Por Assis Ângelo
– E o nosso Guimarães Rosa atuou ou não como jornalista?
– Numa certa ocasião, Rosa desabafou a um dos seus tradutores: “Eu sou antijornalista”.
No n° 580 da revista Manchete, de 15 de junho de 1963, o escritor João Guimarães Rosa é objeto de texto do dramaturgo, poeta, compositor e jornalista Pedro Bloch (1914-2004). Nesse texto são atribuídas a Rosa declarações como a que trata das suas negativas a entrevistas que lhe eram solicitadas por repórteres de todo canto. Do exterior, inclusive. Explica:
Você sabe por que não dou entrevista? – diz-me Guimarães Rosa. – Não é por vaidade, por nada. No começo, quando eu não era ninguém, ninguém queria entrevistar-me. Depois, com o começo de minha carreira literária, com Sagarana, começaram a entrevistar-me. As entrevistas saíam e eu guardava. Não tenho nada contra quem entrevista. Tenho é contra mim. Passado tempo ia ver o que tinha dito e não concordava mais comigo. Não diria mais aquilo, compreende? Não gosto do transitório, do provisório. Gosto do eterno.

No mesmo texto assinado por Bloch, por muitos chamado de “quase entrevista”, o autor de Grande Sertão: Veredas lembra que chegaram a lhe perguntar quais as dez palavras mais bonitas da língua portuguesa. Deu um chute no ar e disse que saudade, por exemplo, era uma palavra que a ele nada significava, ao contrário de alma e alegria.
Pra confirmar o que lhe digo, veja você, por exemplo, aquele questionário que perguntava “quais as dez palavras mais bonitas da língua”. Eu, por exemplo, não acho bonita a palavra saudade. Pra mim é a palavra alma, mesmo graficamente. Das palavras que enumerei, naquela ocasião, só sobraram esta e alegria. Alma é feia em qualquer idioma, menos no nosso; anima, âme, sou!… Alma, para mim, é como tinido de cristal; alegria é cacho de uvas esmagado.
Muita gente continua crendo que Machado de Assis é o escritor mais importante do Brasil. Isso fica nas ondas bárbaras do achômetro. Já sabemos – e não é de hoje – que Rosa não era muito chegado à literatura do Bruxo do Cosme Velho. À guisa de curiosidade, tasco cá: no dia 8 de setembro de1882, Machado de Assis publicou, no jornal Gazeta de Notícias, do Rio, o conto a que deu o título O Espelho. Muitos anos depois, no livro Primeiras Estórias (1962), Rosa publicou conto com título idêntico ao do Bruxo. Ambos falam de almas…
No conto de Machado de Assis há referências a duas almas. Uma interna e outra externa. E é assim que somos formados e crescidos em busca de identidade.
No Espelho do autor mineiro há só uma alma, porém feia e coisa e tal. Assustadora.
Freud iria gostar muito de analisar o autor de Grande Sertão: Veredas.
João Guimarães Rosa usufruía de amizade bem próxima com Franklin de Oliveira, Antônio Olinto e Joel Silveira, entre outros. Nunca, no entanto, aceitou qualquer cargo de redação ou direção de jornal ou revista. Porém, não custa lembrar que o filho de Cordisburgo começou a carreira de autor publicando na extinta O Cruzeiro, do todo poderoso Assis Chateaubriand. Foi na revista desse paraibano que Rosa publicou seus primeiros quatro textos, em 1929 e 1930.
Antes de encetar a grande viagem às veredas do sertão mineiro, em maio de 1952, Guimarães Rosa andou pelas plagas do Pantanal. Isso em julho de 1947. Lá, ele conheceu o poeta principiante Manoel de Barros (1916-2014) e o vaqueiro José Mariano da Silva.

O poeta Barros, mato-grossense de origem, recebeu seu confrade mineiro com as mãos trêmulas e gaguejando de tanta emoção.
Àquela altura do tempo, o mato-grossense já havia lido Sagarana. Esse livro, diria bem depois, marcou-o por toda a vida. Tanto que, após receber o ilustre visitante, Barros escreveu um poema tentando usar o linguajar que caracterizaria a literatura de João Guimarães Rosa.
O poeta Manoel Wenceslau Leite de Barros, que também era advogado e fazendeiro, morreu surdo e cego. Seu último livro foi Portas de Pedro Viana.
O vaqueiro José Mariano da Silva, nascido ali pelas bandas do Pantanal, encantou sobremaneira o mineiro Rosa. O encantamento deveu-se à facilidade de Mariano expressar-se com palavras desconhecidas aos ouvidos do autor de Sagarana.
Além do encantamento, Guimarães Rosa viu no vaqueiro pantaneiro muita alegria ao se expressar. Para provar o que sentia, fez das anotações então tomadas uma entrevista que publicou em três partes no jornal Correio da Manhã, do Rio. Tal entrevista chegou aos leitores entre 26 de outubro de 1947 e 7 de março de 1948. Começava assim:
“Em julho, na Nhecolândia, Pantanal de Mato Grosso, encontrei um vaqueiro que reunia em si, em qualidade e cor, quase tudo o que a literatura empresta esparso aos vaqueiros principais. Típico, e não um herói, nenhum. Era tão de carne-e-osso que nele não poderia empessoar-se o cediço e fácil da pequena lenda. Apenas um profissional esportista: um técnico, amoroso de sua oficina. Mas denso, presente, almado, bom-condutor de sentimentos, crepitante de calor humano, governador de si mesmo; e inteligente. Essa pessoa, este homem, é o vaqueiro José Mariano da Silva, meu amigo. Começamos por uma conversa de três horas, à luz de um lampião, na copa da Fazenda Firme. Eu tinha precisão de aprender mais, sobre a alma dos bois, e instigava-o a fornecer-me factos, casos, cenas…”.
Pois é, até eu assinaria essa entrevista.
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