Inscritos no Livro da Vida

Por Paulo Ludmer (pauloludmer@uol.com.br)

1969 – Eu, engenheiro recém-formado da Poli-USP, recebo telefonema de meu pai, sugerindo que entrasse com pedido formal de me tornar jornalista profissional, oportunidade única. “Você escreve desde antes de 1969”. Foi o que fiz, com sucesso.

1971 – Meu editor de Educação na Folha de S.Paulo, Perseu Abramo, me ensina: seu texto sobre o Colégio Fernão Dias Paes (em Pinheiros) está muito elogioso, carece de crítica. Fiquei com vergonha da Adelia Borges, Adelina Schlaich, minhas colegas de editoria.

1973 – Meu editor no Pasquim, Ivan Lessa, pede para eu desconfiar do eu sério.

1974 – Meu editor da Revista Análise da Economia Brasileira, Celso Ming, pede para eu reescrever pela quinta vez um texto de 30 linhas. Eu bufo para Roberto Muller, Sidnei Basile, Floreal Rodrigues Rosa e Tom Camargo, na sala ao lado, que faziam a Revista Expansão (ela virou Exame, na Abril).

1976 – Meu copy no Jornal da Tarde, Rui Falcão, na frente do Milton Blay, do José Eduardo Faria, do Ulisses Capozzoli, melhora demais meu texto, e minha autoestima balança diante de José Roberto Nassar, José Márcio Mendonça, Marco Antônio Rocha, Antônio Carlos Godoy, e Mário de Almeida, meus colegas.

1976 – Sou convidado por Marquito para substituir Vlado Herzog, assassinado pela repressão, nas aulas de jornalismo na Faap. Ali leciono Jornalismo Setorial III (Econômico) para Edu Ribeiro, Vera Brandimarte, Márcia Raposo, Rubens Fernandes, Serginho Groisman, Carlos Tramontina, Aurea Lopes e dezenas de queridos até hoje, ali permanecendo por 33 anos, onde apresento Problemas Brasileiros, Ética nas Comunicações, Antropologia Cultural e finalmente Criatividade no cinema. Fui excluído por Pondé, por telefone, na véspera do Natal, porque não tinha mais matéria na grade. “Passe no caixa pois entraremos em recesso”.

1977 – Editor de Conjuntura na Gazeta Mercantil. Numa das primeiras reuniões de pauta, tentei colaborar e sugeri que é preciso ir atrás do atrás dos fatos. Me vi ridículo e a reunião foi encerrada pelo pauteiro Klaus Kleber. Antes de 1980, tornei-me editor de Energia (afinal sou engenheiro eletricista, conheço matemática, fornalhas e caldeiras).

1983 – O professor José Goldemberg me convida para projetar e dirigir a Revista São Paulo Energia, de Cesp, CPFL, Eletropaulo e Comgás, para ser a tribuna democrática da política energética nacional. Em 18 de abril de 1984, um grande blackout, do Rio Grande do Sul até Brasília, me faz apurar um problema na usina de Jaguara, da Cemig. Não saiu totalmente a matéria inteira apurada.

1986 – Sou afastado para a Secretaria de Assuntos Fundiários, onde havia papéis para impressão para muitos anos de escassez virtual, guerra ou destruição de fornecedores fabricantes. Sai Montoro, vem Quércia. Saio eu demissionário.

1986 – Sou o primeiro funcionário e diretor da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia (Abrace), onde permaneço até 2010. Antes (2008-09) ponho de pé a Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica).

1989 – Assumo a coluna Momento, da Revista Eletricidade Moderna, onde hoje comemoro 30 anos desta minha página. Curiosidade: três décadas sem nenhum presente de Natal, tão corriqueiro nos anos 1980, e tão discutível.

1994 – Aos 50 anos, publico meus dois primeiros livros (já são 27, vide www.pauloludmer.com.br): Perdas e Gulas – crônicas elétricas brasileiras (Aranda) e Linguaçodada (Massao Ohno).

2000 – Articulista no www.canalenergia.com.br e no Diário do Comércio e Indústria, com Márcia Raposo, editora-chefe, e depois Liliana Lavoratti, precedidas e chefiadas por Getúlio Bittencourt, que faleceu, e Roberto Muller, que se afastou. Ambos valorizaram o projeto.

Em resumo e somente para ilustrar: iniciei com telégrafo, segui com telex, fax, e-mail e que tais. Textos literários (Marcos Faerman, Humberto Werneck), formas artísticas (Moisés Rabinovici), investigação (José Roberto Alencar), camadas mais profundas (Gilles Lapouge, Juca Kfouri), o avesso ao banal sem virtuosismos (Celso Ming), a política guia (Castelo Branco), ética (Muller e Molina na Mercantil), humor (Millor Fernandes, Jaguar), resenhas literárias (Carlos Felipe Moisés, Sabato Magaldi, José Castello)… anos de ouro considerando o que a cibernética trouxe sob contrabando de desinformação.

Muitos dos aqui mencionados já nos deixaram, além das centenas de excelências aqui não citadas que trouxeram o bastão para hoje, Murilo Felisberto, mais um enfático exemplo. O Edu Ribeiro preferiria que eu escrevesse causos, mas o momento não me permite. Não estamos num velório, nem numa comédia. Nem em ressaca, nem catatônicos.  Me permito, neste ano novo de 5780, em plena celebração, lembrar que no princípio era o verbo. Todos os verbos. Principalmente para mim, o verbo Ser. Sujeitos e predicados mudam e se alternam. Urge Ser. Desejo que neste ano novo hebreu (18/9) todos estejam inscritos no Livro da Vida.

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