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quarta-feira, abril 29, 2026

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SIP debate desafios da mídia durante e após a pandemia

A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP, em espanhol) promove, de 29 a 31/7, um novo ciclo do SIPConnect Online, série de palestras gratuitas sobre mídia e imprensa em geral. O evento, realizado anteriormente em maio, contou com mais de 2.300 participantes.

As palestras abordarão temas como Inteligência Artificial nas redações, uso de tecnologia para aprimorar o conteúdo produzido e estratégias de audiência durante e após a pandemia. Haverá apresentações de editores de The Washington Post, The New York Times, Clarín, La Nación, El Universal e El Debate, além de Google, Amazon e Facebook.

Confira a programação completa e inscreva-se aqui.

José Roberto Caetano deixa a Jovem Pan

José Roberto Caetano

José Roberto Caetano deixou a Jovem Pan na última semana. Convidado para atuar como comentarista de economia e negócios por André Lahóz, com quem havia trabalhado por décadas na revista Exame, despede-se da emissora após quase seis meses de casa, e apenas algumas semanas depois da saída do próprio Lahóz.

Segundo ele, a Pan alegou as dificuldades financeiras do momento para a dispensa: “De fato, os salários já vinham sofrendo corte desde abril. Nos últimos dois meses (maio e junho), vinham com 30% de redução. Por outro lado, eu havia ido para lá a convite do André Lahóz Mendonça de Barros, meu ex-chefe na Exame, que chegara para implantar um projeto, como diretor de Jornalismo, que visava dar mais equilíbrio à programação jornalística da Pan, muito enviesada à direita. Com a saída do André, um mês antes, por um desentendimento com o Tutinha, pode ter ficado sem sentido também a minha permanência, já que eu não era identificado com a linha hegemônica na Pan. Contudo, a bem da verdade, nunca sofri nenhuma cobrança político-ideológica. O que falei nos comentários que fiz e nos textos que escrevi no site da rádio foi sempre inteiramente da minha cabeça, 100% livre. Faço um balanço positivo da minha passagem. Foram quatro meses de uma vivência intensa com rádio + TV pela internet, duas áreas que não conhecia. Tive a oportunidade de experimentar um trabalho diferente, com ótimos profissionais do ramo que a Jovem Pan tem. Agradeço a todos pela parceria. Em suma, aprendi mais alguma coisa da profissão e do funcionamento de um veículo”.

MediaTalks: Briefings do Governo são uma questão de transparências

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

Quebrar tradições não é coisa que encante os britânicos. Em junho, uma americana residente no país causou revolta ao postar no TikTok um vídeo ensinando a fazer o “British tea” com água aquecida no microondas, 1/3 de leite na xícara e o saquinho de chá entrando por último.

Para os veteranos que cobrem o Governo, porém, adulterar a fórmula do chá pode ser bobagem perto do plano da administração de Boris Johnson de reformular o sistema de briefings para a imprensa. As mudanças fazem parte de uma revolução no serviço público capitaneada pelo poderoso assessor Dominic Cummings, que atingirá também as equipes de comunicação, projeto revelado pelo Financial Times em 2 de julho.

A ideia é radical: transformar a partir de outubro os briefings da tarde em coletivas transmitidas pela TV, sistema semelhante ao praticado pelo presidente Donald Trump. Uma inspiração preocupante, considerando seus embates com a mídia. Os briefings da manhã continuariam internos, como atualmente.

Historicamente − e na Grã-Bretanha historicamente quer dizer muito tempo −, os briefings aconteciam duas vezes ao dia na Sala de Imprensa do Parlamento, prática que remonta ao século 19, reunindo credenciados do grupo Lobby, formado por profissionais dos grandes veículos. Dois assessores falavam de pé em torno de uma mesa, em off, sem câmeras ou telefones, esclarecendo posições do Governo e tentando influenciar os rumos da cobertura. De quebra, dando farto material para tweets exclusivos.

Em janeiro Johnson mudou os encontros para a casa contígua à residência oficial, em Downing Street 10. Houve protestos pelo temor de que jornalistas críticos fossem barrados, o que no Parlamento não aconteceria. Mas tudo havia se acomodado até surgir a novidade.

A exposição direta dos líderes do país à  população tem o potencial de impactar a percepção pública a favor do Governo. Falando diretamente, Johnson, ministros e assessores podem amenizar o peso das críticas e do confronto de suas posições com terceiros nas matérias editadas.

A proposta atraente foi testada com sucesso durante a pandemia do coronavirus. Um pronunciamento do primeiro-ministro anunciando o lockdown atingiu 27 milhões de espectadores pela TV e online, batendo o encerramento das Olimpíadas de Londres.

Transparência em questão − Ninguém chegou − ao menos em público − a classificar o plano atual de “crime”, como fizeram os críticos da moça do chá. Mas setores da imprensa se movimentam para interferir no formato.

Ian Murray, diretor da SoE (Sociedade dos Editores), disse em nota: “Se o objetivo dos briefings televisionados é proporcionar transparência, precisam ter duração suficiente e serem de natureza inclusiva para garantir que todos os jornalistas possam questionar o governo”.

O pessoal da mídia tradicional está desconfortável, mas há quem goste da ideia. O blog de direita Guido Fawkes vem há tempos pressionando para quebrar a hegemonia do Lobby.  Paul Staines, o blogueiro, não é bem um jornalista tradicional: foi RP de um coletivo que organizava raves e trabalhou no mercado financeiro, chegando a decretar falência pessoal em 2003. Mas não está sozinho na tese, que sequer é nova.

James Ball, autor do livro Post-Truth: How Bullshit Conquered the World, escreveu em 2018 um artigo no The Guardian propondo eliminar o sistema em nome da transparência. Disse ele: “A instituição do Lobby é dolorosamente ultrapassada. Nunca seria criada na forma atual nos dias de hoje”. Vai ser preciso equilíbrio para encontrar a fórmula perfeita.

“Chuva forte” − As transformações chegarão também à comunicação dos ministérios e departamentos oficiais. O Financial Times revelou que toda a interação com a imprensa será centralizada no Gabinete. E que haverá uma redução significativa de gente trabalhando nas áreas de Imprensa, que hoje superam quatro mil profissionais.

Como teria dito Cummings há alguns dias, em uma declaração provavelmente vazada mas não confirmada oficialmente, “vai chover forte em Whitehall”.

Estadão lança game para estimular leitura de jornal e oferece assinaturas gratuitas

O jornal O Estado de S.Paulo lançou o Estadão Incentiva, projeto de gamificação para estudantes do ensino superior que estimula a leitura de jornal e a procura por informações confiáveis. A plataforma funciona com um sistema em que os usuários acumulam pontos ao realizarem atividades como ler matérias, visualizar vídeos, compartilhar, comentar. Os pontos servem para desbloquear benefícios, incluindo assinaturas gratuitas do Estadão.

O projeto foi vencedor do 1.º Desafio de Inovação da Google News Initiative na América Latina, em 2019. João Caminoto, diretor de Jornalismo do Grupo Estado, declarou que a iniciativa serve para combater a desinformação: “Com este programa, nossa meta é aumentar o acesso à informação de qualidade e ampliar o público do Estadão, um jornal que sempre se pautou pela inovação. É ainda uma forma de mostrar que desinformação, um dos maiores problemas atuais, se combate com bom jornalismo. Investir nos jovens é também investir no futuro do Brasil”.

Para se cadastrar no Estadão Incentiva é preciso entrar no site do projeto e fornecer seus dados educacionais. Vale lembrar que jogo, apesar estimular o aprendizado, exige comprometimento e atenção do usuário: todos têm apenas três “vidas”, que podem ser perdidas em caso de falha nas atividades propostas. As assinaturas gratuitas podem ser renovadas de acordo com o desempenho do usuário na plataforma.

CBN lança podcast sobre mulheres que moram sozinhas

A CBN lançou nesta terça-feira (7/7) o podcast NaMorada, que aborda e foi feito para mulheres que moram sozinhas. Com apresentação de Tatiana Vasconcellos e Laura Cassano, o projeto apresenta entrevistas com mulheres de diferentes perfis e idades que moram sozinhas, abordando temas como isolamento social, atividades em casa e a relação entre elas e suas residências, além de mulheres que foram infectadas por Covid-19 e suas histórias, e como elas lidaram com a questão.

O primeiro episódio explica os conceitos de casa e famílias unipessoais. A ideia do projeto surgiu em conversas entre Tatiana e Laura, que moram sozinhas, sobre o que vinham fazendo em seus cotidianos durante a quarentena. A estreia estava prevista para março, mas foi adiada por causa da pandemia. O primeiro episódio foi gravado antes da quarentena. Confira!

Repórter Record Investigação volta em 23/7 com apresentação de Adriana Araújo

A Record TV estreia em 23/7 nova temporada do Repórter Record Investigação, agora apresentado por Adriana Araújo, que foi substituída por Christina Lemos na bancada do Jornal da Record. O programa, de reportagens investigativas e denúncias exclusivas, era apresentado por Domingos Meirelles, afastado preventivamente por causa da pandemia. Em sua primeira fase, o Repórter Record Investigação ganhou cerca de 15 prêmios em dois anos, segundo Meirelles, incluindo o último Esso.

Com informações de Flávio Ricco (R7).

Metrópolis (TV Cultura) anuncia reformulação editorial

Adriana Couto e Cunha Jr. (Crédito: Divulgação / TV Cultura)

O programa Metrópolis (TV Cultura), no ar há 32 anos, anunciou a estreia de uma nova fase e reformulação editorial. Interrompido em março por causa da pandemia de coronavírus, a atração que cobre arte e cultura em geral volta ao ar nesta segunda-feira (6/7), com novo formato, cenário, linguagem e pautas para os meios digitais.

O Metrópolis vai ao ar às 19h40, de segunda a quinta-feira, com apenas cinco minutos de duração. Cada edição trará informações mescladas sobre a hashtag/tema específico do dia. Às sextas-feiras, o programa será gravado em um estúdio da TV Cultura, com apresentação de Adriana Couto e Cunha Jr., e duração de 30 minutos. No domingo, às 20h, haverá um compilado dos melhores momentos da semana.

Marcos Maciel, diretor do Metrópolis, explica o objetivo da reformulação editorial: “O programa agora tem um formato modular, nem todo dia ele será igual. O roteiro tem um tema, uma história leva a outra, mas o formato é livre. Porém, mais do que a forma, o conceito aqui é o mais importante: chegar a mais pessoas, a públicos mais diversos. Não só aos centros. Mas também aos entornos; não só à capital, mas aos interiores do País. São nossas bases deste novo horizonte”.

Justiça do Panamá sequestra US$ 1 milhão em bens de grupo de comunicação para indenizar ex-presidente

Crédito: ABC (Espanha)

A Justiça do Panamá determinou o sequestro de bens equivalentes a US$ 1 milhão do grupo de comunicação Corporación La Prensa (Corprensa), que edita os jornais La Prensa e Mi Diario. O valor será revertido em indenizações para o ex-presidente Ernesto Pérez Balladares, que alegou ter sido vítima de uma “campanha de difamação” promovida pelos veículos.

Em 2011, os jornais publicaram reportagens sobre um suposto esquema de lavagem de dinheiro no governo Balladares, com documentos obtidos em investigação que indicavam benefícios a casas de apostas e possíveis irregularidades em uma conta bancária nas Bahamas. Os advogados do ex-presidente declararam que os jornais “nunca se retrataram da publicação, que era falsa“.

O ocorrido foi classificado como ameaça à liberdade de imprensa por diversas entidades e estudiosos defensores do jornalismo. Em nota, Diego Quijano, presidente da Corprensa, afirmou que “a ação judicial é um ataque direto à liberdade de imprensa e ao direito à informação, já que impede a continuidade operacional da empresa, uma vez que a decisão congela os fundos utilizados para cumprir com nossas obrigações contratuais e realizar o pagamento por bens e serviços e, sobretudo, o salário dos 24 funcionários da corporação”.

Mary Anastasia O’Grady, colunista do Wall Street Journal, escreveu que “se reportagens investigativas se tornaram crime no Panamá, a democracia está em perigo”.

Com informações do Poder360

Latam Media Leaders eSummit abre inscrições

A Associação Mundial de Editores de Notícias (WAN-IFRA, em inglês) promove a primeira edição do Latam Media Leaders eSummit. O encontro, digital, oferece palestras e discussões sobre crescimento de empresas jornalísticas no contexto pandêmico atual, além de estratégias para possibilitar uma aceleração digital nos veículos.

Participarão dos debates líderes e referências do setor, de 27 a 29 de julho. Para membros da WAN-IFRA, as palestras são gratuitas, mas para não membros o preço é de US$ 490 (por volta de R$ 2.600). Inscreva-se aqui (em espanhol).

Mariana, eu e o Facebook

Escola de Mecânica da Armada, conhecido centro de torturas e desaparecimentos da ditadura argentina, é hoje o Espacio Memoria y Derechos Humanos

Por Plínio Vicente da Silva

Foi numa tarde fria de junho de 1978 que conheci o verdadeiro Hector Ricardo Gulberti. Argentino, com cara de cantor de tango, um dia viera pedir-me emprego na redação do Jornal da Cidade, de Jundiaí, do qual eu era o redator-chefe. Apresentou-me como única credencial a declaração verbal de que trabalhara na diagramação do El Clarín, diário de Buenos Aires. Como precisava de um secretario gráfico para me ajudar no fechamento, dei-lhe a oportunidade e, assim, com um desempenho razoável, ele foi ficando.

De segunda a sábado, planejado o jornal, almoçávamos no Bar do Mário, restaurante ao lado do jornal, e também passamos a jantar juntos depois de fechada a edição que ainda de madrugada circularia no dia. Num domingo, com minha família visitando parentes em Jarinu, convidei-o para almoçar. Como o jornal não circulava na segunda-feira, teríamos tempo para conversar.  Ele topou e quando cheguei, pouco antes do meio-dia, ele já estava sentado na última mesa, lá no fundo, como exigia sempre e a todo momento, olhando desconfiado para a porta. Na verdade, ficávamos praticamente escondidos, iluminados pela luz bruxuleante de uma lâmpada de 15 watts. “É para economizar”, justificava o japonês quando alguém dizia que o bar dele parecia um cabaré de quinta-categoria.

Depois da segunda caipirinha, que ele dizia ter sido a supresa mais agradável que encontrara no Brasil, começou a soltar a língua. Contou como se estivesse me contando seu maior segredo, mostrou-me uma carteira de identidade da Marinha Argentina. Acrescentou que tinha a patente de capitão-de-fragata e que no auge do regime militar portenho comandara uma base de operações ligada à Escola de Mecânica da Armada, a ESMA, de triste memória.

No curso da conversa revelou que nesse local, camuflado como uma empresa de nome Automotores Orletti, milhares de presos políticos foram torturados e mortos. Disse mais: perseguido em seu país, entrara clandestinamente no Brasil. Como duvidei da autenticidade da identidade, Hector abriu a bolsa que carregava a tiracolo e me mostrou uma pistola calibre 45 que trazia no cabo a insígnia da ESMA. Aquilo bastou para eu crer que realmente ele era quem dizia ser.

Durante os meses em que trabalhamos juntos, fiz questão de anotar mentalmente os depoimentos que Hector me deu e ao chegar em casa passava as informações para um caderno. Assim, em pouco tempo tinha em mãos um dossiê sobre seu papel no período de repressão que marcou o auge da Operação Condor, montada para caçar opositores às ditaduras que os militares sustentavam em Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile. Em síntese, como seu maior feito ele se gabava de ter comandado o desmantelamento de um “aparelho” subversivo, ação durante a qual matou dois casais de uruguaios e levou embora um bebê, que horas depois entregou a um oficial do serviço de inteligência, seu amigo.

Quando fui trabalhar no jornal O Estado de S. Paulo, o Estadão, no final de 1979, Marcos Wilson estava voltando de Buenos Aires, onde fora correspondente do Grupo Estado. Iniciada a amizade que nos une até hoje, deu-me então a coceira de lhe falar sobre as anotações dos tempos do Jornal da Cidade. Sua reação foi de espanto, pois muito do que Hector me revelara batia com as suas suspeitas e com as informações que trouxera da Argentina. Mesmo assim achou prudente buscar uma segunda opinião.

Dias depois veio até mim e disse-me que consultara um amigo que trabalhava na agência de notícias, a espanhola Efe, e que também morara na Argentina. A reação do correspondente espanhol, contou, foi de espanto maior que o dele. Chancelou quase todas as informações, exceto algumas que não podia autenticar por falta de maiores dados. Alertou que aquilo tudo era uma bomba, pois pela primeira vez um militar argentino confessava a autoria de assassinatos de civis.

Foram quase dois anos de investigações, concluídas com uma entrevista na sede do Estadão, na qual Marcos Wilson, José Maria Mayrink, Luiz Fernando Emediato, Roberto Godoy e eu sabatinamos Hector a fim de confirmar ou não as declarações que ele me dera. Ao final, recusou-se a responder a uma única pergunta: a quem entregara a menina, que descobrimos ser Mariana Zaffaroni Islas, filha do casal de uruguaios mortos por Hector – Maria Emilia Islas e Jorge Zaffaroni.

Mariana, em 2015

Soubemos então que ela era a neta que Martha Zaffaroni de Castillo buscava já havia dez anos e da qual publicara uma foto em jornais do Brasil e Argentina na tentativa de localizá-la. Nessa época, Mariana era a única criança uruguaia desaparecida que ainda não fora encontrada e seus olhos tornaram-se símbolo das marchas pelos desaparecidos. e que anos depois foi personagem de um documentário produzido pelo uruguaio Gonzalo de Paredes para a rede francesa de televisão France 2.

Com a mesma competência que marcou sua carreira, Marcos Wilson encerrou as investigações com material suficiente para um livro – que ele jamais cogitou publicar, o que eu lhe disse que gostaria de fazer no futuro. Hoje, isolado em casa por conta do Covid-19, já o estou escrevendo e ainda nem sei a quantas páginas vou chegar, pois mistura a realidade do meu passado com a ficção que criei tendo Roraima como cenário, embora todos eles baseados em fatos e personagens reais.

Voltando aos meus dias de Estadão, eram tantas informações, entrevistas, depoimentos e fotos que o material acabou resumido numa série de seis páginas, coisa impensável no jornalismo de hoje. Publicada no final de janeiro de 1983, ganhou o Prêmio Rey de España daquele ano, concedido pela Efe. Dois detalhes importantes: foi o primeiro dado ao jornalismo impresso e, embora até então a honraria privilegiasse apenas os profissionais de língua espanhola, a decisão de concedê-lo ao Estadão deveu-se ao fato de que se tratava de material ligado diretamente a um país de fala castelhana e republicado por jornais do Brasil e do exterior.

Assim que as reportagens saíram, Martha Zaffaroni foi bater na redação. Emocionada, contou que as informações de Gulberti confirmavam as suas suspeitas: dos quatro que ele matara, dois eram seu filho Jorge e sua nora Maria Emilia. Portanto, o bebê de 18 meses que ele poupara só podia ser mesmo sua neta Mariana. Pediu-nos então, desesperada, que a colocássemos frente a frente com o militar, pois tinha esperança de que a ela Hector contaria sobre o paradeiro da menina, então já com cerca de 11 anos. Para isso, fui atrás do argentino. Localizei-o no interior paulista, trabalhando numa gráfica em Rio Claro, e depois de muita negociação convenci-o a ir comigo ao Rio. Fiz o encontro dos dois no restaurante Taberna do Leão Azul, na Cinelândia, e se ele contou o que Marta queria saber, não sei, pois ambos guardaram segredo dessa conversa e eu jamais os encontrei novamente.

Mais tarde, Ester Gatti, mãe de Maria Emília, recebeu em Montevidéu documentos que lhe foram enviados depois da morte de Martha, encontrados no apartamento dela em São Conrado. Somando essas informações com as outras que já tinha, a avó materna lançou um livro e nele está, num capítulo inteiro, a matéria que fiz com Martha e Hector, publicada no Estadão em julho de 1983. Depois de muito tempo procurando, Ester Gatti finalmente localizou Mariana em 1992 e esta pôde enfim recuperar sua verdadeira identidade.

Maria Ester Gatti, fundadora da Associação de Mães e Parentes de Uruguaios presos durante a ditadura, morreu dia 5 de dezembro de 2010 em Montevidéu. Com ela foi-se mais um pedaço da minha vida de jornalista e de uma das melhores reportagens investigativas que, junto com as de meus colegas, levaram minha assinatura. Restam-me apenas as lembranças de Mariana, que um dia, menina de olhos lindos, de certa forma ajudei a ser resgatada das mãos da ditadura argentina. E que, certa e infelizmente, não terei a felicidade de conhecer…

PS: Para minha felicidade, e antes de partir deste mundo, Deus e a tecnologia me deram um presente inestimável: encontrei Mariana no Facebook e pude, pelo menos brevemente, conversar com ela. Minha emoção maior foi ler em sua página, em resposta a prints da série que o jornal O Estado de S. Paulo publicou em janeiro de 1983: “Muchas gracias, Plinio. Que recuerdos!!! Usted eres una parte inmejorable de mi vida”. Fui ao dicionário de espanhol e descobri que sou parte inarredável da vida dela. Que recompensa maior eu poderia almejar? Valeu a pena o que ouvi em junho de 1978 naquela fria tarde de um domingo de inverno na mesa de um bar e restaurante em Jundiaí…

Plínio Vicente da Silva

Plínio Vicente da Silva, editor de Opinião, Economia e Mundo do diário Roraima em Tempo, em Boa Vista, para onde se mudou em 1984, assíduo colaborador deste espaço, brinda-nos com mais uma bela história.


Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para [email protected].

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