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Michelle Bolsonaro perde processo contra IstoÉ e terá de pagar R$ 15 mil

A primeira-dama Michelle Bolsonaro perdeu no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) um pedido de indenização da revista IstoÉ por danos morais. No recurso, que já havia sido negado em primeira instância, Michelle afirmou que a matéria O esforço de Bolsonaro para vigiar a mulher de perto, publicada em fevereiro de 2020, retratou-a de maneira machista.

Na decisão, os magistrados declararam que o texto não pode ser considerado ofensivo ou difamatório. O desembargador J.B. Paulo Lima, relator do processo, afirmou que, “na posição que ocupa, (Michelle Bolsonaro) está permanentemente sujeita a ter a vida esmiuçada porque suas atividades são, em geral, de interesse público, até porque muitas vezes pagas com dinheiro público”.

O tribunal determinou também que a primeira-dama pague R$ 15 mil em honorários à advogada da revista Lucimara Ferro Melhado. Cabe recurso da decisão.

Na ação, Michelle pedia indenização de R$ 100 mil além de uma retratação, pois, segundo ela, a IstoÉ insinuou que estaria tendo um caso extraconjugal com o então ministro Osmar Terra. Os advogados da primeira-dama disseram que a revista baseou-se em informações mentirosas e tratou Michelle “de maneira machista, como se a primeira-dama fosse um objeto ou coisa a ser ‘vigiada’ por alguém”.

Em sua defesa, IstoÉ negou as acusações, declarou que não se pautou em inverdades, não fez qualquer insinuação de caso extraconjugal, e que apenas “narrou questão pessoal da primeira-dama e do seu marido que tinha repercussão política e interesse público dadas as movimentações realizadas pelo presidente Bolsonaro na troca do ministro da Cidadania”.

Em dezembro, a juíza Adriana Basso, da 3ª Vara Cível de São Paulo, considerou que a publicação ficou “no limite da liberdade de imprensa e de informação”. E, agora, o TJ-SP manteve a decisão de absolvição.

José Henrique Mariante é o novo ombudsman da Folha

José Henrique Mariante - Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress
José Henrique Mariante - Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress

José Henrique Mariante assumiu em 10/5 o cargo de ombudsman da Folha de S.Paulo. Ele substituiu a Flávia Lima, que na mesma data se tornou editora de Diversidade do jornal. Com mandato de um ano, renovável, Mariante será o 14º profissional a exercer a função, criada 1989. A primeira coluna dominical do novo ombudsman será publicada em 30 de maio.

Na Folha desde 1991, Mariante entrou no jornal por meio do programa de trainee. Em 30 anos, exerceu diversos cargos, entre eles os de repórter, editor de Esporte e secretário-assistente de Redação (em dois períodos diferentes). Ultimamente, era o responsável pela edição da versão impressa do jornal.

“Sempre li a Folha, e ao ver um anúncio no jornal um dia eu me inscrevi no programa de treinamento”, relembra Mariante, que curiosamente não era formado em Jornalismo quando foi aprovado no processo seletivo, mas sim em Engenharia de Produção, pela FEI. “A Folha sempre deu oportunidade para quem não tinha a formação tradicional de jornalismo”.

José Henrique Mariante - Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress
José Henrique Mariante – Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress

Entre seus principais desafios, será responsável por analisar e criticar o trabalho da Folha em um momento de profunda transição pela qual passa o jornalismo no Brasil e no mundo. “Passamos por uma transformação de negócio e por uma rápida mudança tecnológica, tudo muito abrupto. Não só nós, a Folha, ou mesmo o jornalismo. É o mundo todo passando por isso. Temos milhões de pessoas que se acham jornalistas, e que têm direito a isso, mas ao mesmo tempo não querem seguir os manuais, as regras, as leis do bom jornalismo”, diz.

Ele prevê ainda que o cenário para os profissionais de imprensa seguirá tenso nos próximos meses. “Hoje em dia o puro exercício do jornalismo assemelha-se a um conflito. Você sai para a rua com receio do que possa acontecer. Temos vários exemplos de assédio e abuso. Batemos recorde de jornalistas agredidos, física ou moralmente”, afirma.

Antes de Mariante e Flavia Lima, atuaram como representantes dos leitores Caio Túlio Costa, Mario Vitor Santos, Junia Nogueira de Sá, Marcelo Leite, Renata Lo Prete, Bernardo Ajzenberg, Marcelo Beraba, Mário Magalhães, Carlos Eduardo Lins da Silva, Suzana Singer, Vera Guimarães e Paula Cesarino Costa.

Jair Bolsonaro é a autoridade que mais bloqueia usuários no Twitter

A Abraji e o Congresso em Foco identificaram que Bolsonaro é a autoridade que mais bloqueia usuários no Twitter.
A Abraji e o Congresso em Foco identificaram que Bolsonaro é a autoridade que mais bloqueia usuários no Twitter.

A Abraji e o Congresso em Foco identificaram através da campanha Bolos AntiBlock que o presidente Jair Bolsonaro é a autoridade que mais bloqueia usuários no Twitter. Lançada em abril deste ano, a plataforma, que monitora mais de 600 perfis de autoridades na rede social, verificou que a conta do presidente é responsável por 20% dos bloqueios realizados.

A iniciativa é um protesto virtual contra bloqueio de jornalistas, influenciadores e outros profissionais por autoridades públicas no Twitter. De acordo com os dados mais recentes, Bolsonaro bloqueia em média 240 vezes mais do que um deputado federal. Além disso, não foram identificados bloqueios por parte do vice-presidente Hamilton Mourão, sendo Bolsonaro o único responsável pelo percentual, que corresponde a 82 bloqueios.

Os mais de 500 deputados federais são responsáveis por 43% dos blocks.

A campanha mostrou também que os jornalistas são os usuários mais bloqueados, correspondendo a 20% de todas as pessoas que testaram a plataforma. Em seguida, vêm os profissionais do direito, 10%, e publicitários, 8%.

Os motivos que mais geram bloqueio no Twitter, de acordo com o levantamento, é fazer críticas à conduta ou à administração da autoridade, 15%. Manifestar opinião contrária, ironizar ato, figura pública ou apoiadores e levantar questionamento sobre a veracidade da informação divulgada estão empatados com 14%.

Para Artur Pericles Lima Monteiro, advogado e coordenador de pesquisa na área de liberdade de expressão do InternetLab, os bloqueios de Bolsonaro limitam a liberdade de expressão dos usuários: “Quando o presidente bloqueia alguém na sua conta do Twitter, onde ele anuncia decisões importantes de sua atividade, o Estado está manifestando a rejeição de determinado ponto de vista. É uma censura ideológica do usuário”.

Desenvolvido pelo FCB Studio, o levantamento é inspirado nas receitas de bolo publicadas nas páginas de jornais censurados no período da ditadura militar. Ao conectar o perfil do Twitter no site, a ferramenta rastreia se o usuário foi bloqueado por alguém no exercício do mandato e gera um bolo único em cryptoarte. Ao todo, foram identificados 409 bloqueios na rede social realizados por autoridades públicas.

Anuário aponta que agências de comunicação faturaram R$ 3 bilhões em 2020

Com 172 páginas, versão digital do Anuário da Comunicação Corporativa acaba de ser lançada

Publicação também destaca que o setor empregou quase 15.300 profissionais no mesmo período

O setor das agências de comunicação, hoje integrado, no Brasil, por cerca de 1,500 empresas, faturou R$ 3 bilhões em 2020, total ligeiramente inferior ao faturamento de 2019, que foi de R$ 3,02 bilhões. E empregou, no mesmo período, 15.228 profissionais, a maioria jornalistas. A informação é da edição 2021 do Anuário de Comunicação Corporativa, que acaba de ser lançado, e está baseada na Pesquisa Mega Brasil com Agências de Comunicação, que reuniu a participação de 229 agências de todo o País.

A publicação, com 172 páginas, traz também o novo Ranking das Agências de Comunicação, liderado mais uma vez pela FSB Comunicações, tendo, na segunda colocação, o Grupo In Press. Ela faz ainda um mergulho no universo ESG, que trata dos fatores ambientais, sociais e de governança nas corporações; entra de forma profunda no universo das métricas e mensuração da reputação; e ressalta as novas tendências da comunicação corporativa no pós-pandemia.

A versão digital já está disponível no site da Mega Brasil e seu acesso é livre e grátis. A impressa poderá ser adquirida na Mega Brasil por R$ 100 (mais R$ 20 de postagem/remessa) a partir de 15 de maio. Outras informações com Célia Radzvilaviez, pelo [email protected].

Nova etapa do Repórter do Futuro recebe inscrições até 20/5

A Oboré aceita até 20/5 inscrições para a 14º edição do Descobrir São Paulo, que integra o Descobrir-se Repórter.
A Oboré aceita até 20/5 inscrições para a 14º edição do Descobrir São Paulo, que integra o Descobrir-se Repórter.

A Oboré, em parceria com a Escola do Parlamento da Câmara Municipal de São Paulo aceita até 20/5 inscrições para a 14º edição do curso Descobrir São Paulo, Descobrir-se Repórter. Um dos módulos mais tradicionais do Projeto Repórter do Futuro, o treinamento abordará a cobertura jornalística da cidade sob o tema São Paulo tem jeito? Em pauta, o plano diretor estratégico da cidade.

As aulas acontecerão via Zoom com 30 vagas − sendo dez delas destinadas a estagiários de comunicação dos gabinetes legislativos e outros setores da Câmara Municipal.

O curso, gratuito, que conta com o apoio da Abraji e do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais, receberá Aldo Quiroga, editor-chefe da TV Cultura, e representantes da Comissão de Política Urbana, Metropolitana e Meio Ambiente da Câmara Municipal. A coordenação será do professor e jornalista André Deak.

A carga horária é de 90 horas, divididas em atividades presenciais, pesquisa e leituras, e atividades práticas. O critério de certificação é ter presença em pelo menos 75% dos encontros e no mínimo uma produção jornalística ao final do módulo. A reunião para seleção acontecerá no sábado (22/5), às 9h30, em formato remoto.

E mais:

O Tempo ganha editoria multiplataforma

Mais Conteúdo, a mais recente editoria de O Tempo, foi desenvolvida exclusivamente para a produção de reportagens de fôlego, com materiais em diferentes formatos. Além do impresso, a nova editoria leva conteúdo aprofundado também para a Rádio Super e para o portal. Junto com ela, nasceram Mais Doc e Mais Entrevista. 

A novidade é que algumas reportagens serão transformadas em documentários e, ao fim de cada matéria, haverá um programa de entrevistas que poderá ser acompanhado pelas plataformas digitais de O Tempo. A equipe é composta por Renata Nunes, Queila Ariadne, Tatiana Lagôa, Rafael Rocha e Izabela Ferreira Alves.

O conteúdo poderá ser acessado por extensa audiência. Os jornais impressos do grupo têm uma circulação de 233,4 mil exemplares; as lives feitas em todas as plataformas chegam à média de 75,6 mil pessoas; o portal tem acesso de 71 milhões de internautas e as redes sociais, de 46,2 milhões. Ao todo, o grupo alcança cerca de 117,5 milhões de pessoas.

Record demite apresentadora Carla Cecato após 16 anos de casa

Com três meses de casa, Carla Cecato deixou a Jovem Pan na última terça-feira (20) por divergências no veículo e aumento na carga de trabalho
Com três meses de casa, Carla Cecato deixou a Jovem Pan na última terça-feira (20) por divergências no veículo e aumento na carga de trabalho

A apresentadora Carla Cecato foi demitida da Record TV na quinta-feira (13/5) após 16 anos de casa. Segundo o Notícias da TV, do UOL, ela recebeu um e-mail que comunicava seu desligamento da empresa e ta suspensão de sua conta corporativa. Carla compareceu à Record, onde foi notificada presencialmente por sua chefia imediata, sobre a interrupção do vínculo. Ela comandava a edição de sábado do telejornal Fala Brasil.

Carla começou a carreira na Record em 2005, como repórter do Jornal da Record. Passou por telejornais locais do Rio de Janeiro e de rede nacional, como o Domingo Espetacular. Estreou como apresentadora em 2008, na revista eletrônica Tudo a Ver, e estava no Fala Brasil desde 2009.

Em publicação no Instagram, declarou que está “disponível para trabalhos, parcerias comerciais, apresentações, palestras, tudo que fiz e faço há muito tempo, e nos últimos 16 anos na Record TV. Uma nova fase começa agora! E eu conto com você mais do que nunca!”.

Carla Cecato indicou que pretende produzir conteúdo no Instagram e em seu canal no YouTube: “Creio que a internet é o novo meio de comunicação e eu quero muito trazer minhas senhorinhas, minhas amigas, amigos, para o meu canal aqui e no YouTube”.

Fernão Silveira assume Diretoria Global na Comunicação da Stellantis

Fernão Silveira / Divulgação Stellantis
Fernão Silveira / Leo Lara/Studio Cerri

Foi confirmada nesta semana a nomeação de Fernão Silveira para o posto de diretor Global de Estratégia, Planejamento e Monitoramento de Performance da área de Comunicação Corporativa da Stellantis.

O próprio executivo havia adiantado a notícia no final de abril, durante live de lançamento do novo Jeep Compass. Após um período de transição, em que suas atribuições como diretor de Comunicação Corporativa e Sustentabilidade para América Latina foram repassadas a Fabrício Biondo, novo responsável pelo setor, a mudança pôde finalmente ser oficializada.

Em sua nova posição, Fernão atuará ao lado de outros sete diretores globais, responsáveis por diferentes áreas e atribuições, todos respondendo diretamente a Bertrand Blaise, VP Executivo e Chief Communication & CSR Officer da Stellantis.

“Terei como uma de minhas missões auxiliar na estruturação do novo time global de Comunicação Corporativa, trabalhando em estreita parceria com as marcas, regiões e funções do grupo, além do RH”, comenta o executivo.

Fruto da fusão de dois grandes grupos automotivos – FCA e PSA –, a Stellantis vem promovendo, desde o início oficial de suas operações, em janeiro, um grande esforço para realocar e aproveitar o máximo possível de executivos dos dois grupos dentro da nova estrutura.

“Essa movimentação não é diferente na Comunicação global do grupo, que foi dividida em quatro pilares capazes de atender a todas as necessidades da operação”, explica Fernão. “O primeiro pilar, global, é o que eu passei a integrar, e que responde diretamente a Bertrand. O segundo engloba os profissionais que cuidam das operações locais, seis no total, entre elas a da América Latina. Depois vem o pilar de brands, que engloba todas as marcas do grupo. E por fim o de profissionais de Comunicação ligados às variadas áreas do grupo, como RH, Engenharia e Tecnologia. Algumas dessas estruturas já estão bem adiantadas, mas outras ainda precisam ser reforçadas ou passar por ajustes. É um momento muito dinâmico, de muitas movimentações, e coordenar isso será justamente um dos meus principais desafios”.

Apesar da nova posição global, em princípio Fernão seguirá atuando remotamente a partir do Brasil, mesmo que sem relação direta com o dia a dia da operação latino-americana. “Claro que sempre terei uma visão mais próxima da nossa realidade, e eventualmente posso até auxiliar em alguma demanda específica, mas meu desafio será formular e liderar a estratégia global de Comunicação Corporativa da Stellantis, atuando também no monitoramento de performance e definição de KPIs da área em todo o mundo”.

Fernão Silveira / Divulgação Stellantis
Fernão Silveira / Leo Lara/Studio Cerri

Jornalista com pós-graduação em Relações Públicas e especialização em Assuntos Corporativos, Fernão Silveira iniciou a carreira como redator, repórter e mais tarde editor nas redações do Diário do Grande ABC e do portal Terra. Na área corporativa, trabalhou nas consultorias CASE Consulting e Thomas Case & Associados, na Catho Online e na Dow, onde liderou projetos regionais e globais de comunicação corporativa e de negócios, incluindo uma experiência de quatro anos e meio na sede global da companhia, em Michigan. Chegou ao mercado automotivo em abril de 2017, quando assumiu a Comunicação da Ford, e no ano seguinte transferiu-se para a FCA.

“Ao longo de minha carreira, acumulei experiência atuando tanto na comunicação local quanto global de grandes marcas. Acredito que essa experiência tenha sido fundamental para que eu recebesse o convite para esse novo desafio, onde será importante conhecer e entender os dois lados dessa moeda”, conclui o executivo.

O jornalista que escapou do Brasil para a tortura no Chile e outras histórias

Por Silvano Tarantelli

Recentemente, no Chile, por plebiscito, cerca de 80% dos participantes decidiram pela elaboração de uma nova Constituição para o país. A nova Carta vai sepultar de vez todos os resquícios que remetem a uma das mais sanguinárias ditaduras de nosso Continente, a de Augusto Pinochet (1973-1990). 

Seu regime deixou mais de 40 mil vítimas, entre as quais 3.197 mortos, e uma diáspora de 200 mil exilados. Durante o período, os regimes autoritários que tomaram conta de diversos países sul-americanos colaboram entre si. A mais famosa dessas iniciativas foi a Operação Condor, que reuniu esforços de Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai, com o apoio dos EUA, para liquidar opositores e trocar prisioneiros entre si. 

Quando os militares brasileiros intensificaram a repressão política, com a promulgação do Ato Institucional de número 5 (dezembro de 1968), o povo chileno elegeria pela via democrática o presidente Salvador Allende, dois anos depois, em 1970. 

Foi no interregno de seu governo que o Chile abrigou diversos brasileiros, alguns dos quais viriam a ocupar postos-chave na política nacional contemporânea e que tiveram de deixar o Brasil por perseguição política. 

Posteriormente, com o golpe militar de 11 de setembro de 1973, milhares de opositores chilenos, exilados brasileiros e militantes políticos estrangeiros – que não foram sumariamente assassinados − foram enviados a campos de concentração. O mais famoso deles, o Estádio Nacional do Chile, na capital Santiago, deixou de lado as partidas de futebol para ser utilizado como campo de torturas. 

Um jornalista brasileiro − com quem trabalhei anos depois e construí uma grande amizade −, esteve preso no local e de lá saiu quase morto. Foi salvo por uma campanha internacional que intercedeu para liberar os presos políticos estrangeiros. 

Vítima de várias sequelas, foi submetido a três cirurgias para se recuperar das torturas que sofreu. Escapou com um leve tremor involuntário que por vezes surgia em sua face. Na Suíça, onde foi operado e se exilou, morou durante muitos anos, aprendeu o idioma alemão, constituiu família e filhos. 

Evito revelar o nome dele pois a identidade envolve a vida de outras pessoas da família, que não sei se gostariam de ser expostas. 

Quando voltou ao Brasil, um pouco antes da anistia política de 1979, tratou de refazer a vida. Por ironia, foi obrigado a deixar o país de origem para evitar ser preso e acabou detido no Chile, por um regime que viria ser ainda mais violento que o nosso. 

Quando soube da prisão eminente no Brasil, deixou o País às pressas e não conseguiu levar a namorada que estava grávida. Reencontrou-a anos depois de seu regresso, quando ela já estava casada, com dois filhos, um dos quais o filho adolescente, que ele finalmente pode conhecer. 

O impacto do reencontro foi forte. Sentiram que apesar dos anos de separação ainda se amavam. Ela se divorciou para se casarem em seguida. Fui testemunha dessa história de amor e da cerimônia de casamento. Da união, nasceu mais uma filha. 

Meu amigo não está mais entre nós. Depois de tantas desventuras, morreu vítima de um câncer. Tudo isso e mais o fato de me relacionar com a comunidade chilena em São Paulo, por meio da Associação Brasileiro-Chilena de Amizade – de apoio a imigrantes e exilados chilenos −, despertou o meu interesse de conhecer o Chile. 

Em 1986, antes de partir, ofereci-me para ser correspondente no país ao jornal Retrato do Brasil − uma experiência de jornal diário da época, a partir de uma coleção de fascículos do mesmo nome, de muito sucesso. A iniciativa foi do jornalista Raimundo Pereira (editor do jornal Movimento, repórter e um dos fundadores da revista Veja, entre outros veículos de comunicação de grande impacto na história do jornalismo brasileiro). 

Fiz o percurso por via terrestre. Foram cerca de 60 horas de viagem de ônibus, desde São Paulo, atravessando a Argentina, pela Cordilheira dos Andes. Entrei no Chile pela vigiada fronteira argentino-chilena. 

Antes de ir, tratei de me garantir de alguma forma. Procurei o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, na época presidido por Gabriel Romeiro (TV Cultura, TV Globo, Revista Realidade), que achou estranho eu solicitar uma carta da entidade para me credenciar no Colegio de Periodistas de Chile e na Asociacion de Corresponsales de La Prensa Extranjera. 

Pedi uma carta de apresentação também para a editora do jornal, ironicamente chamada de “Política”. Apresentei apenas esta e guardei a do Sindicato para alguma eventualidade. 

Gabriel achou na ocasião, com certa razão, que aquele jornalista não estava de posse de suas faculdades mentais, conforme me disse quando o reencontrei anos depois. “Alguém pedir uma carta de recomendação a um sindicato de jornalistas para trabalhar num país sob regime de exceção? Achei que você era maluco”, afirmou. 

Quando cheguei, o Chile era um país em ebulição. Naquele ano, a oposição e os sindicatos convocaram uma greve geral, com uma série de manifestações com a intenção de derrubar o regime. 

Por segurança, os correspondentes estrangeiros que cobriam os acontecimentos organizavam caravanas de carros para registrar as manifestações nas periferias de Santiago, onde o movimento era bastante organizado. A repressão assassinaria naquele ano quatro dirigentes do Partido Comunista do Chile. 

Presenciei alguns episódios de selvageria do regime. Certa vez, estávamos em uma población, o equivalente às nossas comunidades. Os militares chegaram com caminhões e jipes equipados com metralhadoras atirando a esmo. Foi um corre-corre geral. Solidários, os moradores abriam as portas de suas casas para nos acolher. Enquanto os militares disparavam nas paredes e janelas das moradias, deitávamos no chão para não sermos atingidos. 

Cobri manifestações também no centro de Santiago. Por precaução, os jornalistas andavam sempre juntos, prontos para dar o alerta caso um de nós fosse preso. Os mais visados eram os fotógrafos. A repressão, quando os conseguia agarrar, inutilizava máquinas e filmes. 

Muitos jovens, que deixaram o Chile com os pais durante o golpe, regressaram naquele ano. Saíram crianças e retornaram adultos. Pouco conheciam do seu próprio país. Um desses jovens era o fotógrafo Rodrigo Rojas Denegri, um rapaz de 19 anos, que frequentemente estava conosco. Denegri voltara dos Estados Unidos, onde vivia com a mãe, militante política exilada naquele país.

Ele e Carmen Quintana, uma jovem chilena de 18 anos, foram detidos por uma patrulha militar na periferia de Santiago. Com requintes de enorme perversidade, os militares os espancaram, jogaram gasolina neles, ainda vivos, e puseram fogo. 

Seus corpos foram encontrados em uma vala no campo, há 20 km do local original, por trabalhadores agrícolas. Chegaram ainda vivos ao hospital, mas Rodrigo não resistiu às queimaduras; Carmen sobreviveu, com mais de 60% do corpo queimado. 

Naquele ano, estive no Chile em duas oportunidades, em um total de seis meses de estadia. Entrevistei dirigentes sindicais, políticos de oposição, militantes políticos e moradores. Foi uma das experiências mais marcantes de minha vida profissional, que interrompi quando o Retrato do Brasil encerrou suas atividades, ainda no final de 1986. 

O Chile é um país de povo bastante hospitaleiro e de uma geografia invejável, plena de contrastes entre o Norte, do Deserto de Atacama, até próximo da fronteira do Peru, e o Sul, da região dos Lagos, nos limites da Patagônia, próximo à Argentina. 

Os acontecimentos daquele ano não foram suficientes para dar fim à ditadura. Esta prosseguiu até 1989, quando enfim foi derrotada também pela via plebiscitária, numa campanha política que mobilizou a população pelo não ao regime. 

No ano seguinte, um presidente civil, Patrício Aylwin, eleito pelo voto direto, assumiria o poder. A redemocratização fez bem ao país e o tornou um dos mais prósperos da América do Sul. A nova Constituição, que será elaborada por um congresso constituinte, fechará de vez as contas do país com o passado.

Fotos: as fotos preto e branco foram tiradas do livro El Pan Nuestro de Cada Dia, dos fotógrafos chilenos Carlos Tobar, Oscar Navarro, Claudio Pérez e Paulo Slachevsky – Terranova Editores (21/11/1986)


O jornalista que escapou do Brasil para a tortura no Chile e outras histórias
Silvano Tarantelli

A história desta semana é novamente de Silvano Tarantelli, que trabalhou em A Tribuna, de Santos, A Voz da Unidade (órgão do antigo PCB) e em jornais da chamada imprensa alternativa na cobertura política nacional e como correspondente internacional, com reportagens em Uruguai, Cuba, Chile e Coreia do Norte. Há muitos anos tem atuado em assessorias de imprensa de sindicatos de trabalhadores, em campanhas políticas eleitorais, como assessor na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e em órgãos públicos do município e do Estado de São Paulo. Foi diretor do Sindicato dos Jornalistas. Hoje é assessor de imprensa da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania do Município de São Paulo.

Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para [email protected].

Jornalista é vítima de homofobia após reportagem sobre desrespeito ao uso de máscaras

Stoff Vieira Costa foi alvo de homofobia em 10/5 após denunciar em reportagem o desrespeito ao uso de máscaras na Câmara de Vereadores de Araguaína (TO). Os ataques foram feitos pelo vereador Sargento Jorge Carneiro (Pros), em discurso na tribuna.
Stoff Vieira Costa foi alvo de homofobia em 10/5 após denunciar em reportagem o desrespeito ao uso de máscaras na Câmara de Vereadores de Araguaína (TO). Os ataques foram feitos pelo vereador Sargento Jorge Carneiro (Pros), em discurso na tribuna.

Stoff Vieira Costa foi alvo de homofobia em 10/5 após denunciar em reportagem o desrespeito ao uso de máscaras na Câmara de Vereadores de Araguaína (TO). Os ataques foram feitos pelo vereador Sargento Jorge Carneiro (Pros), em discurso na tribuna. O Ministério Público do Tocantins está apurando o caso, apontam informações publicadas no Portal Imprensa.

No pronunciamento, o parlamentar desviou-se do teor da denúncia e atacou Stoff por sua orientação sexual.

“Hoje sou matéria de capa em um site… O jornalista, eu respeito a sua opção sexual, mas é a dele e não a minha. Como a gente é uma figura pública, a gente foi colocado pelo povo e tem que dar exemplo. Mas tem pessoas que eu acho que não têm o que fazer, talvez têm que trocar de namorado porque o que o namorado está dando para ele não está servindo. Está pequeno. (…) O que tenho a falar para esse cidadão é que eu fui o policial militar que mais cumpriu leis e ordens. Por 30 anos dizendo ‘sim, senhor’ e ‘não, senhor’. Infelizmente tem pessoas que não têm o que fazer em casa, gosta de outro tipo de microfone e fica queimando os outros.”

O uso da máscara é obrigatório em todos os locais públicos e privados da cidade. A matéria escrita pelo jornalista informa que os vereadores flagrados podem perder o mandato por quebra de decoro parlamentar.

Após o pronunciamento do Sargento, Stoff declarou que se sentiu desrespeitado pela fala pejorativa e vulgar. No vídeo do discurso do parlamentar é possível ouvir gargalhadas ao fundo.

“Estou aberto aqui. Se quiser vir para a casa debater e aparecer, apareça. Não fique atrás de reportagem não. Um bom entendedor sabe que quem está fazendo isso aí usa calça, mas tinha vontade de usar era saia”, completou Jorge Carneiro.

Em nota divulgada em 11/5, a Câmara Municipal de Araguaína disse que a fala não reflete a posição da casa, mas que os pronunciamentos dos vereadores são prerrogativas da função.

O vereador voltou atrás nos ataques e admitiu que usou palavras inadequadas. “Tenho origens humildes, quem me conhece sabe que não sou possuidor de um vocabulário muito extenso e uso palavras simples e uma linguagem informal em meus pronunciamentos”.

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