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sábado, julho 13, 2024

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Memórias da redação ? Antonio Ermírio e a imprensa

A colaboração desta semana é de Fátima Turci ([email protected]), âncora do Economia & Negócios na Record News, sobre o relacionamento do empresário Antonio Ermírio de Moraes, recentemente falecido, com a imprensa. Antonio Ermírio e a imprensa O personagem já se foi. O prêmio não existe mais, nem o veículo de comunicação sobreviveu e até o local mudou de dono, de nome. Portanto, vão ter todos que acreditar na provável única sobrevivente como protagonista deste encontro: eu mesma. Fórum de Líderes da Gazeta Mercantil. 1981. E lá estava uma garota se achando mulher e repórter, encantada: não com uma banda de rock, mas com um bando de empresários que decidiam o destino da Nação. Audácia típica da juventude, cheguei bem perto e cochichei: Dr. Antonio, eu queria uma entrevista diferente de todas que o senhor está dando aos meus colegas. Ele parou. Olhou sério, se afastou de todos me puxando pelo braço. Estremeci… Ainda era uma época em que a gente estremecia por qualquer coisa, apesar de já começarem alguns movimentos pela abertura política – em um dos quais ele e outros líderes empresariais foram signatários de uma carta ao governo reivindicando a volta da democracia, o intitulado e hoje esquecido “Manifesto dos Oito”. – Posso saber por que a senhora – e a partir daí foram 30 anos em que Dr. Antonio me chamou de SENHORA – quer algo diferente? – Porque quero transmitir ao meu leitor – e aí enchi o peito para dizer de onde era –, do Estadão, os seus pensamentos e suas ideias e não apenas declarações de efeito. Afinal, o senhor é o homem mais poderoso e rico do País. Rico estava estampado em todas as listas das publicações nacionais e internacionais. Naquele início de década, o Grupo Votorantim, um conglomerado de indústrias de cimento, alumínio, zinco, tinha um faturamento maior do que o do Bradesco. Poderoso ficaria ainda mais. Foi eleito por dez anos consecutivos como o maior líder empresarial do País nesse Fórum da Gazeta Mercantil (lembrando que o jornal foi um ícone da imprensa brasileira e o primeiro a segmentar e ter uma publicação especializada; passando das mãos da família Levy para Nelson Tanure, que o fechou em maio de 2009). Para minha surpresa, a tática surtiu efeito. Antonio Ermírio de Moraes marcou a primeira entrevista exclusiva para sábado pela manhã na sede da Votorantim, na praça Ramos de Azevedo, atrás do Teatro Municipal. Quantos sábados a partir daí moldaram minha carreira não sei dizer com precisão. Sei que em nenhum titubeei um segundo em deixar viagens de lado, família esperando, amigos no bar. Era um momento áureo, um misto de missão jornalística com pitadas de orgulho, vaidade e até veleidade profissional, porque sabia o que representava uma entrevista com o Dr. Antonio para a carreira de qualquer jornalista. Outras tantas noites segurava o fechamento do jornal para repercutir alguma notícia com o superintendente do grupo Votorantim no Hospital Sociedade Beneficência Portuguesa, onde ele dava expediente diário como presidente, geralmente ganhando manchete de primeira página e também carimbando minha jornada profissional com o rótulo de um dos repórteres eleitos pelo Dr. Antonio. Eram poucos. Alguns prediletos. E sei que Miltinho (Milton Ferreira da Rocha Filho) e eu estávamos nesse rol, com passagem liberada pela eterna e dedicada secretária Dona Valéria. Essa, talvez, tenha sido uma das grandes características no relacionamento com a imprensa do empresário que o Brasil lamentou perder agora em agosto: respeito ao nosso trabalho. Sem media training, sem assessoria de imprensa ou de comunicação, sem usar o poder que detinha para influenciar donos de veículos ou chefes das redações, ele valorizava o trabalho do REPÓRTER. Alguns preceitos básicos, hoje incluídos em sofisticados manuais de comunicação, eram aplicados por ele de forma intuitiva. 1)            Eleger fontes de relacionamento 2)            Encontrar pessoas de confiança 3)            Falar verdades ou omitir, sem nunca mentir 4)            Querer transmitir opiniões e influenciar decisões 5)            Estar sempre informado e ter opiniões próprias 6)            Ter visão que ultrapassa sua empresa e seus interesses 7)            Ter objetivos mais amplos que sua própria carreira 8)            Estar disponível quando necessário De propósito vou parar de enumerar, assim fica diferente dos dez mandamentos ou da receita dos dez Dos e Dont’s. Mas garanto que tem muito mais para se aprender com a convivência do Dr. Antonio com os jornalistas. Vamos fazer análises comparativas com os empresários de hoje. E aqui não vão críticas, mas observações concretas de quem ainda convive no dia a dia com os jovens líderes empresariais. A primeira coisa que me chama atenção é a imensa preocupação que empresários como o Dr. Antonio tinham em falar sobre a situação econômica, política e social do Brasil. Isso me faz refletir sobre lobby e transparência. Essa transparência tão reclamada pela iniciativa privada para o setor público é uma via de mão alguma. Meu ponto é o simples: se os empresários pouco ou nada falam do que querem mudar é porque a maioria está atuando nos bastidores, fazendo lobby, legítimo mesmo, mas sem a transparência pública que tanto apregoam. Basta uma rápida olhada no ontem e no hoje para ver a diferença enorme entre quanto os empresários gritavam, esperneavam, reclamavam e uma quase absoluta concordância ou mutismo atuais. Muitos jornalistas rotulam os “velhos” empresários de chorões, uma elite em busca de favorecimentos ou benesses governamentais. Eu sinceramente prefiro saber quem reivindica o que, do que ser surpreendida com notas oficiais de privilégios concedidos após meses de trabalho nos corredores de Brasília. Outra grande diferença talvez possa contar contra a figura do Dr. Antonio e de outros líderes do seu tempo: um tom paternalista em suas declarações, principalmente com relação aos empregados do grupo ou a chamada classe menos favorecida. Mas vamos entender o sinal dos tempos. Pode parecer ontem, mas estamos falando de um homem formado nos anos 1950, sangue português-nordestino, típico self made man de uma sociedade quase pré-industrial, num Brasil colonialista por natureza. Não dava para ser diferente. Havia uma herança paternalista, nacionalista e até elitista. A favor conta nessa história de vida um paternalismo com visão humanista, com vontade de fazer mudanças, com energia para criar empregos, promover melhoria do bem estar social. E acho que é nesse ponto que reside o verdadeiro legado do Dr. Antonio: querer um País mais justo para mais gente. – O que adianta eu ser um homem rico e o País ir mal? Essa foi uma das centenas de declarações que ganharam manchetes dos jornais. A entrevista, publicada pelo Estadão em outubro de 1981, teve grande repercussão porque governo e políticos acusaram o empresário de incitar a população a algum tipo de rebeldia, porque ele declarou louvor à paciência do povo. Povo que muitos jornalistas sabiam o quanto ele conhecia, andando pelo centro da cidade sem qualquer segurança, conversando com porteiros, faxineiros, secretárias, boys, meninos de rua e operários das suas fábricas. De alguns também sabia se safar, sem esmolas ou falsas promessas, com conselhos e ajudas efetivas quando merecidas. Agora que ele se foi, muitos elogios e homenagens póstumas. Porém, nada diferente do que foi durante sua vida. Raros têm sido os líderes que, como ele, conseguem tanta convergência positiva de opiniões, principalmente num meio ácido e crítico como a mídia. Certamente ele se alegrou de sua vida e de sua obra até o último instante em que teve consciência. Com a mesma certeza, no entanto, ficou um pouco de desânimo e decepção quanto aos rumos da política e das diretrizes governamentais. Suas críticas à condução de uma política econômica mais justa permanecem, infelizmente, inalteradas, como ele mesmo pode lamentar em sua ultima entrevista, na estreia da Record News, em setembro de 2007. • Brasil, paraíso dos agiotas • Vivemos numa ciranda financeira • Não há como desenvolver com nossas taxas de juros • Investimento é fundamental para vencer a crise • Precisamos repensar o papel do Estado • Um Estado justo investe em saúde, educação e segurança • O campo é a solução para o uso intensivo da mão de obra • Precisamos cuidar das pequenas e médias empresas • Crise econômica sempre haverá; é preciso saber enfrentar • Partidos políticos precisam dizer para que servem Um decálogo que bem poderia ser uma plataforma de campanha política. Discurso infelizmente atual, o que significa que suas ideias não foram implementadas – é frustrante.

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