A morte de João Ubaldo Ribeiro

* Por Milton Saldanha

 

A primeira vez que ouvi o nome João Ubaldo Ribeiro foi há 42 anos, em 1972, quando visitei o escritor Érico Verissimo, em sua gostosa casa no bairro de Petrópolis, em Porto Alegre. Eu era repórter do jornal Folha da Manhã e precisava de um comentário do Érico sobre um livro, Cogumelos de Outono, de Gladstone O. Mársico – isso mesmo, com esse nome, da cidade de Erechim, uma das pessoas mais simpáticas que conheci em minha vida, dotado de uma verve humorística incrível. Você lia o livro, da Editora Movimento, um tremendo tijolo, imenso, dando gargalhadas das cenas hilárias que ele descrevia.

Certo dia recebi a inacreditável notícia que ele cometera suicídio, atirando-se do prédio onde morava. Foi um choque tremendo. Era uma noite fria e fiquei duas horas conversando com Érico e sua mulher, Mafalda, num porão habitável muito aconchegante, com música clássica de fundo, tocava Mozart. Eles sentavam em cadeiras de balanço e Mafalda tricotava durante a conversa, mais ouvindo do que falando.

Estava lá também seu editor, o Bertazo, da antiga Editora Globo, tradicional e famosa no Sul. Bastaram aquelas duas horas para eu me encantar com a figura de Érico Veríssimo, um ser humano de integridade moral absoluta. No meio da conversa, ele citou o livro de um escritor então ainda desconhecido: Sargento Getúlio, do baiano João Ubaldo Ribeiro. Érico me contou que tinha recebido o livro, de cortesia, começou a ler por curiosidade e não largou mais, descobrindo ali uma preciosidade da literatura brasileira. Estava sob o impacto da obra e recomendou-me a leitura. Já no dia seguinte corri à Livraria do Globo e comprei.

Ao escrever duas páginas na Folha da Manhã sobre Cogumelos de Outono, e sobre a figura admirável do seu autor, aproveitei para incluir o comentário de Érico sobre Sargento Getúlio, estimulando a boa leitura. O livro é um marco. Tempos depois, começou o sucesso de João Ubaldo, ganhando nome nacional. O livro depois virou filme, com Lima Duarte fazendo o papel do sargento. Por esse livro passei a considerar João Ubaldo um dos maiores romancistas brasileiros de todos os tempos. Mas, curiosamente, nunca gostei dele como cronista, achava pesado, e a crônica tem que ser leve.

São gêneros completamente diferentes. Na minha juventude devorei as crônicas de Rubem Braga, que era imbatível no gênero, nunca mais haverá outro igual. Foi o mestre de todos da minha geração que apreciavam as letras. Mas a aventura de fazer um romance é muito mais densa, além de perigosa. Porque a crônica, curta, variada e frequente, perecível como uma maçã, não precisa ser genial todos os dias. Nem dá. Mas o romance é único e precisa, senão é melhor nem existir.

João Ubaldo nos deixa esse legado e outras obras admiráveis, onde a questão social é o centro de tudo. Sua morte, aos 73 anos, tem um sentido de perda profunda para a literatura brasileira e para todos que pregam a decência e a justiça.

 

* Milton Saldanha edita o jornal mensal Dance, dedicado à dança de salão, e mantém um blog de crônicas sobre assuntos variados. O texto saiu na coluna de Ademir Médici, no Diario do Grande ABC, nesta 3ª.feira (22/7).