feliz com esse trabalho, esse reconhecimento que a Vogue teve, a importância que ela entendeu de ter esse espaço né, pros povos indígenas e ter esse espaço também para jornalistas indígenas.

 

[LUANA IBELLI]

Sim.

Eu ia te perguntar, como que foi a experiência de você chegar para fazer essa cobertura e as fontes de lá, verem chegando uma jornalista indígena!

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Então, ficou todo mundo meio passado né, assim… “Como assim? Tem jornalista indígena?” Tem…tem!

A gente tem a Alice Pataxó também, que é jornalista. Ela trabalha principalmente nas redes sociais, nos portais também.

Mas é muito difícil você encontrar um profissional jornalista indígena, e eu fiquei muito, muito, muito feliz com essa edição mesmo, assim…como profissional, de tá realizando um trabalho assim, que é a minha missão, e como pessoa de conhecer e participar daquilo tudo assim, foi incrível.

Acho que uma realização profissional muito grande.

 

[LUANA IBELLI]

E as pessoas ficam mais abertas assim, para conversar com você?

Você sente que o nível da conversa é mais aprofundado?

Como que é?

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Depende muito do local né.

Nesse específico, foi muito bom mesmo, fluiu demais, demais, porque os parentes se sentem acolhidos. Eles entendem que não é uma pessoa que vem de fora, é uma pessoa que tá lá dentro, que conhece o contexto.

E muitas vezes, eu consigo fazer vários trabalhos por conta disso.

Tem algumas comunidades que não aceitam pessoas de fora, porque eles sabem, eles já tiveram algumas experiências ruins, e sabem como que pode chegar de uma maneira diferente para o público, então eles preferem que indígenas façam esse trabalho né.

Que tenham a realidade, conhecimento dos fatos, que vai colocar de uma forma que eles entendam.

 

[LUANA IBELLI]

Porque, eu acho que isso também é uma questão né, muitos jornalistas não sabem chegar né, nesses locais, com esses povos.

O que você vê assim, que você faz diferente e que você vê que faz falta né?

Justamente, você falou que você consegue entrar em muitos lugares que outras pessoas não entram. O que você vê que acontece as vezes, que não deveria acontecer, e que você fez diferente…

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

É…cada… eu procuro entender primeiro, pra onde que euindo, né.

O que… aquela questão do ofende? “O que ofende aquela cultura? Aquele povo?”, eu pergunto muito.

Então, tem algumas comunidades que você chega e você não conversa com as pessoas que te receberam, você vai direto com o Cacique.

Então a sua fala tem que ser direto com a liderança, e aí depois, você vai lá e fala com os demais.

E tem todo um processo de chegada, um protocolo que eles têm de chegada, de comunicação, tem algumas fontes minhas indígenas que não conversam comigo diretamente, é um outro indígena que passa, e aí ele vê o que é, e aí dependendo da demanda passa né. Mas ai, ele fala assim: “É parente? É, é parente!”. Ele fala assim “Tá, a gente pode atender, mas é assim, assim, assim, assado.”

A gente entende. Beleza, tudo bem.

Eu acho que é isso.

É entender pra onde você tá indo, né. Com quem você vai falar, o que você vai falar, e a maneira que você vai abordar.

E o resultado é muito importante porque eles cobram. Eles cobram muito. Não só os parentes né, os indígenas, mas toda a população, porque eles querem ver o que tá saindo de fato, se saiu do jeito que eles falaram, do que foi falado que seria, eles ficam de olho mesmo, sabe.

E se sair ali, um pouquinho fora assim… não sei… mas é sempre mostrar depois, sabe.

Oh, saiu assim… saiu a matéria…

Primeiro conhecer, entender, e mostrar.

Eu acho que esses seriam os passos assim, fundamentais pra conseguir uma boa comunicação.

 

[LUANA IBELLI]

Perfeito.

E… vou voltar um pouquinho em uma coisa que você falou antes né, que você tá no jornalismo independente, que você conhece poucos jornalistas indígenas em veículos tradicionais.

Você acha que é mais difícil né?  Porque hoje, a maioria da cobertura indígena, para não dizer a totalidade, tá em veículos independentes.

É difícil se inserir no mercado? É por isso que muitas pessoas acabam optando pelo empreendedorismo?

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Sabe o que é difícil? É as empresas investirem nisso, né? Porque tem questão de logística, e… que, nossa! Eu acho que mexe muito com essas empresas. Têm a questão dos interesses, né?  Que tem algumas empresas com interesses políticos.

E as pautas indígenas, as pautas…as pautas indígenas são mais difíceis de emplacar, né… nos grandes veículos, porque ainda se tem aquela idéia assim: “A gente vai mostrar a gente pelado? Se não tiver, a gente não mostra.”

 

[LUANA IBELLI]

Nossa.

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

“A gente vai mostrar alguma coisa que… Outras não viram, né?”

Eles querem um furo, querem mostrar o que já é mostrado, algum tempo atrás de documentários né, que viram indígenas pelados e tal, não sei o quê, ou algum furo. E quem está cobrindo de forma independente, tá cobrindo o dia a dia, tá cobrindo que tá acontecendo.

 

[LUANA IBELLI]

Hum…

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Então, como não tem espaço, para as grandes mídias pra tá falando sobre isso, a gente acabou optando por empreender.

Recebi um convite, pra ir para o Xingu, quando eu tava trabalhando em uma emissora, e a emissora disse que não teria recurso para me mandar, que seria muito inviável, e eu ficaria muito dias fora, o que prejudicaria a redação.

E foi a partir daí que eu tomei a decisão de… mandar ver no meu independente.

Eu deixei de realizar um sonho, que é um sonho meu, conhecer o Xingu né, de contar a história do Quarup, porque eu noticiei no outro veículo né, que eu trabalhava na CNN, eu noticiei a primeira vez em Mil anos, que o Quarup não foi realizado, por causa da Covid.

E aí, o ano seguinte seria a retomada né, eu já estava em um outro veículo, e aí esse veículo não, não… achou que não seria interessante eu ir, eu falei assim “Ah, eu não vou deixar mais de realizar meus sonhos, de estar nos lugares, eu estou recebendo convites, eu vou e é isso que eu quero mostrar, e é isso que me motiva, e eu vou tentar! Vamos ver”, e já tem 1 ano que eu assim, nessa luta né.

Fácil não é! A gente tem risco, a gente tem despesa, a gente tem muita coisa acontecendo, às vezes não dá conta sozinha e compartilha com alguns colegas, mas é muito gratificante, sabe?

Eu me sinto realizada, eu me sinto feliz com o que eu faço, eu gosto de fazer o que eu faço, eu acho que é isso que vai acontecer, assim.

 

[LUANA IBELLI]

É, e esse jornalismo independente inclusive, tá cada vez mais pautando a mídia tradicional né, de tanta qualidade que esse conteúdo tem né?

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Sim.

Porque a gente trabalha muito com a questão da qualidade, é, do processo de apuração, de investigação, porque se você tá trabalhando de forma independente, você não tem um apoio, você não tem uma grande base de apoio né?

Então é você por você, você tem que fazer um trabalho bem feito e quando isso… é… quando a gente quer levar isso né, para uma proporção muito maior, a gente tem que levar um trabalho bem feito pra que sim, seja aceito nas grandes mídias e seja repercutido aí.

 

[LUANA IBELLI]

Falando em trabalho bem feito, eu vou fazer uma pausa pra gente indicar um conteúdo para o nosso público né, todos os episódios a gente fala de conteúdos da Rádio Guarda-Chuva que nós temos o selo, com muito orgulho.

E a Rádio Guarda-Chuva tem  um catálogo com vários podcasts né. A Rádio Guarda-Chuva é a primeira rede de Podcasts jornalísticos do Brasil. E hoje eu vou recomendar mais um, para você que tá ouvindo ou assistindo a gente.

É o Finitude. Ele é apresentado pela Juliana Dantas e o Renan Sukevicius e aborda assuntos como morte, luto, envelhecimento, e cuidados paliativos.

As histórias fazem pensar que tudo tem um ponto final e que a vida se torna melhor quando a gente lida bem com essa perspectiva do fim.

Eu sou muito suspeita para falar desse podcast porque eu acho que é um conteúdo incrível assim, com honestidade sabe, e uma delicadeza em abordar temas que a gente ignora né, que a gente escolhe não olhar, a nossa perspectiva do fim. Então recomendo muito né, que você ouça, você que tá gostando aqui no nosso conteúdo jornalístico.

Inclusive o Finitude ganhou prêmio, ganhou já uma menção honrosa no Vladimir Herzog, que é um dos maiores prêmios de Jornalismo do Brasil. Também já foi um dos 12 preferidos da Apple Podcast, então a qualidade é garantida.

Se você não conhece, então vai lá procurar. Realmente aquele tipo de conteúdo que ressignifica sabe, a nossa vida, as nossas experiências.  Então você pode seguir o finitude no Instagram, @finitudepodcast ou no  Twitter também, @podcastfinitude e claro, seguir também os episódios, ouvir os episódios no seu tocador favorito.

Vamos já para o final.

Você tava falando de sonhos né? E você trouxe esse assunto mais de uma vez enquanto a gente tava conversando, então quero aprofundar nisso.

Compartilha com a gente Luciene, quais são os seus sonhos pessoais, profissionais, que podem ter relação com jornalismo ou não.

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Uhum…

Então, eu tenho a minha, a minha empresa né, pra fazer a produção de conteúdos independentes.  Eu quero muito que ela cresça, eu quero muito poder entregar mais conteúdo, com qualidade, divulgar mais sobre Amazônia, e que mais pessoas venham junto comigo, né.

Eu espero que a Amazônia seja um assunto cotidiano, não só pontual, não só usado pra período eleitoral também, mas seja… porque é nosso cotidiano, né. O nosso ar, o ar que vem para cá também, vem da Amazônia. Então faz parte do nosso cotidiano, a nossa alimentação também.

Sonhos, tem muitos, vários! Projetos? Demais!

Estou aqui, com um projeto em andamento para a criação de uma associação de mulheres artesãs do povo Paiter Suruí.

Por que que eu falo tanto do povo Paiter Surui gente, se meu povo é Huni Kuin?

 

[LUANA IBELLI]

[Risos]

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Calma, eu vou explicar.

 

[LUANA IBELLI]

[Risos]

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Estou com planos de casar o ano que vem….

 

[LUANA IBELLI]

Ahhhhh…

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

…com um indígena…

 

[LUANA IBELLI]

…pronto.

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

…que eu conheci durante o movimento indígena esse ano, e ele é do povo Paiter Surui, então eu ando muito na aldeia do povo Paiter Suruí conhecendo, fazendo um intercâmbio cultural vai.

 

[LUANA IBELLI]

[Risos]

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

[Risos]

E aí, já estou com planos lá pra aldeia onde eu sempre frequento, porque eu acho que é uma necessidade muito grande das mulheres que produzem artesanato, mas precisam de uma casa, de um local para colocar o seu artesanato para venda, para expor para turistas né, que tem um complexo, complexo turístico lá, então falta esse espaço, esse apoio e eu quero muito dar esse apoio para elas.

Conseguir fazer crescer a minha empresa de comunicação, agência de comunicação, pra que eu possa conseguir fazer um conteúdo bom, com qualidade né,  pra que tenha material, pra conseguir atender as demandas e tudo, e que surjam mais trabalhos né, pra que a gente possa realizar mais sonhos ainda.

 

[LUANA IBELLI]

Perfeito.

E você quer deixar agora as rede sociais? Aproveita que esse é momento, para as pessoas seguirem, acompanharem o seu trabalho né, e apoiarem.

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Com certeza.

A minha rede social é @lucienekaxinawá, tá no Instagram, no Facebook, no Twitter, sou nova no Twitter, maslá gente…

 

[LUANA IBELLI]

[Risos]

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

…tô começando devagarinho,lá, observo muito.  Sei que muitas coisas são pautadas também no Twitter né, as redes sociais são muito importantes para cada um de nós, e agradeceu o convite imensamente.

 

[LUANA IBELLI]

Não, eu que agradeço, obrigada!

Você foi sempre super solicita, e… foi um aprendizado muito grande e a gente espera que mais gestores, né, mais jornalistas consigam naturalizar isso, e a gente quer sim muitos veículos independentes pautando a questão indígena mas a gente também quer mais indígenas nas redações.

Eu acho que você mostra, né, que isso é possível e o quanto as narrativas jornalísticas ficam mais ricas com diversidade. E é isso que a gente espera também.

Então quero agradecer você ter vindo e compartilhado tudo isso com a gente, Luciene.

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Ai, eu que agradeço!

Ah, só reforçando o negócio, a questão das redes sociais, tem o meu Instagram que é @Lucienekaxinawa, mas também, quem quiser conhecer um pouco mais dessa história do casal Surikuim…

 

[LUANA IBELLI]

[Risos]

Muito bom!

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

…que é uma mistura ai de Huni Kuin com Surui fica o arroba também, @casalsurikuin.

E aí tem essa questão da troca de cultura né, a cultura dele, a minha cultura, como que a gente lida com isso, nosso cotidiano. Conta um pouco da nossa história também, tá aberto lá, quem quiser seguir tá lá.

 

[LUANA IBELLI]

Muito bom!

Obrigada!

Espero ter mais oportunidade também de conversar com você.

[Risos]

 

[LUCIENE KAXINAWÁ]

Haux, haux.

Gratidão!

 

[LUANA IBELLI]

Gratidão!

Gente, vamos encerrar, obrigada pela sua audiência, e antes da gente encerrar mesmo, quero fazer os nossos agradecimentos.

Primeiro a nossa equipe do portal do jornalistas, Anna França, estagiária, Fernando Soares, editor, Victor Félix, repórter.

Também tem os nossos apoiadores, que é Ajor, Associação de Jornalismo Digital, a ICFJ, International Center for Journalists, a Meta Journalism Project, a Imagem Corporativa, e a dio Guarda-Chuva.

E os nossos parceiros institucionais, a Éis Conteúdo e a Oboré Projetos Especiais.

Mito obrigada pela companhia e até o próximo episódio. Tchau!

IEPS realiza oficina para jornalistas sobre seu novo portal de dados

IEPS realiza oficina para jornalistas sobre seu novo portal de dados

O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) realizará ao longo de agosto uma série de oficinas seu novo portal de dados, o IEPS Data. Cada oficina será destinada a um público específico, e, nesta terça (2/8), o evento será voltado para jornalistas e comunicadores.

O IEPS Data disponibiliza dados de diversos temas, de 2010 a 2020, prontos para download. O objetivo é contribuir para o aprimoramento das políticas públicas do setor de saúde no Brasil. A ideia da oficina é apresentar as funcionalidades do novo portal e abrir um espaço para dúvidas e sugestões.

Os indicadores presentes no portal foram escolhidos e tratados após consultas a especialistas e continuarão sendo aperfeiçoados e expandidos. A ideia é que quem acessar o site possa consultar os dados e entender a como anda a situação da saúde de determinado local.

A oficina para jornalistas e comunicadores será realizada a partir das 11h, via Zoom. Inscreva-se aqui.

Fenaj: Chapa Unidade na Luta é eleita com 97,16% dos votos

Fenaj: Chapa Unidade na Luta é eleita com 97,16% dos votos

A chapa Unidade na Luta – Em Defesa do Jornalismo, dos Jornalistas e da democracia,  única a concorrer nas eleições da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), foi eleita com 97,16% dos votos. Ao todo, 2.010 jornalistas de todo o País participaram da eleição.

As eleições, realizadas de forma online entre 26 e 28 de julho, escolheram novas Diretoria Executiva, Vices-presidências Regionais, Secretarias, Conselho Fiscal e cinco membros da Comissão Nacional de Ética: Vera Daisy Barcellos, Beth Costa, Suzana Tatagiba, Franklin Valverde e Osnaldo Moares.

Samira de Castro, eleita presidenta da Fenaj, destacou a importância de trazer para o plano nacional as lutas comuns, que têm acontecido de maneira estadual. Além da valorização da categoria jornalística, ela pontou outras lutas que devem fazer parte da atuação da entidade, como a regulamentação profissional, que é de 1979; o estabelecimento do piso nacional de jornalista; a criação do Conselho Federal de Jornalistas; a aprovação da PEC do Diploma; a taxação das plataformas digitais; e a criação do Fundo de Apoio ao Fomento do Jornalismo.

“Essas lutas, inclusive, serão levadas ao próximo presidente da República para que a gente tenha um ambiente de anuência do Congresso Nacional para aprovar essas pautas em prol da categoria”, declarou.

Jeduca abre inscrições para Congresso Internacional de Jornalismo de Educação

Jeduca abre inscrições para Congresso Internacional de Jornalismo de Educação

A Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca) realizará em 12 e 13 de setembro o 6º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação, de forma presencial, em São Paulo, com o tema Eleições e a cobertura de educação nos próximos anos.

O evento terá oficinas e debates com palestrantes nacionais e internacionais sobre a prática jornalística e aspectos-chave para a cobertura de educação. Discutirá planos de governo para a educação com representantes dos candidatos à Presidência da República, bastidores da cobertura do escândalo dos pastores no Ministério da Educação, educação na Amazônia, política de cotas, o impacto da pandemia nas escolas pelo mundo, entre outros.

Parte da programação será transmitida pela internet, com interação do público via chat. A taxa de inscrição é de R$ 25 para associados da Jeduca, estudantes e professores de jornalismo/comunicação. Não-associados pagam R$ 50. Para os interessados em participar apenas da versão online, associados da Jeduca, estudantes e professores de comunicação têm inscrição gratuita, e para os demais, a taxa é de R$ 25.

O Congresso será realizado Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), na Av. Liberdade 532, ao lado da estação Japão-Liberdade da linha azul do Metrô. Confira a programação e inscreva-se aqui.

Notícias Agrícolas comemora 25 anos com debate e premiação

Notícias Agrícolas comemora 25 anos com debate e premiação

O Notícias Agrícolas, portal de notícias sobre agronegócio na América Latina, comemora neste ano 25 anos de atuação. Para celebrar o marco, e também o Dia do Agricultor (28/7), o site realiza nesta sexta-feira (29/7) um debate sobre a agricultura brasileira e os desafios e oportunidades que estão por vir.

O evento terá a presença de referências na área, como o almirante Flávio Rocha, representante do Conselho Nacional de Fertilizantes (Confert); Marcos Montes, ministro da Agricultura; Celso Moretti, presidente da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária); e Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura (2003-2006) e coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A mediação será de Aleksander Horta, que esteve por duas vezes entre os +Admirados da Imprensa do Agronegócio, promovido por J&Cia e Portal dos Jornalistas.

O evento terá ainda a premiação Melhor História de um Agricultor, que está em sua segunda edição. O Notícias Agrícolas recebeu dezenas de histórias de produtores rurais de todo o País. As cinco melhores foram colocadas em votação popular e os vencedores serão revelados no evento, com a presença de todos.

A solenidade será realizada a partir das 15h, com transmissão pelo portal do Notícias Agrícolas e pelo YouTube.

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