Três causos com pepitas de ouro que, depois de se tornarem texto, acabaram virando saudade

Por Luiz Roberto de Souza Queiroz

Primeiro, a gente entra na mata, corta um pedacinho de cipó oco, tampa as duas pontas, pede para o feiticeiro abençoar e passa a usar esse tubinho pendurado num barbante, em volta do pescoço.

Depois enche a bateia de cascalho do fundo do riacho. Urina em cima, “porque se não faz xixi, o olho não vê a pepita de ouro, o xibiu (diamante) que tá na bateia”. Mais importante: achou o diamante, coloca logo na boca e diz muito palavrão, “senão a pedra escapa, cai na água e não se acha mais”. Só depois disso é que se guarda a pedrinha ou a pepita no tubinho do pescoço.

Essas foram as orientações que recebi (e, como foca que sempre fui, obedeci cegamente), quando me tornei garimpeiro por um dia no Norte do Mato Grosso, já lá se vão 50 anos, para contar a história no Estadão.

Nem lembro mais se o texto chegou a sair, mas recordo a cara do peão que ensinou. Quando vi pedrinhas de cristal de rocha na bateia e perguntei como distinguir o cristal do diamante, ele respondeu: “Olha, seu moço, num se preocupe não, quando for diamante ele brilha tanto, mas tanto mesmo, embaixo do Sol, que ninguém precisa dizer que é ele, a gente sabe na hora”.

Essa foi a primeira história. Diamante não rendeu, mas achei umas “palhetinhas” de ouro que “ponhei” no tubinho que se perdeu com o tempo, neste mundo velho sem porteira.

O segundo causo foi anos depois, na Prefeitura de São Paulo. Estava sendo cavado o túnel sob o Ibirapuera e os ecochatos garantiam que o Ibirapuera ia afundar, o lago vazaria para dentro do túnel e para mostrar que estavam errados o prefeito Jânio Quadros entrou no túnel com os jornalistas.

A visita estava chata, fiquei conversando com uns operários, um deles vindo de Minas, que descobrira no fundo do túnel fôrmas (sic), as pedras negras que são sinal de ouro de aluvião no fundo dos rios.

Houve uma aposta entre os trabalhadores. O mineiro encheu o capacete de cascalho, lavou, achou três minúsculas pepitas de ouro, comentei com o prefeito. O Jânio chamou o Aluane Neto, da Jovem Pan, que chegara na boca do túnel de helicóptero, e virou manchete: Encontrado ouro no túnel do Ibirapuera.

Jânio mandou mensagem oficial para Brasília sobre a “descoberta”; criado o factoide, a imprensa só falava no ouro. Táta Gago Coutinho, que assessorava o prefeito, mandou as pepitas para o IPT analisar (era ouro mesmo, mas sem importância, muitos córregos da região têm essas lasquinhas de ouro que não valem nada).

O importante é que a história cresceu, os ecochatos foram esquecidos, o túnel foi concluído, o lago não vazou, as pepitas ficaram em casa. Elas se perderam numa das muitas mudanças que fizemos − foram tantas que, brincando, dizemos que somos saltimbancos, não paramos em lugar algum.

A terceira história relembrei no início do ano, quando, remexendo uma gaveta, Táta (que hoje é minha mulher), achou um colar com uma bolinha de vidro e dentro, três pepitas de ouro.

Foi no Norte do Canadá, a caminho do Alasca, aonde íamos pesquisar para nossa tese em inglês (Birds Migration from North America to Brazil), que resolvemos fazer turismo numa mina de ouro que não funcionava mais.

Não funcionava como mina, mas sim como polo turístico. Visitamos as máquinas enferrujadas, curtimos o almoço “igualzinho dos mineiros do século XIX” e, de sobremesa, me entregaram um saquinho de couro com cascalho, uma bacia de aço e disseram para lavar o cascalho numa das torneiras enfileiradas numa espécie de longo cocho.

Achei três pepitas, talvez duas gramas de ouro. Uma atendente sorridente veio “vender” seu produto: “Beleza de ouro que o senhor achou, a gente pode fazer um pedantif, colocar o ouro numa ampola de vidro, sua senhora vai ficar orgulhosa de usar no pescoço o ouro que o próprio marido garimpou”. É claro que, turistas bobões, mandamos fazer o colarzinho que foi achado esquecido, no fundo da gaveta.

Olhei a bolinha de vidro. O ouro dentro dela refulge ainda, continua brilhante, como continua, 36 anos depois, ainda brilhando, o nosso amor.

Luiz Roberto de Souza Queiroz

A história desta semana é novamente de Luiz Roberto de Souza Queiroz, o Bebeto, assíduo colaborador deste espaço, que esteve por muitos anos no Estadão e hoje atua em sua própria empresa de comunicação.


Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para baroncelli@jornalistasecia.com.br.

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