Mariana, eu e o Facebook

Escola de Mecânica da Armada, conhecido centro de torturas e desaparecimentos da ditadura argentina, é hoje o Espacio Memoria y Derechos Humanos

Por Plínio Vicente da Silva

Foi numa tarde fria de junho de 1978 que conheci o verdadeiro Hector Ricardo Gulberti. Argentino, com cara de cantor de tango, um dia viera pedir-me emprego na redação do Jornal da Cidade, de Jundiaí, do qual eu era o redator-chefe. Apresentou-me como única credencial a declaração verbal de que trabalhara na diagramação do El Clarín, diário de Buenos Aires. Como precisava de um secretario gráfico para me ajudar no fechamento, dei-lhe a oportunidade e, assim, com um desempenho razoável, ele foi ficando.

De segunda a sábado, planejado o jornal, almoçávamos no Bar do Mário, restaurante ao lado do jornal, e também passamos a jantar juntos depois de fechada a edição que ainda de madrugada circularia no dia. Num domingo, com minha família visitando parentes em Jarinu, convidei-o para almoçar. Como o jornal não circulava na segunda-feira, teríamos tempo para conversar.  Ele topou e quando cheguei, pouco antes do meio-dia, ele já estava sentado na última mesa, lá no fundo, como exigia sempre e a todo momento, olhando desconfiado para a porta. Na verdade, ficávamos praticamente escondidos, iluminados pela luz bruxuleante de uma lâmpada de 15 watts. “É para economizar”, justificava o japonês quando alguém dizia que o bar dele parecia um cabaré de quinta-categoria.

Depois da segunda caipirinha, que ele dizia ter sido a supresa mais agradável que encontrara no Brasil, começou a soltar a língua. Contou como se estivesse me contando seu maior segredo, mostrou-me uma carteira de identidade da Marinha Argentina. Acrescentou que tinha a patente de capitão-de-fragata e que no auge do regime militar portenho comandara uma base de operações ligada à Escola de Mecânica da Armada, a ESMA, de triste memória.

No curso da conversa revelou que nesse local, camuflado como uma empresa de nome Automotores Orletti, milhares de presos políticos foram torturados e mortos. Disse mais: perseguido em seu país, entrara clandestinamente no Brasil. Como duvidei da autenticidade da identidade, Hector abriu a bolsa que carregava a tiracolo e me mostrou uma pistola calibre 45 que trazia no cabo a insígnia da ESMA. Aquilo bastou para eu crer que realmente ele era quem dizia ser.

Durante os meses em que trabalhamos juntos, fiz questão de anotar mentalmente os depoimentos que Hector me deu e ao chegar em casa passava as informações para um caderno. Assim, em pouco tempo tinha em mãos um dossiê sobre seu papel no período de repressão que marcou o auge da Operação Condor, montada para caçar opositores às ditaduras que os militares sustentavam em Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile. Em síntese, como seu maior feito ele se gabava de ter comandado o desmantelamento de um “aparelho” subversivo, ação durante a qual matou dois casais de uruguaios e levou embora um bebê, que horas depois entregou a um oficial do serviço de inteligência, seu amigo.

Quando fui trabalhar no jornal O Estado de S. Paulo, o Estadão, no final de 1979, Marcos Wilson estava voltando de Buenos Aires, onde fora correspondente do Grupo Estado. Iniciada a amizade que nos une até hoje, deu-me então a coceira de lhe falar sobre as anotações dos tempos do Jornal da Cidade. Sua reação foi de espanto, pois muito do que Hector me revelara batia com as suas suspeitas e com as informações que trouxera da Argentina. Mesmo assim achou prudente buscar uma segunda opinião.

Dias depois veio até mim e disse-me que consultara um amigo que trabalhava na agência de notícias, a espanhola Efe, e que também morara na Argentina. A reação do correspondente espanhol, contou, foi de espanto maior que o dele. Chancelou quase todas as informações, exceto algumas que não podia autenticar por falta de maiores dados. Alertou que aquilo tudo era uma bomba, pois pela primeira vez um militar argentino confessava a autoria de assassinatos de civis.

Foram quase dois anos de investigações, concluídas com uma entrevista na sede do Estadão, na qual Marcos Wilson, José Maria Mayrink, Luiz Fernando Emediato, Roberto Godoy e eu sabatinamos Hector a fim de confirmar ou não as declarações que ele me dera. Ao final, recusou-se a responder a uma única pergunta: a quem entregara a menina, que descobrimos ser Mariana Zaffaroni Islas, filha do casal de uruguaios mortos por Hector – Maria Emilia Islas e Jorge Zaffaroni.

Mariana, em 2015

Soubemos então que ela era a neta que Martha Zaffaroni de Castillo buscava já havia dez anos e da qual publicara uma foto em jornais do Brasil e Argentina na tentativa de localizá-la. Nessa época, Mariana era a única criança uruguaia desaparecida que ainda não fora encontrada e seus olhos tornaram-se símbolo das marchas pelos desaparecidos. e que anos depois foi personagem de um documentário produzido pelo uruguaio Gonzalo de Paredes para a rede francesa de televisão France 2.

Com a mesma competência que marcou sua carreira, Marcos Wilson encerrou as investigações com material suficiente para um livro – que ele jamais cogitou publicar, o que eu lhe disse que gostaria de fazer no futuro. Hoje, isolado em casa por conta do Covid-19, já o estou escrevendo e ainda nem sei a quantas páginas vou chegar, pois mistura a realidade do meu passado com a ficção que criei tendo Roraima como cenário, embora todos eles baseados em fatos e personagens reais.

Voltando aos meus dias de Estadão, eram tantas informações, entrevistas, depoimentos e fotos que o material acabou resumido numa série de seis páginas, coisa impensável no jornalismo de hoje. Publicada no final de janeiro de 1983, ganhou o Prêmio Rey de España daquele ano, concedido pela Efe. Dois detalhes importantes: foi o primeiro dado ao jornalismo impresso e, embora até então a honraria privilegiasse apenas os profissionais de língua espanhola, a decisão de concedê-lo ao Estadão deveu-se ao fato de que se tratava de material ligado diretamente a um país de fala castelhana e republicado por jornais do Brasil e do exterior.

Assim que as reportagens saíram, Martha Zaffaroni foi bater na redação. Emocionada, contou que as informações de Gulberti confirmavam as suas suspeitas: dos quatro que ele matara, dois eram seu filho Jorge e sua nora Maria Emilia. Portanto, o bebê de 18 meses que ele poupara só podia ser mesmo sua neta Mariana. Pediu-nos então, desesperada, que a colocássemos frente a frente com o militar, pois tinha esperança de que a ela Hector contaria sobre o paradeiro da menina, então já com cerca de 11 anos. Para isso, fui atrás do argentino. Localizei-o no interior paulista, trabalhando numa gráfica em Rio Claro, e depois de muita negociação convenci-o a ir comigo ao Rio. Fiz o encontro dos dois no restaurante Taberna do Leão Azul, na Cinelândia, e se ele contou o que Marta queria saber, não sei, pois ambos guardaram segredo dessa conversa e eu jamais os encontrei novamente.

Mais tarde, Ester Gatti, mãe de Maria Emília, recebeu em Montevidéu documentos que lhe foram enviados depois da morte de Martha, encontrados no apartamento dela em São Conrado. Somando essas informações com as outras que já tinha, a avó materna lançou um livro e nele está, num capítulo inteiro, a matéria que fiz com Martha e Hector, publicada no Estadão em julho de 1983. Depois de muito tempo procurando, Ester Gatti finalmente localizou Mariana em 1992 e esta pôde enfim recuperar sua verdadeira identidade.

Maria Ester Gatti, fundadora da Associação de Mães e Parentes de Uruguaios presos durante a ditadura, morreu dia 5 de dezembro de 2010 em Montevidéu. Com ela foi-se mais um pedaço da minha vida de jornalista e de uma das melhores reportagens investigativas que, junto com as de meus colegas, levaram minha assinatura. Restam-me apenas as lembranças de Mariana, que um dia, menina de olhos lindos, de certa forma ajudei a ser resgatada das mãos da ditadura argentina. E que, certa e infelizmente, não terei a felicidade de conhecer…

PS: Para minha felicidade, e antes de partir deste mundo, Deus e a tecnologia me deram um presente inestimável: encontrei Mariana no Facebook e pude, pelo menos brevemente, conversar com ela. Minha emoção maior foi ler em sua página, em resposta a prints da série que o jornal O Estado de S. Paulo publicou em janeiro de 1983: “Muchas gracias, Plinio. Que recuerdos!!! Usted eres una parte inmejorable de mi vida”. Fui ao dicionário de espanhol e descobri que sou parte inarredável da vida dela. Que recompensa maior eu poderia almejar? Valeu a pena o que ouvi em junho de 1978 naquela fria tarde de um domingo de inverno na mesa de um bar e restaurante em Jundiaí…

Plínio Vicente da Silva

Plínio Vicente da Silva, editor de Opinião, Economia e Mundo do diário Roraima em Tempo, em Boa Vista, para onde se mudou em 1984, assíduo colaborador deste espaço, brinda-nos com mais uma bela história.


Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para baroncelli@jornalistasecia.com.br.

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