Por Álvaro Bufarah (*)

Durante anos, o discurso predominante sobre o futuro do rádio foi relativamente simples: plataformas digitais substituiriam gradualmente a transmissão tradicional, transformando o FM em um resquício analógico de outra era. Mas uma pesquisa recente realizada com jovens universitários de Surabaya, na Indonésia, sugere que a transformação do áudio é muito mais complexa – e, talvez, mais humana – do que a lógica tecnológica costuma admitir.

O estudo, publicado pela revista científica Frontiers in Communication, investigou como jovens da Geração Z transitam entre o rádio terrestre e plataformas de áudio sob demanda, como Spotify e YouTube Music. O resultado não aponta exatamente para uma substituição completa de um meio pelo outro, mas para uma reorganização emocional do consumo sonoro.

Em termos práticos, os pesquisadores identificaram uma espécie de “dualismo funcional”. O streaming domina quando o objetivo é autonomia: escolher músicas, evitar publicidade, controlar o ambiente sonoro e consumir conteúdo sem interrupções. Já o rádio ressurge em situações específicas – especialmente durante deslocamentos urbanos – como um espaço de companhia, contexto e pertencimento.

A descoberta é particularmente relevante porque rompe com uma ideia recorrente no debate tecnológico: a de que eficiência algorítmica é suficiente para substituir vínculos humanos na comunicação.

Os entrevistados relataram forte desgaste com o que a pesquisa chama de “poluição auditiva” – longos intervalos comerciais, anúncios repetitivos e formatos lineares que interrompem a experiência sonora. Para muitos, plataformas digitais representam não apenas conveniência, mas uma forma de recuperar controle cognitivo sobre o próprio consumo midiático

Mas o paradoxo aparece justamente quando essa autonomia torna-se excessiva.

No trânsito caótico de Surabaya – cenário semelhante ao de cidades como São Paulo, Jacarta ou Cidade do México –, muitos jovens relatam abandonar momentaneamente o poder de escolha e retornar ao rádio tradicional. Não por limitação tecnológica, mas por fadiga cognitiva. Em momentos de congestionamento, calor e saturação mental, o rádio passa a funcionar como um “companheiro de baixa demanda”: alguém escolhe por você, comenta a cidade, contextualiza o cotidiano e, sobretudo, compartilha a experiência coletiva do momento.

Esse ponto talvez seja o mais importante da pesquisa. O estudo identifica aquilo que chama de “âncora humana” – a capacidade do locutor de rádio de produzir presença social e proximidade emocional em tempo real.

Enquanto algoritmos conseguem prever gostos musicais, eles ainda não conseguem reproduzir plenamente elementos como espontaneidade, humor contextual, empatia territorial e reconhecimento cultural. Em Surabaya, por exemplo, ouvintes valorizam o uso do dialeto local Suroboyoan, comentários sobre trânsito, clima e situações compartilhadas pela cidade. O rádio deixa de ser apenas um distribuidor de áudio e se transforma em um mediador de pertencimento social

A constatação dialoga diretamente com fenômenos observados também no Brasil. Em grandes centros urbanos, rádios all news, esportivas e populares continuam exercendo forte função de “companhia urbana”, especialmente em automóveis, transporte público e ambientes de trabalho. Em cidades menores, emissoras locais seguem funcionando como espaços de identidade regional – muitas vezes mais relevantes culturalmente do que plataformas globais de streaming.

Não é coincidência que rádios brasileiras com forte presença de apresentadores, humor local e prestação de serviço mantenham relevância mesmo diante da expansão do áudio sob demanda. O que está em disputa não é apenas distribuição de conteúdo – é construção de vínculo.

A pesquisa também propõe um conceito interessante: a “mutação digital” do rádio. Em vez de resistir à lógica das plataformas, o meio precisaria incorporar parte dela – oferecendo acesso sob demanda, menos interrupções comerciais e presença multiplataforma – sem abandonar aquilo que o diferencia: a experiência humana em tempo real.

Na prática, isso significa que o futuro do rádio talvez não esteja em competir com Spotify ou YouTube Music como catálogo musical. Essa batalha, segundo os próprios autores, já foi vencida pelas plataformas. O diferencial estratégico do rádio estaria justamente no que os algoritmos ainda têm dificuldade em reproduzir: calor humano, improviso, contexto local e sensação de convivência.

A conclusão é particularmente simbólica em um momento de avanço acelerado da inteligência artificial generativa. Quanto mais automatizada se torna a produção de conteúdo, maior parece ser o valor atribuído a experiências percebidas como genuinamente humanas.

Isso ajuda a explicar por que, mesmo entre jovens hiperconectados, ainda existe espaço para vozes locais, transmissões ao vivo e relações parassociais com comunicadores. O rádio deixa de ser apenas tecnologia de transmissão e passa a operar como infraestrutura emocional.

Talvez o erro de parte da indústria tenha sido imaginar que o futuro do áudio dependeria apenas de inovação técnica. O estudo sugere o contrário: a sobrevivência do rádio pode depender exatamente daquilo que ele sempre soube fazer melhor – transformar voz em presença.

E, em um ecossistema dominado por feeds automatizados e playlists infinitas, presença talvez seja o recurso mais escasso da comunicação contemporânea.

 

Sugestões de fontes para aprofundamento

 

Você pode ler e ouvir este e outros conteúdos na íntegra no RadioFrequencia, um blog que teve início como uma coluna semanal na newsletter Jornalistas&Cia para tratar sobre temas da rádio e mídia sonora. As entrevistas também podem ser ouvidas em formato de podcast neste link.

Foto Álvaro Bufarah, identificado

(*) Jornalista e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e do Mackenzie, pesquisador do tema, integra um grupo criado pela Intercom com outros cem professores de várias universidades e regiões do País. Ao longo da carreira, dedicou quase duas décadas ao rádio, em emissoras como CBN, EBC e Globo.

 

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