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quarta-feira, abril 17, 2024

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#diversifica – Especial: Subjetividades – Transcrição: Ep. 3 – Entrevistada: Luciana Barreto

[ LUANA IBELLI / ABERTURA ]

Olá! 

Tá começando o #diversifica, um podcast sobre diversidade, equidade e inclusão no jornalismo. Esse é o especial Subjetividades.

Eu sou Luana Ibelli, e tenho muito prazer de estar nesse terceiro episódio, onde a gente vai entrevistar mais um jornalista que tem história em representar diversidade nas redações. 

A nossa convidada é uma referência sobre negritude na TV. Uma inspiração para meninas negras que hoje podem olhar para um grande jornal e falar:

Quero ser assim quando crescer! 

Luciana Barreto, muito obrigada por ter aceitado nosso convite. 

[ LUCIANA BARRETO ]

Olha a responsabilidade dessa apresentação! 

Eu que agradeço, vai ser ótimo conversar com vocês.

[ LUANA IBELLI ]

E para mim é uma alegria muito grande, assim, pessoal, né? 

Porque a gente trabalhou numa emissora, né, na TV Brasil, durante um tempo… e era muito reconfortante quando eu entrava ao vivo, começando ainda, e você estava lá para me receber no estúdio…

Então, só queria te dizer que isso me deu muita força para estar aqui para fazer tudo que eu faço. Então, já começo assim, já, talvez chore um pouquinho ao longo da entrevista… 

[ LUCIANA BARRETO ]

[Risos] 

[ LUANA IBELLI ]

… não sei, vamos ver. Mas, brigada. 

[ LUCIANA BARRETO ]

Eu falava assim.

Gente, quem é aquela menina linda, pelo amor de Deus! Essa garota tem que apresentar. 

Pelo amor de Deus!

[ LUANA IBELLI ]

Pois é, e só aconteceu de eu ir porque tive essa referência, vi você falando… mas eu vou adiantar isso ao longo da entrevista, né. 

Pra gente começar, eu queria que você falasse um pouco da sua trajetória, né? O que faz a sua essência, assim, dessa jornalista que você é hoje, e um pouquinho do que você faz, atualmente. 

[ LUCIANA BARRETO ]

Bom, eu… diferente de algumas outras jornalistas negras que estão hoje na televisão, eu sou uma mulher, preta, de periferia. 

Então, a minha trajetória, não dá para entender o que eu sou hoje, ou jornalismo que eu faço, né, um jornalismo extremamente engajado com questões de direitos humanos, ou de humanismo, né. Eu posso falar que é um jornalismo de humanismo, porque o leque é bem amplo, de questões que eu que eu gosto de trabalhar… Não dá para entender sem entender a minha origem, né? 

Então, eu nasci numa família muito pobre, da periferia da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. E lá eu entendi, junto com uma família muito engajada, também, em luta por direitos, direitos básicos, eu tô falando, é direito a saneamento básico mesmo, é direito a ter acesso à estrada, ônibus, direitos muito básicos.

Então, quando eu cresci nessa família que tava muito engajada nessa luta por direitos, eu já na adolescência comecei a perceber que a gente precisava de ter canal de denúncias. E eu comecei a perceber também que a gente não era a notícia. 

E aí eu fui entendendo que o jornalismo tinha esse viés, pelo menos um viés elitista, classista, e que a gente talvez não fosse a notícia se a gente não entrasse lá para falar.

Olha! Essa redação precisa de alguém que veja essa população. 

Então, são exemplos básicos, por exemplo, a Baixada Fluminense tem 13 municípios. 

Se tivesse um acontecimento que virasse notícia no Rio de Janeiro, a pessoa, o jornalista poderia dizer, até a esquina da rua tal, com a rua tal, do bairro de Copacabana, digamos assim. 

E se acontecesse algo na Baixada Fluminense falava, aconteceu na Baixada Fluminense

São 13 municípios. 

Aí, já mostra o classismo do tipo de jornalismo que a gente ainda faz nas redações de grandes veículos de comunicação.

[ LUANA IBELLI ]

E o que você tá fazendo hoje, no seu trabalho? 

Assim…só se alguém ainda não viu e não conhece, né? 

Mas é muito gostoso ouvir da pessoa [risos]. 

[ LUCIANA BARRETO ]

Hoje eu sou âncora da CNN, já há três anos, tô no início do projeto, eu posso dizer que eu estou antes do projeto, né? Eu sou uma das primeiras contratadas da emissora. Coloquei emissora no ar. 

Faço o jornal Visão CNN, que é um jornal que faz o início da tarde, uma transição para um jornalismo mais pesado, que é o jornalismo da CNN mesmo, que é um jornalismo muito voltado para a política, economia, sociedade. E a gente faz essa transição. 

Então, o meu jornal é um jornal de muita análise… duas horas de análise sem nenhuma reportagem, só fala e análise, fala e análise. E muito link. 

Então, eu faço essa transição para um jornal que vai ficando um pouco mais político, que é o 360 com a Daniela Lima.

Essa é a minha função.

[Risos] 

[ LUANA IBELLI ]

E aí eu quero voltar um pouquinho, que você estava falando do jornalismo que a gente ainda faz, eu acho que tem a ver com esse questionamento que é um pouco do centro do que a gente traz na discussão desse podcast, né, com o tema subjetividades.

Quero que você fale um pouquinho se você acredita que é possível ser objetivo no jornalismo. Se é possível ser neutro, imparcial. 

E como que isso está relacionado com a pauta da negritude.

[ LUCIANA BARRETO ]

Olha… 

A  imparcialidade e a neutralidade são palavras que são objetos de estudos de comunicação… eu acredito que a gente pode ter, é como é que eu vou dizer…

Um certo equilíbrio.

Não vou a gente nunca vai ser imparcial, né? Não tem como você ter uma uma escolha da notícia, a visão do mundo que você tem…Não tem como você trazer essa imparcialidade total e completa para notícia, para o olhar da notícia. 

O que você pode trazer é um foco mais de… como é que eu vou dizer? De equidade para notícia no sentido de equilíbrio mesmo, sabe? Então, eu acredito muito no olhar com equilíbrio. O que é o olhar com equilíbrio? Por exemplo, na CNN, a gente tenta, é estar muito focado nos fatos.

Fatos são fatos. 

Então essa, esse é o mote da CNN. Então, eu acredito muito nos fatos, tô muito focada nos fatos.

Agora, cá entre nós. Quando a gente escolhe o que é notícia, a gente já tá colocando um pouco da nossa visão de mundo, do que, como eu disse como primeiro exemplo, do que nós somos. 

Quando você tem uma redação, que é o que acontece hoje no Brasil, e aconteceu mais ainda no passado, uma redação de homens, brancos, como a mesma origem social, é muito provável que o que você tem como o que é notícia seja muito semelhante, né? O olhar sobre a notícia.

Então, para te responder… Eu tô dando voltas aqui, para te responder… eu vou te responder com exemplos… sobre o meu trabalho, especificamente. Você consegue isso em todas as emissoras que eu trabalhei. Vamos pensar no Internacional. 

Você consegue trazer uma notícia de um atentado terrorista, por exemplo que acontece num num país do Hemisfério Norte, então é um país da Europa, ou os Estados Unidos… e essa notícia, ela vai conseguir reverberar durante horas, em uma televisão brasileira ou num veículo de comunicação do Brasil.

Você vai ficar horas tratando essa notícia, então isso é escolha, nossa, do que é notícia, é importante. Um atentado com cinco mortos, por exemplo, nos Estados Unidos. Um atentado com 250 mortos na Nigéria…Moçambique, ou qualquer país da África, a gente não consegue dar 30 segundos. Quando a gente realmente acha que é notícia, ou não. 

Então essa escolha, ela tá carregada de um leque de problemas que a gente carrega nas nossas redações. Entre eles o racismo estrutural.

É um leque de problemas, né, do que a gente realmente acha, do que a gente tem empatia, do que é a sensibilidade. Então, esse eu… esse eu, essa formação, esse profissional que está ali olhando pra notícia e escolhendo o que é notícia, e que tenta uma neutralidade, ele não vai conseguir ser imparcial.

Porque ele traga todo esse olhar, todo esse eu para a notícia. É só um exemplo muito simplório pra te mostrar que você não consegue trazer essa imparcialidade, ainda que você queira. 

 Agora, você pode estar muito focado nos fatos. E fatos são fatos.

[ LUANA IBELLI ]

E você falou que… pelo menos a minha compreensão, né, é que a gente consegue chegar nesse equilíbrio quando a gente tem esses profissionais, lá atrás, pautando esses temas com essas visões diversificadas. 

E aí eu queria trazer esse dado, né? É o Perfil Racial da Imprensa Brasileira, que foi feito pelo Portal do Jornalistas e pelos Jornalistas e Cia…no ano passado, mostrou que só 20% dos  jornalistas nas redações do Brasil se autodeclaram pardos ou pretos, ou seja, negros.

E a gente tá numa população que é mais de 50% né? Nós, pessoas negras, pardas e pretas somos mais de 50% da população. Quais são as consequências, né? Primeiro… não as consequências, mas por que em 2022 os jornalistas não estão nas redações ainda, os negros ainda não estão nas redações brasileiras? 

[ LUCIANA BARRETO ]

Bom, isso é um problema muito clássico numa falha do nosso sistema educacional, né? Então, a nossa educação, do Brasil, melhorou muito da década de 70 até especialmente depois da nossa Constituição Cidadã de 1988, o Brasil fez o dever de casa, a gente tinha um grande número de analfabetos…

A gente vem de um país escravagista, com pouco mais de 130 anos de abolição. A gente lembra que não muito longe, negros não estudavam e mulheres também não frequentavam a   escola. 

A gente tá… vai comemorar agora o bicentenário da independência e sabe disso, que a gente tinha restrição a mulheres e aos negros. 

Nossos problemas são estruturais. 

A gente conseguiu avançar… a gente conseguiu avançar até a página que a gente queria avançar. Porque a gente lida com o racismo, e o racismo ele impede, definitivamente impede, o avanço de parte da população.

Então… o Achille Mbembe, que é um pensador, né, camaronês, ele fala muito sobre a necropolítica, que não é o só o matar, mas muitas vezes o deixar morrer, e a gente… o Brasil, o estado brasileiro por muito tempo deixou ou deixa ainda parte da sua população ao Deus dará. 

Não se importa, por exemplo, com a qualidade do ensino que é ministrado em boa parte do Brasil, longe dos grandes centros urbanos. 

Não se importa se essas pessoas…o alto índice de evasão escolar que tem nesses lugares. Não se importa se a gente está numa periferia, numa escola de periferia, e tem dezenas de trocas de tiros, tiroteios, por ano, né? 

Se tem… se a gente fala de entrada de policiais nas favelas, e se aquelas escolas ficam dois três dias sem aula naquela semana. E tem pesquisas que mostram, por exemplo, que na Favela da Maré… eles fizeram uma pesquisa dessa, os alunos chegam a ficar cerca de um mês sem aula por ano… 

[ LUANA IBELLI ]

Nossa… 

[ LUCIANA BARRETO ]

… o que significa que durante o ensino fundamental, eles ficam um ano, eles perdem um ano de estudo, durante o ensino fundamental. 

Isso é uma forma de deixar acontecer

É um deixar morrer, a educação, também. Né? Isso também é uma parte de uma necropolítica.  

Então, respondendo objetivamente à tua pergunta, onde está essa população negra, onde está essa população que poderia contribuir com esse olhar mais diverso dentro das redações? 

É essa população aí.

Um ou outro vai conseguir furar a bolha, eu sou parte disso, não porque o estado brasileiro quis, mas porque um ou outro consegue através de muito… não esforço pessoal, mas de muita renúncia pessoal.

Eu não gosto de falar de esforço pessoal, porque a gente não tem que falar, essa história de heroísmo. Não é uma história heroica, a gente não tá falando de meritocracia aqui, a gente tá falando de renúncia. 

Então, através de muita renúncia pessoal, um ou outro consegue. E aí… a gente tem essa diversidade falha nas redações. E aí a gente…

O sistema todo é falho, no final das contas, né? 

O sistema é falho, o que a gente fala é falho, porque a gente não consegue ter minimamente essa essa diversidade que o Brasil oferece, que talvez seja o maior motor do Brasil nos grandes…centros de poder, ou nas grandes profissões de poder.

E a gente sabe que a comunicação é uma profissão de muito poder.

[ LUANA IBELLI ]

É, e você falou das renúncias, né? E eu fico pensando em barreiras também. 

Muitas pessoas negras, quando falam da dificuldade da entrada, das barreiras, então, desde a educação, como você falou…

E aí, a gente… essa população já tá atrás, né? 

Então, para acessar uma redação, que também já é um círculo um pouco mais fechado, muitas vezes o próprio processo seletivo traz uma série de requisitos que não fazem parte da base da maior parte dessa população, né, Lu? 

[ LUCIANA BARRETO ]

Exatamente. 

A gente tem uma grande… pra ser justa, uma grande leva de educadores que pensam o Brasil, né? Não à toa, muitos educadores são perseguidos, porque pensam o Brasil, pensam como a gente pode ser melhor como nação…

Pensam como a gente pode ser melhor na nossa identidade, pensam como a gente pode ser melhor nas nossas divisões. E com isso, como a gente pode ser melhor como um todo, né?

Mas a gente não pode fechar os olhos que existe uma grande resistência, porque esse Brasil ainda é lucrativo para uma pequena parcela que se agarrou, muitas vezes, ao poder, né? Se agarrou ao privilégio, se agarrou a estar em alguns espaços e não deseja dividir isso.

Então, é, seria muito ingênuo pensar que não, é só um deixar morrer. É só um deixar acontecer. Acho que tem um propósito aí de não dividir, não ter… é uma questão de territorialidade mesmo, de ocupar esses espaços e gente que não quer sair desses espaços.

Não é à toa que a nossa política, ela não é nada representativa do que é a população brasileira, e a gente pode pensar… a política pensando nas grandes famílias que estão ainda passando de pai para filho, o poder em determinadas regiões…

Mas a gente pode falar também do quanto a nossa política é formada por homens brancos, né? Então, acho que tem uma parcela que não quer sair desse poder, e se sentiu muito ameaçado, eu acho… 

O Brasil vem fazendo, depois de 1988, especialmente, né, epois da Constituição Cidadã, o Brasil vem fazendo todo um um trajeto na tentativa de ter mais inclusão de pessoas, oferecer, ofertar maiores possibilidades para a população mais pobre… 

É, a gente pode falar tudo, com todos os erros, todos os acertos, mas a gente percebe que existe essa tentativa. E isso causa um grande conflito no Brasil que não conseguiu resolver seus problemas de identidade [risos] …

[ LUANA IBELLI ]

[Risos]  

[ LUCIANA BARRETO ]

… não conseguiu resolver seus problemas de história.

Não conseguiu resolver seus problemas, né? A gente precisa sentar e conversar. 

O professor…ai meu Deus, agora… me fugiu o nome. 

[Pausa]

O professor Silvio Almeida

[ LUANA IBELLI ]

Uhum…

[ LUCIANA BARRETO ]

… de vez em quando fala sobre isso, né, essa semana mesmo tava lendo um texto dele, e ele diz que a gente não tem que, talvez, refundar o Brasil, reconstruir o Brasil, não, acho que já nem cabe mais isso.

Tem que construir.

Porque, realmente, a gente tá com problemas bastante graves, assim.

[ LUANA IBELLI ]

E aí, eu fico pensando também, né, no quanto… em quais as consequências, né, dessa falta de pessoas nas redações, falando disso.

Quais as consequências disso nas narrativas jornalísticas, né, que a gente tem.

Por exemplo, você falou também nessa questão…de como é uma questão de poder, né? 

A Danila de Jesus, que é uma mulher preta especialista em formação de pessoas, ela fala isso…

Até aqui, a falta de diversidade te beneficiou

Então, acho que é uma questão, né… que realmente as pessoas não vão permitir muitas vezes, né, que chegue na redação…

Então a gente já tem essa dificuldade, mesmo, de estar nesses lugares. 

[ LUCIANA BARRETO ]

É, porque… não só o que a gente traz com a gente, né, o nosso conteúdo… é uma questão de ocupar espaços que são desejados pelo poder. 

Exemplo, eu sinto muito desde que virei âncora, e isso é quase toda uma vida, mas conforme eu vou conseguindo mais visibilidade, conforme eu… inclusive mostro mais competência no meu trabalho, conforme isso vai avançando, eu sinto também avançando o discurso de ódio.

Né, que é algo inclusive que é motivo de estudo meu, foi o meu tema de mestrado. 

E eu percebo que ter uma mulher negra num espaço de poder ainda é um incômodo muito grande para parte da população brasileira. E esse incômodo, você pode sentar calada em frente a essa pessoa, essa pessoa pode te ver calada. 

O incômodo é você estar ali.

Porque essa pessoa se sente ameaçada de você estar ali. É ocupar esse espaço. 

É como se a sociedade brasileira dissesse, esse espaço é um espaço que não deveria te pertencer, esse espaço tem um dono… 

Tem um tipo… tem um um fenótipo esse dono, né? 

Então, isso aconteceu muito tempo com mulheres, né? Depois, hoje a gente tem uma redação com muitas mulheres, ou redações com muitas mulheres. Temos muitas mulheres ancorando, mas é… mulheres ancorando.

Agora, mulheres negras… isso é como se dissesse assim, já é demais, aí já é demais. 

E isso faz com que a gente tenha o que a gente chama de tokenismo, né? Que é, uma ou outra. Como se fosse como se as empresas escolhessem um ou outro representante para dar a resposta de diversidade que parte da sociedade busca.

A gente sabe desse jogo, a gente… todo mundo sabe desse teatro, né? 

Tá todo mundo no mesmo teatro, mas a gente… [risos] 

Cada um sabe qual é o seu lugar nessa peça, mas você não consegue trabalhar para mudar isso se você não estiver nessa engrenagem. 

Então você faz parte dessa engrenagem, no meu caso, eu faço parte da engrenagem que é uma engrenagem no mundo, não é uma engrenagem específica ou da minha empresa ou do meu país, é uma engrenagem no mundo, e eu faço parte dessa engrenagem me utilizando dela para denunciar isso, que eu acredito que não é correto.

[ LUANA IBELLI ]

É, né? E aí a gente até entre-  

Sempre que a gente fala nessa questão, da inclusão nas redações, tem as posições, né, que as pessoas ocupam. Porque às vezes você pode estar ali, né, como uma repórter, mas o seu editor, que é quem tá acima de você, não tem esse letramento, né?

Então às vezes fica muito difícil a gente propor pautas ou realmente mudar alguma coisa, né?

Você já sentiu isso, assim, essa dificuldade? De… eu até tento, mas existem mais pessoas aqui que não estão permitindo, assim, por exemplo.

[ LUCIANA BARRETO ]

Como eu te disse, eu faço parte da engrenagem tentando mudar, então eu sou uma pessoa chata! 

[Risos]

[ LUANA IBELLI ]

[Risos] 

Às vezes tem que ser, né, infelizmente. 

[ LUCIANA BARRETO ]

É… Não, as pessoas gostam de mim, acho que sim, não sei.

[ LUANA IBELLI ]

Suspeito… suspeito… [risos]. 

[ LUCIANA BARRETO ]

[Risos] 

Que que eu faço? Eu nem me sinto mais cansada de fazer isso, já é o meu padrão. As minhas equipes, ou as pessoas que trabalham no meu entorno, trabalham comigo, já é natural esse letramento. Sai, e eu vou o tempo inteiro, já nem percebo que eu tô fazendo palestra na reunião de pauta [risos]. 

É muito normal pra mim, é muito… quando eu olho, tá todo mundo me olhando, ou então eu já chego e tão me perguntando, vem cá, você viu esse caso, o que você acha, a gente traz assim ou assado? 

É muito natural, a minha equipe, as minhas equipes, todas as equipes com as quais eu já trabalhei, todas elas… acho que começou a fluir, sabe?

Já se interessavam por diversidade, já se interessavam por temas de direitos humanos, se interessavam por temas de gênero, de orientação sexual…

E quando eu via tava muito… tudo fluindo. Então eu não preciso mais dizer o que é notícia, qual o olhar pra notícia, flui muito, mas desse convívio, dessa fala, dessa troca.

E aí você percebe que… cara, tem muita gente boa nas redações. 

Jornalista é muito gente boa, né? 

[ LUANA IBELLI ]

Uhum… 

[ LUCIANA BARRETO ]

E tem muita gente boa nas redações. 

Acho que a gente precisa, e eu falei isso no Twitter uma vez, a gente precisa de cursos, de letramento, mesmo, racial… De cursos de formação, de diversidade mesmo, convivência, pluralidade. 

Porque, se você traz os olhares, por exemplo, periféricos, todos os outros olhares pra esse convívio, é muito rápido, jornalista é muito esperto e muito rápido.

Tudo flui.

Então, assim, eu não tenho muitos problemas com as minhas equipes, são pessoas que trabalham comigo, rapidamente pegam o meu jeito… 

Acho até, me sinto muitas vezes admirada porque, quando eu saio de algum lugar sempre tem festa, tem choro, então… 

[ LUANA IBELLI ]

[Risos] 

[ LUCIANA BARRETO ]

…eu não se tão chorando de tristeza, ou de alegria… 

[ LUANA IBELLI ]

[Risos] 

[ LUCIANA BARRETO ]

[Risos] 

Mentira! Mas, sempre tem festa, tem choro, então eu acredito que tem essa troca, esse conhecimento, e esse letramento constante mesmo. 

[ LUANA IBELLI ]

É muito legal, né, você poder exercer esse papel ali com as suas equipes, mas eu fico pensando também no papel institucional, acho que isso é importante, também, pra inclusão. 

E você comentou isso antes, né, que a gente poderia ter mais cursos, você acha… como você acha que institucionalmente… 

Porque, assim, é muito legal que você, Luciana, consiga ter essa disposição, e essa energia, esse vigor, pra falar pras pessoas, né, e fazer esse letramento. 

Mas, as instituições talvez precisem ter ações mais concretas? Porque nem todo mundo, né, vai estar nesse papel. 

[ LUCIANA BARRETO ]

É, essa parte cansa, né? 

Essa parte cansa não só no jornalismo, na comunicação, mas em todas as empresas. 

A gente sabe que a pauta de inclusão é uma pauta muito atual, moderna, né, todo mundo fala em ESG… Tudo muito perfeito desde que não chegue aos grandes cargos, né, desde que você não ocupe os cargos com maior remuneração, com maior poder… 

Então, essa pauta, ela vai ficando cada vez mais rara conforme você vai subindo na hierarquia da empresa. 

Eu instigo sempre as empresas que eu estou, sempre instigo essa pauta. Muitas das vezes eu vejo com felicidade que vem de cima o estímulo de, não, vamos fazer sim… tem essa formação. 

Agora, nosso grande desafio no Brasil, e aí agora eu falo que é mais no Brasil, porque a pauta de ESG ela já é muito mais avançada em países da Europa, ou nos Estados Unidos, eu pude, por exemplo, ver de perto nos Estados Unidos, viajei pra entender um pouquinho como eles fazem essa inclusão…

Recentemente também fui pra Noruega ver como é essa inclusão lá…

[ LUANA IBELLI ]

Legal. 

[ LUCIANA BARRETO ]

…e eu vejo que eles estão muito à frente, de nós.         

Porque aqui é tudo muito misturado. Vou voltar o que eu falei, dos nossos desafios. 

A nossa pauta ESG, ela vai esbarrar muito, entre outros problemas, mas um problema muito grave do Brasil, que talvez seja o problema mais grave do Brasil…

O racismo estrutural. 

A gente tem um problema extremamente grave. E aí, ele vai permitir, que é o que acontece no Brasil, nas empresas, que a gente distribua, faça a inclusão, né? Mesmo de pessoa com deficiência… a gente faz a inclusão em cargos que a gente acha que pode fazer. 

Mas a gente nunca chega nos cargos de maior poder. Ou chega muito raramente. 

Esse é o nosso desafio, porque quando a gente consegue trazer essa diversidade, ou levar essa diversidade pra hierarquia, subir na hierarquia da empresa, a gente consegue fazer um movimento muito grande. 

E outras pesquisas, muitas pesquisas mostram que essas empresas conseguem aumentar os seus lucros, com essa diversidade.  

[ LUANA IBELLI ]

Parece que só na hora que a gente fala de lucro é que anima, né? Os olhos, aí… 

[ LUCIANA BARRETO ]

Pois é! 

[ LUANA IBELLI ]

… dos espaços de poder.

[ LUCIANA BARRETO ]

E aí, no Brasil, por isso que eu falo que eu acho que a gente tem um problema maior, que no Brasil, nem o lucro anima quando a gente fala em inclusão e diversidade.

Me parece que o brasileiro tem uma dificuldade muito grande de abrir mão do seu privilégio, né.

Como dizia Martin Luther King…

[ LUANA IBELLI ]

[Risos]

[ LUCIANA BARRETO ]

… ninguém abre mão do seu privilégio assim, sem luta. 

Mas aqui no Brasil, me parece que a luta é intensa, porque as pessoas tem muito medo de perder os seus privilégios.  

[ LUANA IBELLI ]

E é fácil manter o seu privilégio nesse contexto, né, porque você pode dizer que não tem um profissional negro pra ocupar aquele cargo de gestor. 

Mas será que não dá pra preparar esse profissional, como que você vê isso? 

[ LUCIANA BARRETO ]

Conversando, eu faço muita palestra, medio muitas mesas e hoje em dia, me parece que a gente tem esses profissionais. 

Me parece que essa foi uma grande desculpa, nos últimos anos, pra dizer que não tem inclusão, eu não tenho esse profissional, eu não tenho esse profissional formado… ai, a gente precisa desse estudante que fale inglês, as pessoas não falam inglês… 

E aí você descobre, mediando mesas, conversando com gente do ramo, gente da formação, gente de RH, que… olha, não é bem assim. 

Por exemplo, qual é a garantia que você tem que as pessoas brancas que você contratou falam inglês? Muitas vezes, sequer fazem uma prova, né? De que elas realmente falam inglês.

Então, você tem ali, os empecilhos e as barreiras são colocadas pra que essas pessoas não ocupem determinado espaço. Mas não necessariamente essa qualificação dessa pessoas é a principal barreira. 

Me parece que não é, a gente tem essa qualificação. 

Muito pelo contrário, a gente sabe, por experiência própria, de quem [é] minoria, pessoas que tem que ultrapassar barreiras, ou abrir mão de muita coisa pra chegar a determinado lugar, precisam mostrar duas ou três vezes mais a sua competência.       

[ LUANA IBELLI ]

Sim…

[ LUCIANA BARRETO ]

Então a gente tem profissionais extremamente competentes, o que a gente tem é uma série de barreiras sendo colocadas pra que essas pessoas não cheguem a determinados locais.

[ LUANA IBELLI ]

O Jairo [Marques], que fez uma entrevista antes de você, né, ele falou um pouco disso também, justamente desse cansaço. 

E eu fico pensando, quantas vezes a gente já ouviu que os nossos passos vêm de longe, mas o nosso cansaço com certeza, né. 

Eu acho que não existe uma pessoa negra… claro, né, não que não exista.

Mas é muito comum na nossa história, como você falou… eu ralei muito, tive que trabalhar enquanto fazia faculdade, a minha história também é assim, e a de tantas outras pessoas… 

E eu fico pensando no quanto isso cansa a gente.

E eu fico pensando também que, ao mesmo tempo que algumas pessoas conseguem ultrapassar esse cansaço, outras não. 

Então acho que a gente perde muita gente também, né, no meio do caminho. 

[ LUCIANA BARRETO ]

Perde! 

E eu gosto muito de falar a frase que eu vou falar agora, toda palestra que eu vou dar, eu falo contra a meritocracia, obviamente, né, porque é um grande erro falar em meritocracia nesse país, especialmente. 

Mas eu falo muito sobre essas histórias heroicas, sabe? A gente tem que batalhar pra falar contra histórias heróicas. 

Vez por outra, as pessoas querem contar a minha história e falam, ah, a Luciana, filha de um motorista de ônibus, veio lá da periferia de Nova Iguaçu, e conseguiu, hoje é âncora da CNN…

Eu falo, eu não quero que conte a minha história heróica, não tem que ser uma história heróica. Porque essa é uma história de muita renúncia.

E é uma história que, no Brasil, é uma história que leva as pessoas a adoecerem. 

Física e mentalmente.

Então, a gente não deve incentivar esse tipo de história, eu conto a minha história e falo… sempre frisando, é importante que o Brasil permita que as pessoas… dê condições pra que as pessoas não tenham que passar pelo que eu passei, é diferente.    

[ LUANA IBELLI ]

Pois é. 

[ LUCIANA BARRETO ]

É diferente. 

Agora, a gente precisa dar condições. Porque você não pode exigir que as pessoas passem o que a gente passou. E chegue a determ-

E tem gente que chega num lugar xis, que parece um lugar de maior privilégio, e adoece ali. 

E tem gente que desiste naquele lugar xis. 

E tem gente que se mata naquele lugar xis, a gente…   

[ LUANA IBELLI ]

Com certeza! 

[ LUCIANA BARRETO ]

… tem que falar sobre isso! 

[ LUANA IBELLI ]

Sim! 

[ LUCIANA BARRETO ]

A gente tem que falar sobre o adoecimento mental.

Então a gente não deve exaltar as histórias heróicas, muito pelo contrário. 

A gente tem que falar contra elas o tempo inteiro.

Não é bonito! Não é bonito que alguém tenha enfrentado toda a sorte de dificuldades pra chegar em determinado xis…

Isso é uma vergonha para esse país, isso é uma vergonha para o Brasil…

[ LUANA IBELLI ]

[Risos] 

[ LUCIANA BARRETO ]

A gente não pode permitir que isso aconteça mais! 

As pessoas tem que ter o mínimo de condições, esse país tem que dar o mínimo de condições pra que essas pessoas cheguem a esse local como outras pessoas chegam.

Outras pessoas privilegiadas, ricas, e que muitas das vezes, herdaram todo o seu privilégio em cima da dor de pessoas como nós.

[ LUANA IBELLI ]

Com certeza, Lu. 

Nossa, é muito forte você falar isso, né, porque quando eu lembro que a minha mãe, pra que eu pudesse ir pra faculdade, ela tinha que andar quatro quilômetros pra trabalhar, pra que eu tivesse transporte pra fazer a minha escola, enfim… pra diversas outras coisas. 

Eu não queria isso. 

Tanto é que quando eu penso em ter o meu filho, e com certeza você pensa isso com a sua filha, você não quer que a sua filha passe por isso, você não quer ser essa mãe. 

A gente quer que outras histórias sejam contadas, né. 

Realmente, é claro que a gente admira, e é muito admirável você trazer a sua trajetória, e a nossa trajetória de sofrimento, de luta, mas é fundamental que as pessoas entendam que a gente não precisaria sofrer tanto pra fazer o mesmo que outras pessoas… 

Porque no fim a gente tá falando de que, de chegar e ser uma jornalista, e poder fazer o seu trabalho com excelência, independentemente de todo esse sofrimento, né…

[ LUCIANA BARRETO ]

É…

[ LUANA IBELLI ]

…de todas essas renúncias. 

[ LUCIANA BARRETO ]

As pessoas querem continuar contando, e exaltando, olha que legal, que linda essa história, porque elas querem continuar contando a mesma história.

Só que cabe a nós, especialmente, que passamos por essas histórias, alertar que a gente não quer continuar contando a mesma história.

A gente… essa história é pra você ficar envergonhado.

Essa história é constrangedora, nossa função é constranger vocês, vocês no Brasil, que a gente não pode mais continuar passando pelas mesmas histórias. 

A gente não quer um ou outro que chegue a determinado local, à custa de renúncia, sofrimento, dor… e tantos outros caiam pelo caminho.

[ LUANA IBELLI ]

Que outras histórias você acha que a gente poderia estar contando sobre a negritude, se não fosse tudo isso que a gente… não pode falar, por causa de todos esses problemas e essas dificuldades? 

[ LUCIANA BARRETO ]

É, eu acho que a gente vai… isso inclui também o branco pobre, que às vezes a gente deixa de falar, mas eu acho que projetos, por exemplo, como o projeto de educação de Sobral, no Ceará, um projeto que vem revolucionando, né, vem dando muito gás aos educadores no Brasil e mostra que, olha, é possível, tá? É possível na educação pública… 

A gente tem um ou outro colégio público no Brasil, né, lá no Rio de Janeiro a gente tem o Pedro II, por exemplo, tradicionalmente um colégio que recebe alunos de todos os lugares e a gente tem vários desses colégios espalhados pelo Brasil, mostrando que é possível.

O poder no Brasil, digamos, então eu tô falando agora de quem está no poder e são muitos dos nossos governantes, parlamentares, eles fingem, olham pro lado e fingem que não é possível.

Na verdade não é interessante. Não é uma pauta que tem importância. 

Mas eu acho que a nossa saída tá por aí, a nossa saída tá no que muita gente tá dedicando a vida, e acho que os educadores são as pessoas que a gente tem o tempo inteiro que colocar nesse lugar de pódio, porque são pessoas que estão batalhando pelo Brasil, nós estamos aqui graças aos educadores…  

[ LUANA IBELLI ]

Sim, com certeza. 

[ LUCIANA BARRETO ]

E é através disso, dessa luta, que a gente chega e que vai fazer a inclusão, e aí eu não tô falando só do negro, eu tô falando inclusive do branco pobre. 

Eu tô falando de gente que não tá conseguindo quebrar essa barreira. 

[ LUANA IBELLI ]

Uhum. 

E uma vez que a gente quebra essa barreira, né, agora voltando um pouco pra falar sobre essa coisa da redação, que eu acho que você tem muita coisa pra compartilhar nesse sentido…

Você tem algum exemplo mais recente de você sentir que a sua presença fez toda a diferença pra mudar o rumo da conversa? 

[ LUCIANA BARRETO ]

Ah, acho que todo dia eu tenho esse exemplo, né. 

Eu converso com parlamentares o tempo inteiro… eu consigo ter uma autonomia, a minha empresa me dá uma autonomia pra eu falar o que eu acho que tem que falar com os parlamentares.

E o tempo inteiro eu sinto o viés que talvez não tenha sido abordado em vários outros jornais, entendeu? Então, eu tô sempre trazendo questões que talvez eles nem tenham pensado, entendeu? 

Então, eu não tô falando só dos parlamentares, eu tô falando dos especialistas, do economista que tá falando sobre neoliberalismo e eu puxo o tema da fome… e tá, mas onde se encaixa a ajuda… Eu tô falando com o educador e tô falando das escolas periféricas.

É isso que eu acho que tá o tempo inteiro presente. 

O meu jornalismo carrega comigo tudo o que eu sou, então eu trago essa mulher que tem a experiência, que viveu, que sabe o que é a fome, sabe o que é a violência…

Eu não tô falando sobre algo que eu nunca vi. Eu conheço e conheço de muito perto. 

Sabe o que que é encontrar corpos pelas ruas, porque passei também por isso, né, pelo extermínio, conheço o extermínio… conheço a postura da polícia…

Conheço muito das dificuldades dos estudantes, por exemplo, pra permanecerem na escola. Conheço o que é uma família destroçada pela violência por conta de, muitas vezes, pais e mães que nunca estiveram dentro de casa… 

Tudo o que você só vê na periferia, pais e mães que saem pra trabalhar na madrugada e voltam quase de madrugada. 

Eu sei o que é ver crianças o tempo inteiro sozinhas dentro de casa, entendeu? Se criando. São crianças que se criam… então… porque o estado também não dá creche, a escola não dá possibilidades, então… 

Só quem sabe o que é uma… uma menina por exemplo, quando fala sobre a menina não ter um absorvente higiênico, que é uma pauta que foi muito recente agora, e que parte do Brasil conheceu essa pauta agora, eu falei…

Oi? Isso é o Brasil! [Risos] 

Vocês não conhecem o Brasil!   

Então, assim, eu trago muito isso comigo, sabe? Eu sei a glamourização da pobreza, né, achar que a pobreza é não ter carne. 

Oi? 

A pobreza é não ter comida mesmo. Não estamos falando de carne, estamos falando de restos, de comer o que der… planta, né… inseto. É o que traz. 

Então muitas dessas… dessa Luciana, dessa pessoas que vivenciou, que conhece, que sofreu e chorou junto, vem comigo no jornalismo. 

Então, acho que isso é diário.   

[ LUANA IBELLI ]

E tem muita gente com você, né, quando você tem a oportunidade de fazer alguns comentários, eu tava falando um pouquinho antes da gente começar a entrevista, que cê tá lá no Twitter, e surge um comentário seu diante de algo tão óbvio que precisa ser dito e muitas vezes não é dito, né, diante de pessoas que tão ali, e você fala, nossa, porque essa pessoas tá aqui? E falando isso.

E você vai lá e faz um comentário, e traz essa realidade. Eu acho que isso tem um valor tão grande, Lu, pra tanta gente… pra mim, pra quem tá lá vendo então, é visível mesmo isso que você falou, nos seus comentários e o que a gente quer é ver cada vez mais gente, né.  

E tem muitas mulheres hoje, né, muitas mulheres negras comentaristas que fazem esse papel, é muito legal de ver isso.     

[ LUCIANA BARRETO ]

É, eu acho que o olhar, né, o olhar que o jorn-

O que o jornalista tem mesmo de mais importante é o olhar que ele tem sobre os fatos, né, e as várias possibilidades de abordagem que ele traz nos fatos. 

Eu recentemente saí de um jornal que eu dividia com dois outros profissionais, Elisa Veeck e Rafael Colombo, e no dia da despedida eles começaram a falar, o Rafael Colombo começou a fazer uma homenagem e foi muito espontâneo, porque não tinha nada programado. 

E eu fui me emocionando, mas quando ele foi falando sobre isso, né, sobre o quanto eu agregava com o olhar, com as perguntas, e ele brincou e falou assim… ele nem sabe, vou falar isso agora, ele vai descobrir. Ele falou assim.

E as perguntas? Ela faz as perguntas, Luciana faz as perguntas, eu falei, gente, porque que eu não pensei nisso? 

E aí eu comecei a chorar.

Porque na verdade, ele tava fazendo pra mim o melhor elogio que ele podia fazer. Porque eu me sinto… o que eu sinto que eu posso agregar é esse olhar. 

É esse olhar diverso que vai tirar a pessoa, o entrevistado muitas vezes do conforto dele, né. 

Muitas vezes, nós jornalistas, o que nós temos que fazer é causar esse constrangimento do bem. É um constrangimento pra fazer a pessoa pensar sobre essa possibilidade, esse aspecto que ele talvez nunca tenha pensado.   

[ LUANA IBELLI ]

Perfeito, Lu.

[ LUANA IBELLI / INDICAÇÃO PAUTA PÚBLICA E VIDA DE JORNALISTA ]

Agora e vou fazer uma pausa, pra indicar um conteúdo que acho que tem tudo a ver com esse tema que a Luciana tava falando, né. Conversa. 

Se você se interessa pelas conversas que os jornalistas trazem, pelos bastidores da notícia, tem dois podcasts que se você ainda não ouve, você que é nosso público do Portal dos Jornalistas, se você ainda não ouve, com certeza vai agregar muito na sua vida, se você ouvir. 

O primeiro é o Pauta Pública, um podcast quinzenal da Agência Pública apresentado pela Andrea Dip e a Clarissa Levy, que traz jornalistas e convidados de diversas áreas pra falar de reportagens que ajudam a explicar o Brasil. 

O segundo podcast é o Vida de Jornalista, do Rodrigo Alves, que sempre vai aparecer aqui nas nossas conversas, já que vários convidados que passaram e passarão aqui, já foram entrevistados lá, inclusive a Luciana Barreto, né, que foi lá no comecinho do Vida, em 2018.

Pois é, e o Vida de Jornalista tá voltando com uma série de episódios sobre eleições, muito úteis pra jornalistas que querem aprender técnicas de checagem, e até pra quem quer combater desinformação na família.

Pra ouvir tudo isso, é só procurar Vida de Jornalista e o Pauta Pública no seu tocador favorito. 

[ LUANA IBELLI ]

Lu, agora, já que a gente falou do Vida de Jornalista, né, quando você deu entrevista pro Rodrigo, tem quatro anos já, você falou da época em que você ainda tava na TV Brasil, né, na TV pública. Queria falar um pouquinho disso. 

Que que mudou, né, assim, nesse tema de negritude, de lá pra cá, e se você sente que tem diferença de abordar esse tema numa emissora pública e numa emissora privada, como você tá agora. 

[ LUCIANA BARRETO ]

Ah… tem diferença. Tem diferença e o jornalismo público é um jornalismo que eu sou apaixonada, é um jornalismo que tem… deveria, né, pelo menos na origem dele, ele tem uma missão de trabalhar para o povo, de servir ao povo. 

Quem é o povo? 

Jornalismo privado também deveria, mas quem é esse povo que a gente serve, né?

Numa empresa privada, a gente tem ali o público alvo, né? Ou tem o assinante, aí tem o perfil do assinante. E às vezes isso delimita muito o trabalho, o perfil do assinante é um assinante que gosta mais… ele tem pós graduação, tem universidade, tem pós graduação, gosta mais da área de economia… 

E às vezes há uma confusão de que essa pessoa não quer ouvir sobre… a vida na periferia, ou não quer ouvir sobre… 

É uma grande confusão. 

Que eu acredito, né, eu acho que a gente subestima muito a inteligência também dessa pessoa, mas enfim, eu não trabalho em instituto de pesquisa, não sou eu que vou falar sobre isso. 

Vou falar sobre o jornalismo público, que trata de, ao meu ver, e ao que eu fiz durante muitos anos lá na TV pública, as pautas que são negligenciadas. 

Então, algo que você jamais veria, muitas vezes, nos grandes meios de comunicação. 

E às vezes, eu vou te dizer… durante anos eu tive a impressão de que eu pautei alguns meios de comunicação.

Fui premiada, né, no jornalismo público, algumas vezes, por conta de trazer esse olhar, que eu falo, toda essa Luciana junto, para a notícia, e às vezes uma notícia que ninguém entendia porque era notícia.

Que tudo começa aí, né? 

O que é notícia?  

Fatos são fatos, o que que esse fato passa a ser notícia, é o meu olhar que traz isso.

Então, pra citar um exemplo, a gente tinha recentemente… o movimento negro denunciava que as peças de Umbanda que tinham sido presas pela polícia, você sabe que a gente tem o Código Penal de 1898, que é o Código Penal que trata como … não, desculpa… 1890, 1890. 

O Código Penal de 1890, que trata o crime de… trata curandeirismo como crime…     

[ LUANA IBELLI ]

Nossa…

[ LUCIANA BARRETO ]

…então começa a criminalização das religiões de matriz africana. 

Especialmente, até 1930, a gente tem a apreensão de várias peças das religiões de matriz africana e ficam na polícia.

Existia uma luta de parte do movimento negro, de lideranças de religiões de matriz africana, que essas peças fossem devolvidas, são peças sagradas. 

A polícia… me parece que a Polícia Civil tomou gosto por essas peças, o que eu entendi cobrindo essa história é que eles tinham um museu e a parte do museu deles era praticamente essas peças…  

[ LUANA IBELLI ]

Nossa.

[ LUCIANA BARRETO ]

…tirasse essas peças, não tinha mais museu… [risos].  

[ LUANA IBELLI ]

[Risos]

[ LUCIANA BARRETO ]

…foi o que eu entendi. 

E aí a luta era grande, e depois de muitas décadas de luta, eles conseguiram, foi algo que pra mim foi emocionante, fazer essa entrega, né, primeiro quando eles ganharam a causa, de trazer, de poder levar todas essas peças sagradas de um século pra um local que eles consideravam que deveria estar… e depois também essa transição, isso é uma notícia. 

Então, eles me procuravam. As pessoas já me procuram, né. Com certeza, ali eles vão encontrar o abrigo pra pauta que eles acham importante, porque eles vão dizer.

Ela vai entender que isso é uma notícia. Os outros não vão entender. 

Era como se eles dissessem isso, sabe? Era isso que eu sentia o tempo inteiro. 

Então, essa, por exemplo, é uma notícia que eu cobri, que depois vários veículos grandes de comunicação também foram cobrindo e entendendo que aquilo era uma notícia importante pra história do Brasil.

Então, talvez, se a gente não tivesse a comunicação pública, não tivesse essa possibilidade da comunicação pública tratar do que eu chamo de pautas negligenciadas, são pautas que dizem respeito a parte da parcela da população que muitas vezes não tem o dinheiro pra ser o assinante… ou parte da parcela da população que muitas vezes não tem dinheiro pra viver, ou parte da parcela da população que muitas vezes não tem dinheiro nem pra ser chamada de cidadã. 

Então, é essa parcela da população que o jornalismo público tem que servir.   

[ LUANA IBELLI ]

Muito legal, Lu. 

Agora, quero entrar em outra questão, que tem tudo a ver com a tua história e é uma coisa que eu queria muito abordar, que é esse impacto da presença da mulher negra na TV, né. 

Que que significa pra mulheres negras, pra autoestima da mulher negra, ter uma presença num veículo que ainda é tão imagético, e excludente também, infelizmente.

[ LUCIANA BARRETO ]

É… significa que, de cara, é a possibilidade do sonhar, né, do acreditar. 

É tornar possível. 

Então, quando eu digo que eu olhava a Glória Maria na TV, né, a Dulcinéia Novaes, são duas mulheres negras que estavam na mesma época, elas já diziam, é possível. 

É possível, é tornar possível. 

E acredito que a gente ainda é a continuidade disso, né, a gente é a continuidade avançando. 

Porque, se você perceber, elas não só tornaram possível que a gente estivesse, e a gente torna possível que a gente esteja de cabelo crespo, né, de black… 

[ LUANA IBELLI ]

[Risos]

[ LUCIANA BARRETO ]

E a gente torna possível que a gente fale sobre nós, que a gente traga todo o nosso eu, muitas vezes a nossa ancestralidade também pra o texto. 

E isso, isso é um caminho que eu acho que não volta mais, é um caminho que se abriu, que era o privilégio de poucos, poucas pessoas podiam trazer esse eu…

Eu fui à Europa, eu falo alemão, eu…

[ LUANA IBELLI ]

[Risos]

[ LUCIANA BARRETO ]

Só que era essa… eurocentricidade que vinha, né. 

E a gente traz o que? Uma africanidade junto de nós. 

E a gente positiva essa africanidade, positiva no sentido de… o tempo inteiro, os meios de comunicação tentaram desqualificar essa africanidade, né. 

Quando a gente traz notícias, por exemplo, de África, que a gente traz notícias o tempo inteiro, notícias negativas, de fome, de miséria, e a gente vai tentando o tempo inteiro desqualificar essa pessoa, dizer para a criança negra que não é legal isso. 

Como a gente desqualifica as periferias, como a gente desqualifica a cultura das periferias… 

E o tempo inteiro a gente superestima as culturas, a cultura do… Hemisfério Norte. O tempo inteiro a gente traz essa coisa da positividade. 

Acho que a gente vai positivando o que antes era sendo, vinha sendo historicamente negativado. 

Acho isso extremamente importante, acho fundamental, queria até contar uma história. 

Eu tava na TV pública… lembrei de África e lembrei dessa história. 

Tava na TV pública e fiz um especial sobre Angola. E aí, pra isso, eu fui ao consulado de Angola, mas antes eu já tinha feito especial, coloquei no ar, fiquei super feliz… nossa, consegui fazer uma matéria, porque eu fazia muitas matérias muito diversas, né. 

E aí quando eu fui ao consulado, o pessoal, ah, a gente viu aquela matéria, muito legal, legal… mas, da próxima vez, você não quer atualizar lá o arquivo de vocês? 

Aí eu falei, por que? Aí ele, a gente não tem fusca em Angola desde 1970.

[Risos]

[ LUANA IBELLI ]

[Risos]

[ LUCIANA BARRETO ]

Então, pra você ver o que é o Brasil! O Brasil é isso, a Angola que eu… eu tava super feliz de tá mostrando Angola, e a Angola que eu tava mostrando já não tinha mais absolutamente nada com a realidade, né. 

Então, eu ainda estava muito aquém do que deveria ser, entendeu? 

A gente tá muito longe, mas muito longe inclusive de fazer o nosso cérebro funcionar, do nosso cérebro trabalhar, da gente conseguir crescer como nação, como identidade, a gente tá muito longe disso. 

[ LUANA IBELLI ]

Sim, né, assim, por mais que a gente tenha evoluído, eu sei que, pelo menos na minha época…

Eu fiz a disciplina de jornalismo televisivo em 2008, e naquela época eu já ouvi da minha professora que os meus cabelos não eram adequados pra tá ali, né, então todos os outros alunos receberam feedbacks assim, dos seus trabalhos de outras questões, e eu recebi da minha aparência. 

E eu lembro do quanto você falou, na sua entrevista, uma vez, em uma entrevista que você nem se imaginava tá ali, que você demorou pra ir pra TV, e hoje olha a jornalista que você é, né. Você fala, nossa, essa pessoa parece que nasceu pra isso, né. 

E eu acho que a gente ainda tá avançando, mas como você falou, né, ainda falta tanto. 

Eu sei que hoje é mais difícil as pessoas ouvirem isso na faculdade, mas eu acho que é mais fácil sonhar, você sabe que talvez você possa chegar nesse lugar, esse lugar existe pra pessoas como você.

Eu pelo menos sinto isso, né, quando eu vejo cada vez mais mulheres negras na televisão. 

[ LUCIANA BARRETO ]

Sim, você vê como as barreiras vão sendo impostas o tempo inteiro, né, as barreiras vão sendo levantadas, né.   

O fato de alguém, um professor, numa universidade, num curso superior, dizer pra você que você não é adequado, ou pelo menos o que você é, o seu cabelo ou o seu tom de pele, não é adequado a estar em determinado espaço, é uma estratégia que eu te falo que é uma estratégia desse racismo estrutural, mas que vai o tempo inteiro levantando barreiras para pessoas chegarem a determinados locais, especialmente os locais de poder, como você percebe, né? 

Então eu delimito que no local de poder, alguém tem que ter um perfil xis. Esse perfil xis não condiz com tudo o que você é. 

Você não vai entrar nesse lugar. Porque esse perfil xis não condiz com o que você é.  

Então, eu recebi também, já, de estudante, me lembro de uma estudante de uma faculdade, inclusive, não me lembro…de um estado, era o Nordeste. 

E ela me descreveu dizendo que a professora dela, tava indignada. Falou que jamais uma âncora poderia ter um cabelo black power.

Que ela me escreveu na hora me dizendo, como assim, ela não conhece você, não conhece o seu trabalho? 

Porque, é porque a gente aprende na faculdade de jornalismo que um âncora é discreto, tem uma aparência discreta, e aí, esse professor acredita que a sua aparência não é nem um pouco discreta, o que eles querem chamar de exótico…      

[ LUANA IBELLI ]

Exótico! 

[ LUCIANA BARRETO 

… ou qualquer coisa parecida com isso.

[ LUANA IBELLI ]

Lu, eu ouvi tanto isso!

Quando começaram… é claro, né, eu comecei de algum lugar, alguém foi lá e olha, você não quer vir, participar, ser apresentadora, repórter… 

Começaram a me preparar pra isso. Mas eu ouvia sempre nesse lugar. 

Você é exótica. É legal ter uma pessoa assim. 

Mas eu ficava pensando… mas, a maioria das pessoas no Brasil se parecem comigo e com pessoas como eu, pessoas pardas e pretas.

E isso já me deixava num lugar de desconforto, eu me sentia sozinha. 

Quando eu ia pra rua também, eu não via outras repórteres, acho que eu fiquei quatro anos indo pra rua diariamente e eu não via outras repórteres negras.

E muito menos com pele mais escura do que a minha. 

Mulheres retintas, então? Imagina, era muito pouco.

E eu acho que isso deixa a gente se sentindo sozinha, né. Eu queria te perguntar agora, pensei… você, depois de todos esses anos, você se sente mais pertencente? 

Ou ainda você lida com isso, de olhar pros lados e falar,  às vezes eu queria mais gente como eu. 

[ LUCIANA BARRETO ]

Com certeza eu quero ter mais gente como eu, porque esse é a minha luta, né, a nossa luta não tem que ser… 

A gente só vai conseguir algum avanço se for de forma coletiva. Individualmente a gente não vai conseguir nada, ponto final. 

Agora, que os recados são dados o tempo inteiro, eles são dados.

Vamos pensar na maquiagem, as maquiagens das televisões.

Você chega nas maquiagens das televisões, tem quinze bases, pra passar no rosto. Quinze bases brancas.

[Risos]

[ LUANA IBELLI ]

Exatamente.

[ LUCIANA BARRETO ]

Porque eles não acreditam ou não imaginam que possa vir um convidado negro. Porque eles se acostumaram que os brancos falam o tempo inteiro, os convidados são brancos, os entrevistados são brancos, os âncoras são brancos.

Então, aquilo ali já é uma delimitação do que… o espaço que eles construiram. Esse espaço que eles construiram. 

Então, você chega lá, eu gosto de fazer essa brincadeira, né, eu gosto de chegar na maquiagem e falar. 

Ih, a minha entrevistada é negra. E se vier uma entrevistada negra? 

Aí eu olho assim, porque eu gosto de causar essa reação nas pessoas. As pessoas sequer se dão conta. 

Você às vezes consegue ver um mês de televisão, um mês com convidados brancos, todos os entrevistados são brancos.

[ LUANA IBELLI ]

E ninguém acha estranho. 

[ LUCIANA BARRETO ]

Ninguém acha estranho. Ninguém acha estranho nem se esse convidado branco for falar sobre questão racial… 

[ LUANA IBELLI ]

Lu…

[ LUCIANA BARRETO ]

…as pessoas não achavam estranho isso, hoje acham. 

[ LUANA IBELLI ]

Hoje acham. 

Olha, o primeiro programa sobre racismo que eu fiz na minha vida foi em 2013, eu acho, e uma das coisas que me chocavam era isso, né, eu comecei produzindo ali, o Caminhos da Reportagem, né, que também a gente conseguiu alguns prêmios abordando essa pauta, e as pessoas vinham me indicar entrevistados brancos, e eu ficava…

…Mas gente, como que a gente vai fazer um programa sobre racismo sem nenhum convidado negro? 

As pessoas realmente não pensavam nisso, e era até tenso né, propor essas coisas, porque as pessoas falavam, não, mas a gente tem que ter o outro lado! Que seria uma pessoa branca falando sobre isso.

Então, assim…

[ LUCIANA BARRETO ]

[Risos] 

E tem lado isso? [risos]

[ LUANA IBELLI ]

Caramba! É, exatamente! 

E aí, outra história que eu lembrei, que você falou da maquiagem, isso acontecia muito, inclusive de ter uma vez que a gente recebeu dois convidados, um convidado branco, né, e chegou um convidado negro de pele retinta, e a produtora veio falar…

…Lu, você não sabe o que aconteceu, a gente não tem base. 

E aí um convidado sentou pra receber aquele cuidado, porque é um cuidado, né, quando o convidado chega, ele vai no camarim, ele é um pouquinho paparicado, toma uma aguinha, passa ali a sua base, e ele vai dar a entrevista. 

E na hora do convidado negro, não tinha. Então, ele não ia ter esse momento de sentar, e de receber esse cuidado… e aí, a produtora, ela simulou alguma coisa ali, pra não ficar uma situação chata, pra tirar um brilho da pele… 

[ LUCIANA BARRETO ]

Quando não botam um pó mais claro e a pessoa vai cinza pro ar, né… 

[ LUANA IBELLI ]

Nossa! Pra mim sempre aconteceu… 

[ LUCIANA BARRETO ]

… fica acinzentado. 

[ LUANA IBELLI ]

… era umas bases muito… 

E imagina, eu não sou retinta. E mesmo assim, as bases não eram da cor da minha pele. E eu me sentia muito mal no ar, porque eu falava, eu não tô me sentindo bonita, assim, né. 

Tem uma coisa ali, cê tá muito exposto diante das câmeras, né, e aí você não poder tá ali com um tom de base que é da sua pele, que é uma coisa muito pequena, assim, é uma coisa sutil, que pra gente é óbvia, mas que pra maioria não é. 

E isso ainda acontece? Eu fico tão chateada de saber… 

[ LUCIANA BARRETO ]

É, os recados, eles estão sendo dados o tempo inteiro, né, as mensagens às vezes aparecem nas entrelinhas, às vezes elas são assim, descaradas o tempo inteiro pra dizer que esse espaço aqui não foi um espaço que foi construído para te receber. 

Ponto final.

É assim que as pessoas constroem os seus… é isso que a gente fala da estrutura, né, que tá construída, o tempo inteiro essa estrutura tá construída pra receber determinado grupo, determinada pessoa, entendeu. 

Não tem um difusor, por exemplo, pra secar um cabelo crespo. Tá todo mundo acostumado a fazer escova no cabelo… 

[ LUANA IBELLI ]

Exatamente…

[ LUCIANA BARRETO ]

… então não tem um difusor pra secar um cabelo crespo, não tem alguém que saiba ajeitar um cabelo crespo, entendeu? 

Quando não, querem fazer uma maquiagem que tenha algo muito parecido com o que eles viram nas revistas, ou nos editoriais de moda, que absolutamente não tem condições de você entrar no ar com uma maquiagem daquela, porque às vezes o maquiador também não sabia fazer a sua maquiagem. 

Então, é uma série de restrições, de barreiras que são levantadas o tempo inteiro, que a gente sabe que, é o que eu te digo, as mensagens, os recados, tão sendo dados. Isso daí, a gente não tem a menor dúvida. 

[ LUANA IBELLI ]

É, mas aí, fortalecendo em grupo, acho que a gente tá conseguindo quebrar algumas dessas barreiras. Mesmo que você tenha que, por exemplo… 

Você carrega a sua malinha, né, com todo o seu material, que é já pra não passar por esse tipo de coisa, e você bate lá com a sua malinha, olha, eu tô aqui, não tem a minha base, mas eu tô aqui, e vou fazer o meu comentário, e vou ocupar esse espaço… 

Acho que é por aí, né, Lu?  

[ LUCIANA BARRETO ]

É, e já vai também… 

Acho que, a Elisa Lucinda fala muito isso, eu gosto de falar mas sempre trazendo a Elisa, porque ela faz isso muito bem, né. 

Ela falou uma vez, a nossa obrigação é constranger os brancos. 

[ LUANA IBELLI ]

[Risos] 

[ LUCIANA BARRETO ]

Parece que a gente tá fazendo uma coisa de brigar um com o outro, não!

É mostrar pra eles, olha só como… como isso tá sendo construído, olha isso, né. 

Constranger também é falar. Mas cadê aquela maquiagem? O meu convidado é preto, sabe? O meu convidado vai chegar a qualquer momento, meu convidado é retinto… 

[ LUANA IBELLI ]

E você vai fazer como? 

[ LUCIANA BARRETO ]

E aí você vai fazer como, entendeu? Porque sequer passou pela sua cabeça. 

Mas eu queria falar uma coisa que também me chama a atenção, do quanto a gente avançou nessa luta, né, de equidade para… no Brasil, quando a gente fala de questões raciais, relações negros e brancos, e quanto a gente não avançou quando a gente fala em indígenas, por exemplo. 

[ LUANA IBELLI ]

Pois é. 

[ LUCIANA BARRETO ]

A gente consegue fazer toda uma discussão sobre as questões indígenas, sobre a Amazônia, sem nunca ouvir um indígena.   

[ LUANA IBELLI ]

Pois é, a gente vai trazer uma jornalista pra falar, né, que é a Luciene [Kaxinawá]…

[ LUCIANA BARRETO ]

É uma coisa enlouquecedora…

[ LUANA IBELLI ]

É… fundamental.

[ LUCIANA BARRETO ]

Hoje a gente fica, assim, muito constrangido quando a gente vê uma roda com cinco homens… homens falando, e aparece uma pauta sobre a questão de gênero. 

Aquele constrangimento, né, porque você tem cinco homens ali, que já é uma… [risos] é autoexplicativo, não precisa nem comentar. E eles vão falar sobre questões de gênero, questões que envolvem mulher, ou uma pauta como a gente viu agora, de um anestesista estuprador. 

E aí, aquele constrangimento porque você só tem homens no local, no recinto, e aí você percebe, sente. 

A gente tem um total constrangimento quando cê tem um local só de jornalistas brancos pra falar, aí aparece uma pauta sobre questões raciais, como apareceu no George Floyd, pegou todo mundo…a televisão descobriu naquele dia, ih, não temos negros.

[ LUANA IBELLI ]

[Risos]

[ LUCIANA BARRETO ]

Naquele dia descobriu todo mundo, né, que não tinha negro, aí causa aquele constrangimento. 

Mas as pessoas não ficam constrangidas de ficar falando sobre questões indígenas… 

[ LUANA IBELLI ]

Sem indígenas.

[ LUCIANA BARRETO ]

… sem nunca chamar pelo menos um convidado indígena. 

As pessoas não se constrangem. 

[ LUANA IBELLI ]

E eles têm falado né, quando a gente tá… pelo menos nas redes sociais, quem tá ativo, eles apontam isso o tempo inteiro e já passou da hora de abrir esses espaços, né, Luciana? 

[ LUCIANA BARRETO ]

É, porque acho que o primeiro momento, vou voltar com Elisa Lucinda, o primeiro passo é o constrangimento. Porque se você nem se constrange disso, nada … você não vai modificar isso, né? 

Eu agora, recentemente, participei de um livro, e eu abro o meu texto desse livro, é um livro com jornalistas, né. E eu abro meu texto desse livro contando uma história que eu ouvi de uma apresentadora negra. E ela me disse, agora ela não tá mais atuando, mas ela me disse que… ela nem mora mais no Brasil. 

Mas me disse que ela foi buscar emprego numa grande emissora, aquela época que a gente tá, o que eu vou fazer da vida, continuo ou paro de vez? 

E ela tava nessa fase, continuo ou paro de vez? E ela… eu vou tentar, nessa grande emissora. 

Então foi com o material dela, debaixo do braço, e chegou nessa emissora e falou, ah, vim trazer meu material, não sei o que, pra vocês darem uma olhada. 

E a pessoa falou, não, não, não, a gente já tem a nossa apresentadora negra. 

[ LUANA IBELLI ]

[Suspira]

[ LUCIANA BARRETO ]

E isso é muito recente, né? É muito recente que uma pessoa não tenha ficado constrangida, você imagina… 

[ LUANA IBELLI ]

… de falar isso.

[ LUCIANA BARRETO ]

…essa pessoa não ficou constrangida de dizer isso. 

Então, eu acho que o primeiro passo, e aí eu acho que a Elisa é muito sábia quando fala isso, nossa função é constranger. Então o primeiro passo é causar esse constrangimento, quando cê causa esse constrangimento, você sacode a pessoa e fala. 

Acorda! 

Acorda! 

[Risos]

[ LUANA IBELLI ]

Cê não tá vendo a realidade óbvia, né, [risos] na sua frente. 

[ LUCIANA BARRETO ] 

É tão óbvio isso, acorda, por favor!

[ LUANA IBELLI ]

Eu acho que já tem mais gente acordando, né, Luciana, graças também ao trabalho de pessoas como você, então acho que a gente… eu tenho um certo otimismo assim, eu acho que a gente pode influenciar positivamente, com essa mensagem. 

Acho que a gente tem que finalizar, infelizmente, mas antes da gente finalizar, porque são muitos assuntos, queria que você falasse dos seus sonhos pessoais, profissionais, né. 

Porque quando a gente fala de inclusão, de estar nos lugares a gente tá falando disso também, né, de coisas que a gente quer realizar. 

Então, o que você ainda pensa em realizar na sua vida? 

[ LUCIANA BARRETO ] 

Tem uma coisa que eu estava conversando agora, há pouco tempo, com a Ana Paula Xongani, e ela me falou algo muito interessante, e é algo que fica batendo na minha cabeça igual um martelinho, sabe? Na minha cabeça, porque? 

Porque a gente tá o tempo inteiro contando sobre, denunciando as nossas desigualdades, a gente tá o tempo inteiro na televisão tentando falar que algumas operações policiais mataram tantos inocentes… 

A gente tá vendo os corpos de pessoas que parecem com a gente, ou seja, poderia ser seu filho, seu pai, e a empatia é uma empatia direta, coisa que não acontece, às vezes, com outros jornalistas… eles não vão conseguir alcançar essa empatia de… ver seu pai, seu irmão, seu filho ali, e é uma empatia direta, ver aqueles corpos às vezes, jogados pelo chão, sangrando como porcos, como baratas muitas vezes. 

Então a gente conta muita história da dor, né, a gente denuncia muito essa história da dor, né? E essa dor, só quem tá lá na hora, consegue entender o alcance dessa dor, né. 

Como é difícil pra gente, como âncora… quando a gente fala de nós, muitas vezes a gente tá denunciando a história da dor, né? Muitas vezes a notícia, quando a gente é notícia, é a notícia da dor. 

Então eu tô cansada de tá falando que morreram mais negros na pandemia, que as mulheres negras são as que ganham o menor salário no mercado de trabalho, que elas ainda estão ocupando as cozinhas dos espaços, que a gente aumentou a fome mas que essa fome tem cara e tem cor…. que essa fome tem gênero… 

Eu tô cansada de dizer isso o tempo inteiro. 

E eu não quero parar de dizer, simplesmente vou fechar o olho, isso não existe.

Então, a Ana Paula me despertou algo quando ela falou assim, a gente tem que começar, também, a contar, a mostrar pras pessoas que a gente é feliz.  

[ LUANA IBELLI ]

[Risos] 

[ LUCIANA BARRETO ] 

O tempo inteiro. 

Né, então, assim. Eu ouvi ela falando da Giovanna Ewbank, como ela mostra ali, o tempo inteiro, nas redes dela, uma família feliz, filhos, uma pessoa gente boa, tudo do bem, sol, praia, tudo é lindo… 

E acho que o nosso objetivo é chegar a esse momento. Nosso objetivo é chegar a esse momento, que acontece já pra muitos, pra muitas pessoas negras nos Estados Unidos, por exemplo, né, que conseguiram alcançar um determinado patamar, que se distanciam só da história da dor…

Pude, já, também, inclusive em locais pobres dos Estados Unidos, como o Alabama, um estado que tem muitos negros, mas é interessante você fazer, sei lá, um passeio de barco e ver toda aquela negritude, vários tipos de óculos, vários tipos de cabelo, gente feliz, gente… 

E aí fiquei pensando, né, que a gente ainda tem um certo constrangimento de contar a nossa história da felicidade. Porque é um ambiente de muita dor. E a gente ainda não consegue avançar pra história da felicidade. 

Então, quando a Ana Paula falou isso, eu pensei, é isso, isso bate na minha cabeça como um martelinho. Que a gente em algum momento tem que chegar a contar a história da felicidade também.

Isso não significa que uma coisa exclui outra, você não vai fechar os olhos pra história da dor. Porque infelizmente ela tá aí, ela nos cerca o tempo inteiro.

Mas a gente precisa positivar e mostrar que existe uma possibilidade de uma história da felicidade. Que ela pertence a nós. Que a gente também pode ter uma família feliz, sem ausências, que a gente pode vibrar, os nossos filhos, planos, futuro…

[ LUANA IBELLI ]

Dar um futuro, né, pras nossas ancestrais… 

[ LUCIANA BARRETO ] 

Futuro belo… Futuro. Exato. 

[ LUANA IBELLI ]

Uma velhice confortável pra sua mãe preta… 

[ LUCIANA BARRETO ] 

A gente tem que aceitar que isso também é pra nós. 

A gente tem que aceitar e a gente tem que trabalhar pra isso. Porque quando a gente tá o tempo inteiro imerso na dor, fica muito difícil.

Eu confesso a minha dificuldade, por isso que isso fica batendo na minha cabeça. 

[ LUANA IBELLI ]

Mas Luciana, você é… agora é aquele momento que provavelmente… dar uma respirada. 

Você é essa pessoa que mostra, né, que é uma história que apesar de trazer dor, você é uma história de felicidade pra muitas pessoas que se veem em você, né. 

E assim como eu não tive esse referência, acho que hoje é muito mais fácil pra meninas, como por exemplo, a Anna [França], que é a nossa estagiária, que é uma menina negra, ela com certeza vê muito mais possibilidades do que eu vi, e do que você viu. 

E a gente espera que essas histórias realmente possam acontecer pras nossas. 

Então, queria muito agradecer a sua presença, tudo isso que você falou, finalmente poder tá com você aqui.

Espero que cada vez mais mulheres negras estejam ocupando todos os espaços no jornalismo…

E queria que você, antes da gente encerrar, né, fala um pouquinho onde as pessoas podem te encontrar, em rede social, se você tem algum projeto que você quer destacar. 

[ LUCIANA BARRETO ] 

Bom, o meu projeto de mestrado vai virar um livro em breve, eu tenho fé. 

E eu falo sobre discurso de ódio nas redes sociais, mas a minha ideia foi construir uma espécie de mecanismo pra que mulheres que tenham que lidar… ou homens, pessoas negras que tenham que lidar com esse discurso de ódio o tempo inteiro quando chegam em posição de poder, entendam o que deseja aquele odiador naquele momento. 

Ele deseja te parar. Né? 

E é isso que a gente não vai fazer. Porque a gente não vai cumprir desejos de odiadores, né, a gente não vai fazer isso.      

Então, em breve eu vou analisar esses mecanismos, as palavras que eles utilizam… 

E pra entrar em contato comigo, o tempo inteiro, nas minhas redes, é importante, o meu Twitter @lubarretotv, e meu Instagram é @lubarretooficial.

[ LUANA IBELLI ]

Pronto! 

Brigada, Lu, espero que as pessoas continuem te seguindo, esse seu trabalho lindo, importante, que inspira tanta gente. 

[ LUCIANA BARRETO ] 

Eu que agradeço. Foi maravilhoso conversar com você! 

[ LUANA IBELLI ]

Brigada! 

[ LUANA IBELLI / ENCERRAMENTO ]

Gente, vamos então encerrar mais um episódio, obrigada pela tua companhia até aqui. Vamos fazer os nossos agradecimentos, né. 

Nossa equipe, Anna França, estagiária, Fernando Soares, editor, Victor Félix, repórter, equipe do Portal dos Jornalistas, né, bom dizer. 

Tem os nossos apoiadores, também, que é a Ajor, Associação de Jornalismo Digital, a ICFJ, International Center for Journalists, a Meta Journalism Project, a Imagem Corporativa, e a Rádio Guarda-Chuva.  

E tem também os nossos parceiros institucionais, a Énóis Conteúdo e a Oboré Projetos Especiais

Muito obrigada por acompanhar a gente em mais um episódio, e até a próxima. Tchau! 

 

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