Por Assis Ângelo

O moço Chico Bem-Bem do paraibano José Lins do Rego não tem, literariamente, nenhum parentesco ou amizade sequer com seu Joãozinho Bem-Bem do bom mineiro Guimarães Rosa.

O Bem-Bem de Rosa é um cabra simples, de voz branda e sorriso largo, acostumado a não levar desaforo para casa. Aliás, nem casa tinha. O seu teto era o céu aberto sobre si e a estrada, o sertão do seu mundo.

O Bem-Bem de que aqui falo, na intimidade da cabroeira chamado simplesmente de seu Joãozinho, nada mais nada menos era chefe de jagunços. Mansinho só na aparência.

A fama de seu Joãozinho Bem-Bem pulou das páginas do livro Sagarana (1946) e caiu direto na boca de valentões de Grande Sertão: Veredas (1956).

Era esse Joãozinho o Cão escrito comendo cocada nas beiradas do sertão.

O aqui citado personagem do Rosa era o exato contrário de o Chico de Zé Lins.

 

Num dia sem conversa

Porém de provocação 

Dois valentes se cruzaram 

De armas firmes na mão 

Um deles morreria 

Mas o outro talvez não 

 

Assim eram os duelos

Conforme a descrição 

Armados de pistola

Punhal, faca e facão 

Os homens duelavam 

Até um cair no chão 

 

Duelos sempre houve

No real e na ficção 

João Guimarães Rosa 

No livro Grande Sertão 

Falou de duelista

Jagunço e Cramunhão

 

Falou de Riobaldo

De Diadorim também 

Lembrou de Zé Bedelo

E de mais um outro alguém 

Falou de Joca Ramiro

E da mira qu’ele tem

 

Nosso João também falou 

Do Tirésias do sertão 

Sim, o cego Borromeu 

Exemplo da criação 

Levado por seu guia

Um guri de boa ação 

 

Por outras trilhas andava

Seu Joãozinho Bem-Bem 

Moço de fala mansa 

E de tiro certo também 

Matava como quem reza

Em nome do pai… Amém!

 

– Assis, como termina essa história do Chico Bem-Bem e do Joãozinho Bem-Bem?

– Flor Maria, o Chico Bem-Bem é um cara muito simples, matuto, que aparece do nada nas páginas de Pureza e se apaixona loucamente por uma das duas filhas do chefe da estação, Antônio Cavalcante, um louro de olhos azuis viciado em jogo e coisa e tal. Tipo corno manso. Quanto ao Bem-Bem de Rosa, esse não é de brincadeira, não. Ele aparece com seus comparsas numa povoaçãozinha fincada no fim do mundo. Um dia, conhece um cara de nome Nhô Augusto (Matraga), um ricão fazendeiro das Gerais que perde a mulher para outro homem. Antes ele é alvo de assassinato, mas escapa. Quando acorda é outro homem. Chega até a ajudar pessoas simples por onde passa.

Tem uma hora que Nhô Augusto dá de cara com seu Joãozinho Bem-Bem. E ambos partem para as vias de fato. Ao fim do duelo… E chega!

– Você não vai nos dizer o final?

– Que tal voltarmos a ler mais livros, hein?

– Correto, mas você bem que poderia falar mais um pouquinho sobre Grande Sertão: Veredas.

– Então, tá. Clique

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