A imprensa esportiva e o coronavírus

O coronavírus afetou significativamente a imprensa esportiva (Foto: Shutterstock/Reprodução)

Por Victor Félix, da equipe de J&Cia

A pandemia do novo coronavírus afetou dia a dia dos veículos jornalísticos no mundo inteiro. Todos os profissionais e editorias foram atingidos com o distanciamento social proposto pela Organização Mundial da Saúde. Mas a imprensa esportiva foi, sem dúvidas, uma das mais afetadas nesse sentido. Com a suspensão das competições, o cotidiano dos jornalistas esportivos mudou significativamente: debates, entrevistas, videoconferências e até reprises ocupam a grade das grandes emissoras esportivas ao redor do globo, que buscam sobreviver e manter a audiência em um período sem esportes. 

Nesse contexto, J&Cia busca entender como está sendo o processo de adaptação da imprensa esportiva em meio à pandemia do novo coronavírus: como seguir adiante, manter a audiência, oferecer conteúdo relevante aos seus consumidores, mesmo sem os grandes eventos esportivos

Marcio Bernardes

Nesta primeira edição, conversei com Marcio Bernardes, âncora do Debate Bola (pós-jogo) da Rádio Transamérica FM, e Éder Luiz, diretor de esporte que contou como e o que a emissora têm produzido, dentro das possibilidades, sobre esportes. Uma das mudanças estabelecidas pela rádio foi “enxugar” o tempo médio de programação: “Nós fazíamos em média nove horas de programação esportiva, além das transmissões. Com elas, esse número fica ainda maior; agora, devido às circunstâncias, estamos fazendo aproximadamente cinco horas de programação esportiva”, declarou. 

Em relação ao conteúdo sobre esportes, é inevitável que os veículos tenham que mudar suas grades, uma vez que todas as competições estão suspensas. Sobre a Transamérica, o âncora explicou que a programação resume-se a debates, especiais e entrevistas: “Temos entrevistas especiais com jogadores e com personalidades, participação de correspondentes que nos trazem as últimas notícias dos clubes, especiais − como um de Fórmula 1, veiculado aos finais de semana − e muito debate, sobre os mais diversos assuntos, como o custo do futebol, problemas econômicos enfrentados pelos clubes por causa da pandemia, cortes nos salários de jogadores e funcionários, ou seja, tudo o que é possível produzir no momento”. 

Um ponto que ele destacou é que a equipe traz para os ouvintes, além do conteúdo esportivo, as últimas notícias sobre o coronavírus, com dados, estudos e recomendações: “Em todas as aberturas de bloco, reservamos alguns minutos para falar sobre o coronavírus, trazer as últimas notícias para os ouvintes. Focamos sempre em trazer notícias otimistas, mostrar um lado mais positivo sobre a situação que estamos vivendo, como, por exemplo, dados sobre o número de pessoas que se curaram da doença. Acreditamos que nosso trabalho nesse sentido serve tanto para atender à demanda dos ouvintes que querem saber sobre as últimas notícias do seu clube do coração, ter o seu momento de descontração, e ainda assim se manter informado sobre o coronavírus, sobre o contexto crítico que estamos vivendo”. 

Sobre as recomendações de saúde estabelecidas por entidades especialistas na área, o âncora do Debate Bola contou que os funcionários que pertencem à faixa de risco estão trabalhando remotamente. É o caso dele próprio e, entre outros, Henrique Guilherme, Paulo Roberto, José Eduardo Savoia, Oswaldo Maciel e Roberto Carmona. “Eles montaram até um miniestúdio para poderem participar das transmissões”. 

Éder Luiz

Éder Luiz, diretor de esportes da Transamérica, conta que a emissora tomou os cuidados necessários com os trabalhadores do grupo de risco, mas manteve a equipe inteira trabalhando:  “A estrutura esportiva segue trabalhando, fizemos questão de manter todos produzindo a todo vapor, pois o DNA da rádio está muito ligado ao segmento esportivo, é o nosso principal produto, e agora mais do que nunca é nosso dever seguir com o trabalho, considerando o contexto atual. Estamos seguindo as recomendações de saúde e mantendo os profissionais do grupo de risco em quarentena, e mesmo estes seguem trabalhando remotamente”. Marcio aponta que a Transamérica “é a única rádio em São Paulo cuja equipe inteira segue trabalhando a todo o vapor, sem exceções, remota ou presencialmente”.

O diretor de esportes destaca também o aumento na audiência de rádio no País. Segundo dados do Kantar Ibope Media, divulgados em 9/4, houve um aumento de 20% na audiência em meio à pandemia. “Ficamos um pouco surpresos com os dados, mas estou orgulhoso, pois, mesmo sem futebol temos mantido um nível interessante de qualidade, o rádio em geral cresceu muito nesse período”, comentou Éder. Outros dados relevantes apontados pelo Ibope são que 70% dos entrevistados disseram ouvir a mesma quantidade ou mais após o isolamento social, e 50% afirmou que ouve rádio para se entreter/distrair, o que inclui conteúdos esportivos.

Entre os vários impactos que a pandemia do coronavírus trouxe à imprensa como um todo, destaca-se a crise financeira, que está levando os veículos a repensarem os contratos de muitos funcionários, com direito a demissões e cortes salariais. Não é o caso da Transamérica, segundo Éder: “Obviamente, devemos levar em conta os impactos econômicos causados pelo coronavírus, mas por enquanto os empregos estão mantidos. Eu mudei de atuação aqui na Transamérica. Antigamente, fazia uma gestão de conteúdo, os profissionais eram contratados diretamente por mim, mas agora sou um executivo da rádio, os contratados respondem diretamente à Transamérica, mas até agora os profissionais seguem mantidos”. 

Nesse sentido, Marcio destaca o trabalho de Éder e de Fábio Faria, diretor-geral da rádio: “Devo elogiar a conduta deles neste momento que vivemos. Esta reformulação inteligente, de enxugar o tempo de programação, manter a equipe de esportes inteira trabalhando e tomar os devidos cuidados com os funcionários de risco são fruto de um trabalho intenso e de qualidade dos dois”. 

Fábio Faria

Marcio Antônio Bernardes formou-se em Jornalismo pela Universidade da Associação de Ensino de Ribeirão Preto (Unaerp/SP). Começou a carreira em 1968, como repórter esportivo da Organização de Rádio e Televisão do Colorado. Passou por diversos veículos ao longo da vida, como Diário da Manhã, Jovem Pan, Rádio Globo, TV Manchete e TV Gazeta, atuando como colunista, repórter, comentarista e apresentador. Está na Transamérica AM desde 2000.

Com muitas coberturas esportivas importantes ao longo da carreira, como oito Olimpíadas e cinco Macabiadas, recebeu muitos prêmios por seu trabalho, entre os quais destacam-se Troféu Melhores do Rádio 1976, na categoria Repórter do Ano; Personalidade do Ano de 1982; Troféu Ford-Aceesp de Jornalismo Esportivo 1985/1986, na categoria Melhor Repórter; medalhas Destaque Jornalístico dos Jogos Olímpicos 1988 e 1992; Troféu Fifa 1993, como Destaque Jornalístico; Diploma do Sesquicentenário de Ribeirão Preto em 2006; Prêmio José Bonifácio 2007; e sete Troféus Nakata, de 1990 a 1996, na categoria Melhores do Rádio Esportivo.

Éder Luiz de Faria Morbi começou a carreira no rádio aos 13 anos, como auxiliar técnico da Difusora de Santa Cruz do Rio Pardo, no interior de São Paulo, sua terra natal. Atuou como locutor esportivo em rádios de Marília, como Verinha, Clube e Itaipu FM. Foi contratado pela Bandeirantes AM, onde ganhou destaque como narrador de Fórmula 1, transmitindo mais de 170 prêmios, incluindo dois títulos mundiais de Nelson Piquet e três de Ayrton Senna. Considerado o “Dez do Rádio”, ainda na Bandeirantes, narrou Copas do Mundo e Olimpíadas. Também passou por RedeTV e Record TV.

Ao inovar com seu bom humor as transmissões, foi para a Transamérica em 2000, onde hoje é narrador das principais modalidades e competições, como Campeonato Paulista, Brasileirão, Libertadores, Mundial de Clubes, e Olimpíadas, além de dirigir esportes da rádio.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *