É preciso falar dele

Paulo Vieira Lima foi meu sócio, parceiro, amigo, confidente. Foi também assessor de imprensa da Faesp e da IR Comunicação, chefe de Reportagem da CBN, coordenador da Comissão de Assessores de Imprensa do Sindicato dos Jornalistas de SP, coautor de vários livros-guias editados pelo mesmo Sindicato dos Jornalistas, diretor da Faculdade de Jornalismo e Arquitetura da Universidade de Guarulhos, apresentador de programas na Rádio Mega Brasil Online, colunista do Brasil Econômico. Foi bom filho, bom marido, bom pai e excelente avô.

Tinha, pois, um currículo humano e profissional que não deixa dúvidas sobre seu caráter, sua capacidade e seu carisma.

Mas talvez os traços mais marcantes de sua passagem por aqui foram o senso de humanidade e o bom humor. Este, impagável.

O primeiro contato que tive com Paulinho, como todos o chamávamos, foi por volta de 1982, na campanha pela sucessão de Lu Fernandes no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Eu integrava a chapa de oposição, liderada por Gabriel Romeiro, e coordenava a campanha junto aos assessores de imprensa. Não sabia que Paulo, então assessor de imprensa da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), mais do que simpatizante, já militava no Sindicato… na situação. Encontrei-o convalescendo de uma cirurgia, salvo engano, de vesícula, e mesmo sabendo que eu representava a oposição tratou- me com uma fidalguia que jamais eu esqueceria vida afora.

Desde então, a vida sempre nos manteve próximos, exceção a esses últimos meses, quando a pandemia provocou um pandemônio na vida de todos.

Fomos parceiros na Comissão dos Assessores do Sindicato por décadas, de diretoria comercial do próprio Sindicato em projetos como o jornal Unidade e os livros-guias Fontes de Informação, Guia Brasileiro de Assessoria de Imprensa & Comunicação Empresarial, Colunistas Brasileiros e Cursos para Jornalistas no Exterior (todos pela Puente, dirigida por nós dois, mais Cecília Queiroz).

Montamos juntos o Fontes Online, primeiro projeto online que buscava levar para a imprensa um substituto digital do conhecido “seboso”, a agenda em papel que circulava nas redações, quando ele, no comando, montou um time de estagiários inesquecível, integrado, entre outros, por Fernando Soares, há vários anos nosso editor no J&Cia.

Organizamos cursos, integramos júris, participamos de encontros de assessores Brasil afora, fomos coautores do Manual de Assessoria de Imprensa da Fenaj, elaboramos dissídios coletivos dos assessores, enfrentamos juntos ataques covardes contra nossa atuação no Sindicato (e vencemos).

Certa vez, lá pelos idos de 1992, eu, ele e Zelão Rodrigues decidimos montar uma loja de licores no Multishop, na Vila Mariana, em São Paulo, para aproveitar as vendas de final de ano. A namorada de um outro amigo jornalista fabricava os licores e nós os revendíamos na loja, que tinha como vendedores parentes nossos que estavam no desvio. Ao final, conseguimos um “lucro” de uns mil dólares cada um e mais umas 10 garrafas de licores, da sobra do estoque. Nunca mais repetimos aquela aventura.

Em outra passagem, eu estava fazendo a edição semanal do então FaxMOAGEM (atual Jornalistas&Cia), quando, por volta das 11 horas da manhã, ele chega e conta sobre a morte de um colega jornalista, Fernando Coelho. Aquilo mudou o fechamento e transformou- se na maior barriga de nossa história, pois, de fato, havia falecido um jornalista chamado Fernando Coelho, mas era homônimo daquele que involuntariamente matamos. Corrigimos a informação, mas o estrago estava feito e depois entrou para o folclore de nossa história.

As blagues, então, eram muitas. Como esquecer o dia que ele convidou a saudosa Regina Meira, então secretária da ABI, cuja sede ficava, à época, no mesmo prédio do Sindicato dos Jornalistas, ali na Rego Freitas, para comer um churrasco na hora do almoço. Depois de 15 minutos caminhando a pé pelo Centro da cidade, sob um sol inclemente, ele para em frente a um carrinho que serve churrasco grego e diz para ela: “Pode pedir, que eu pago”. Ou o dia em que ele sobe até a sede da ABI, no primeiro andar, e fala para a mesma Regina Meira: “Corre lá embaixo que o Nabor está chegando e quer falar com você”. O Nabor era um diretor do Sindicato e da ABI e ela, ingênua, correu lá e quando se deu conta viu que estava entrando pelo corredor térreo do prédio um caixão de defunto. Era o corpo do Nabor, que tinha morrido e seria velado no Sindicato.

Em outra passagem, esta na CBN, onde era chefe de Reportagem, haviam convidado para os estúdios um dos herdeiros do trono do Brasil, da família Orleans e Bragança. O ator Cacá Rosset, ao ficar sabendo da visita, não teve dúvidas, vestiu-se de Ubu-Rei e foi para os estúdios para ter um tête-à-tête de rei para rei. Foi um fuá, ao vivo.

Em outra, acompanhando José Paulo Laniy, foram até o apartamento do dramaturgo Plínio Marcos para combinar um trabalho de assessoria de imprensa. E aproveitariam para almoçar. Ao chegarem, Plínio abre a porta e, ao ver Paulinho, foi logo falando: “Pô, você trouxe esse cara com esse barrigão… ele vai comer toda a minha galinha”.

Sempre que saíamos às terças-feiras, logo após as reuniões da Comissão de Assessoria de Imprensa do Sindicato, para comer pizza, a dele, invariavelmente era uma de cogumelos, de que ninguém gostava. Quando as pizzas chegavam, na hora de escolher os primeiros pedaços ele, de sacanagem, pedia um de outro sabor e, rindo, dizia: “A minha já está garantida”.

Tempos atrás, coisa de cinco ou seis anos, deixou todos preocupados quando teve de fazer a cirurgia dos quadris, para a implantação de próteses, o mesmo mal que acometeu o Rei Pelé. Foram cerca de dois anos de tratamento e afastamento, mas, guerreiro, voltou e retomou suas atividades, entre elas a colaboração com a Mega Brasil, o curso de Direito e o trabalho com os filhos, no escritório de advocacia que montaram, dizendo, embevecido, que fora contratado como estagiário de Paulinho e Tati.

Ia formar-se em Direito este ano. Não deu tempo.

Paulinho já está fazendo falta.

Eduardo Ribeiro

Eduardo Ribeiro, diretor deste Portal dos Jornalistas, presta homenagem ao amigo Paulo Vieira Lima, falecido em 5 de agosto.


Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para baroncelli@jornalistasecia.com.br.

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