Por Assis Ângelo
Bem cedo me disseram na escola que o Brasil foi descoberto por um português danado de corajoso chamado Pedro Álvares Cabral. Isso no dia 22 de abril no ano de 1500.
Não demorou muito para que eu soubesse logo depois de ligeira alteração da primeira informação por mim recebida na escola. Essa alteração dava conta de que o Brasil não fora descoberto, mas sim achado pelo mesmo Cabral.
O tempo foi passando, passando até que os primeiros invasores da nossa terra dividiram o Brasil em capitanias hereditárias, sesmarias e daí veio o pior: latifúndio.
Os latifúndios geraram riquezas individuais enormes, passadas de pai para filho.
Os latifundiários eram e são temidos como déspotas, grosso modo.
E como o tempo não para e jamais parará, boa gente de boa parte do País foi ganhando espaço e firmeza onde antes a garantia era apenas um buraco de sete palmos para se enterrar de morte matada ou de morte morrida.
Antes de o pequeno proprietário de terra ocupar espaço devido, muitos trabalhadores em regime de escravidão foram postos para correr pelos latifundiários. E, como se não bastasse, as estiagens se repetiam com frequência absurda. E se repetem, menos hoje do que ontem.
A seca de três anos seguidos no Ceará, entre 77 e 79 do século 19, foi um horror sem tamanho, que deveria ter tocado profundamente a alma dos poderosos daquele tempo. Mas não foi isso o que ocorreu. Nem o maior mandachuva de plantão daquele momento, D. Pedro II, fez o que deveria fazer: acudir o povo que morria à toa, que nem mosca em todo canto. Ou seja, nas ruas, nas praças… Até campos de concentração foram criados para isolar os flagelados da seca que chegavam aos montes a Fortaleza cheios de fome, sede e doenças diversas.

No mesmo século 19 outras secas ocorreram Brasil afora.
A estiagem de 1915 de novo parou o Ceará. Em 1930, a cearense Rachel de Queiroz estreava na literatura com o romance O Quinze. Ela tinha 20 anos de idade.
Na referida obra, a escritora conta o infortúnio de uma família, entre tantas, que cai na estrada em busca de água e comida.
Algo parecido com a narrativa de Queiroz aconteceu também em Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe e Pernambuco.
Da região potiguar era um moço que ficou conhecido como Jesuíno Brilhante.
Jesuíno era de família de posses e um dia um cara sacou um revólver e atirou no irmão. Sem saber bem o que fazer, Jesuino sacou a arma que trazia consigo e vingou-se do assassino do mano. É isso que diz a história.
A história diz também que a partir do entrevero mortal, o Rio Grande do Norte ganhou o cangaceiro Jesuíno Brilhante.
Jesuíno era um fora da lei que não fazia conchavos com poderosos. O seu caráter tendia para o lado bom da vida, beneficiando os pobres que de um modo ou outro o cercavam.
Os males do governo eram exibidos e punidos publicamente por Jesuíno. Foi muito ativo na longa seca do Ceará, aquela que durou três anos seguidos impedindo que caísse um pingo de chuva sequer no chão. E assim ajudou muitos flagelados.
A morte apanhou Jesuíno Brilhante no interior da Paraíba. Tinha 35 anos de idade quando isso aconteceu, em 1879.

O poeta cearense Patativa do Assaré, de batismo Antônio Gonçalves da Silva, andava em 1932 na casa dos 20 anos. Por esse tempo nova seca assolava a região nordestina, da qual era a pequena Nanã uma das milhares de vítimas inocentes.
No tempo disso tudo, Patativa já havia perdido por doença um dos olhos.
É desse ano o poema A Morte de Nanã.
Em A Morte de Nanã, o autor da obra-prima A Triste Partida, que Luiz Gonzaga gravou em 1964, conta o drama então vivido pela personagem que dá título ao poema. É tocante. Um trecho:
Depois veio a seca cruel e assoladora,
Contra aquela linda florzinha encantadora
E a coitada morreu, mirrada pela fome.
Hoje, um poeta chora triste esta saudade
E as aves cantam a chamar na solidão:
Nanã! Nanã! Nanã! seu doce e belo nome.
Patativa do Assaré morreu em 2002 com 93 anos e completamente cego.
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