Por Assis Ângelo

O radialista pernambucano José Abelardo Barbosa de Medeiros (1917-1988), que entrou para a história do rádio e da TV com a alcunha Chacrinha, costumava dizer “…nada se cria, tudo se copia”.

De fato, é difícil de bate-pronto identificar-se uma novidade, seja de que tipo for.

As páginas da história estão recheadas de tudo quanto é coisa do “arco-da-velha”. Nos casos de amor e paixão, são mais do que comuns as tramas que resultam em triângulos amorosos. E em tudo quanto é língua, viva ou já morta, pois, pois, casos assim chegam a ser até difíceis de acreditar.

Aluísio Azevedo (Crédito: Wikipedia)

Em 1893, o tcheco Franz Kafka tinha de idade apenas 10 anos, e já o escritor maranhense multitudo Aluísio Azevedo, irmão do Arthur, punha à praça o conto Demônios.

Demônios é como foi intitulado o texto que traz como autor fictício um jovem escritor ocupante da parte mais alta de um prédio utilizado como pensão numa parte qualquer do Rio. Era um quarto pequeno, mas bem arejado e de onde se vislumbrava belo cenário. Isso fosse dia, fosse noite. Pendurada na parede, apenas uma foto de mulher emoldurada com simplicidade. Seu nome era Laura.

O jovem escritor se achava sentado diante da escrivaninha, quando derepentemente danou-se a escrever sem parar. Era noite, já tarde da noite. A escuridão permaneceu por tempo que parecia nunca acabar. Era como se o personagem estivesse dormindo sem perceber. Quando deu por si ou nem isso, estava tateando. Já nada via. Mesmo assim desceu até o térreo e na rua continuou a tatear, topando e pisando corpos inanimados. E nesse clima segue a história.

Por que lá em cima toco no nome de Kafka?

– Isso, Assis. Por que nessa história você lembra do Kafka?

– É como eu disse, o Kafka tinha só 10 anos quando Aluísio publicou Demônios. Essa história é de pouquíssimos personagens nominados. O personagem escritor perde a visão e sai tateando até encontrar a mulher amada. Até lá, bate aqui, bate acolá, ele vai sem ver até o endereço de Laura. E a coisa vai num crescendo, num crescendo… Bom, o casal perde velhas formas e ganha outras.

– E daí?

– E daí que muita coisa acontece, chegando ao ponto em que podemos incluir a história de Aluísio no campo do absurdo absoluto, do fantástico, de que Kafka acha-se seu criador.

– Interessante.

– Pois é. Aluísio nasceu em 1857 e morreu em 1913. Kafka morreu em 1924, com 40 anos de idade.

– Então, quer dizer que Aluísio não foi nem leitor do Kafka

– Não. Metamorfose, a conhecida história de Kafka, foi publicada em 1915. A primeira tiragem chegou a encalhar, segundo Otto Maria Carpeaux.

– Puxa!

– Sim. Carpeaux chegou a conhecer o editor de Kafka, de quem comprou um exemplar de Metamorfose. 

Monteiro Lobato

Não são poucos os autores brasileiros que transitam com naturalidade em gêneros e temas diversos.

Aluísio Azevedo como seus colegas do século 19, entre os quais Machado de Assis, falou muito sobre tudo ou de quase tudo.

Um dos nossos maiores literatos foi o paulista de Taubaté José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948), que foi advogado e fazendeiro, começou a carreira de jornalista e de contista nas páginas de O Estado de S.Paulo. Seu primeiro livro foi de contos, Urupês (1918). Em suma: Lobato escreveu muitas coisas antes de tornar-se “o escritor das crianças”, a partir do A Menina do Narizinho Arrebitado. Sua primeira grande personagem foi Narizinho, levada ao público em 1920.

 

Em 1923, Lobato provocou polêmica com Negrinha e foi, foi, até publicar contos picantes. Além disso, são tocantes contos em que aparecem personagens cegos, como em As Fitas da Vida e O Rapto.

Num trecho do livro O Poço do Visconde (1937) há um personagem que diz “quem não sabe é cego”.

– Lobato foi advogado, como você disse. Foi também fazendeiro por herança do avô Visconde de Tremembé. Foi também, além de autor de livros para a criançada, um grande empresário.

– Isso, Maria. E foi também tradutor. Traduziu Os Irmãos Grimm, Kipling e até H.G. Wells.

– Bem lembrado, Assis.

– Faz tempo que li O Homem Invisível. Uma doideira! Esse personagem no tempo de estudante trocou o curso de Medicina pelo curso de Física e é aí que a coisa se dana. O cara foge de tudo e de todos e até de um cego que surge de repente à sua frente.

Monteiro Lobato escreveu muita coisa, muitos contos e só um ou dois romances sem grande importância. Ele começou a dar forma a seus contos em 1914, quando criou o até hoje polêmico Jeca Tatu. Há dois contos do Lobato de que gosto muito: As Fitas da Vida, que trata de um ex-combatente da Guerra do Paraguai (1864-1870), que ficou cego e cego foi encaminhado para plantar e colher café no interior de São Paulo, junto com uma leva de vítimas da seca do Ceará. É incrível esse conto. O outro conto, O Rapto, trata de um personagem chamado Bento Cego. Viúvo, cria batendo nos filhos que tem. Um dia bate à porta do cego um doutor especializado na cura de olhos. E aí não conto mais.

O caso nisso tudo é que Lobato foi um grande escritor.

Contatos pelo http://assisangelo.blogspot.com.

0 0 votos
Article Rating
Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários