Por Assis Ângelo
– Puxa, Assis, gostei. O Cego Sinfrônio existiu mesmo ou é invenção de algum cordelista?
– Sim, existiu. E tinha uma memória incrível, tanto que guardava com facilidade na cachola embates pra ninguém botar defeito. O embate a que se referem Cascudo, Rodrigues e Mota chegou até aqui por Sinfrônio tê-lo guardado na memória.
– Guardava tudo mesmo ou ele aqui e acolá inventava alguma coisa?
– É possível, é possível.
– Mais uma coisinha, Assis. Bem… Sinfrônio relata como ocorreu o encontro poético entre Jerônimo e Zefinha. Zefinha é muito bem descrita por Jerônimo. Não seria o caso de ela mostrar como era ele?
– Sim, Flor Maria, você tem razão. Vamos lá:

Ella ahi me arrespondeu
Largando de rijo a taca:
Gerome, tú tás doente,
Toma purga de jalapa,
Quebra o ovo e bebe a gemma
Que tú dessa não escapa…
– Senhora Dona Zefinha,
Eu sou moleque teimoso,
Sou pobre, dou-me ao respeito,
Sou preto, porém mimoso…
Vou lhe dá um enxarope
De nove pau amargoso:
Parreira com manacá,
Gordião com fedegoso,
Milome com cabacinha,
Melão-caetano verdoso,
Pereiro com quina-quina,
São nove pau rigoroso…
Tudo isso é bom remédio
P’ra quem soffre de nervoso…
– Gerome, eu tou conhecendo
Que você sabe cantá…
Você sabe e eu também sei:
Temo nós que desbulhá,
Temo nós que picá fumo,
Daqui p’r’a barra quebrá.
– Desgraçada da cantora
Que eu lhe ganhá na batida…
Si eu não pegá no descanço,
Pego sempre na drumida;
Boto laço nas verêda,
Boto tinguí na bebida:
Você me paga o que deve
Ou um de nós perde a vida!
– Eu canto na mansidão;
Mas quando eu mudo o rotêro,
Tocó touro marruá,
Dou em gallo campinêro,
Açoito pirú de roda
Quando chega em meu terrêro.
– Zefinha, quando eu me assanho,
Sou gado do Piôhy…
Sou estreito como ganga,
Estiro: sou sarnambi…
Cheiro mais do que extracto,
Fêdo mais do que tipi,
Queimo que nem cansansão,
Travo mais do que oiti,
Amargo mais do que fel,
Mato mais do que tingui…
– Vou fazê-lhe uma pergunta
P’r’o senhô me respostá:
Como é que a moça foge
Sem ella querê casá?
– Senhora Dona Zefinha,
Eu posso lhe ispilicá:
É o home que se casa
P’ra despois enviuvá;
A muié deixou dois fío,
Elie torna a se casá;
A madrasta de judia
Bate o aço a judiá;
Um dia, vão a um passeio,
Entréte o dia por lá;
Os menino fica em casa
Logo pega a conversá:
“Maninha, nós temo vó
O que podia nos criá,
P’ra botá nós numa escola,
P’ra nos mandá ensiná;
Vive-se aqui nesta casa
Morrendo só de apanhá,
Dormindo só pelo chão,
Sem tê onde se deitá…
A moça pensou naquillo,
Foi p’ra dentro se arrumá,
Foi-se emboi-a mais o mano:
Fugiu sem. querê casá…

– É isso mesmo, Gerome,
O sinhô sabe cantá:
Qual foi o bruto no mundo
Que aprendeu a falá,
Morreu chamando Jesus
Mas não poude se salvá?!…
– Isso nunca foi pergunta
Pra ninguém me perguntá:
Foi o papagaio dum véio
Que elle ensinou a falá:
Morreu chamando Jesus
Mas não poude se salvá…
– Pois eu agora, Gerome,
Numa pergunta lhe enterro:
Quero que Você me diga
O que é mais duro que ferro.
– Zefinha, tua pergunta
Ê besta já por demais:
O que é mais duro que ferro
E nenhum ferreiro faz
É a palavra do home,
Inda que seja um rapaz:
Trinca o ferro e se arrebenta,
O home não volta atraz!
– Gerome, tú pra cantá
Fizesses pauta c’o cão…
– Pois bem, aí está. Pelo menos parte do que se acha no relato popular.
– Agora uma provocaçãozinha: você seria capaz de improvisar umas quadrinhas sobre Zefinha?
– Hiiii…. Vou tentar, assim:
Era bom testemunhar
Zefinha do Chabocão
Derrubando cantador
Metido a valentão
Fez isso muitas vezes
Sem sequer pestanejar
De tudo que mais gostava
Era à viola cantar
Eu vi com os meus olhos
Cego Sinfrônio penar
Na unha de Nha Zefinha
Catando verso sem achar
– Muito bem, seu Assis. Gostei de ver você pondo as zuinhas pra fora.
– Tá bom, tá bom. Obrigado e inté!
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