Por Silvano Tarantelli

Recentemente, no Chile, por plebiscito, cerca de 80% dos participantes decidiram pela elaboração de uma nova Constituição para o país. A nova Carta vai sepultar de vez todos os resquícios que remetem a uma das mais sanguinárias ditaduras de nosso Continente, a de Augusto Pinochet (1973-1990). 

Seu regime deixou mais de 40 mil vítimas, entre as quais 3.197 mortos, e uma diáspora de 200 mil exilados. Durante o período, os regimes autoritários que tomaram conta de diversos países sul-americanos colaboram entre si. A mais famosa dessas iniciativas foi a Operação Condor, que reuniu esforços de Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai, com o apoio dos EUA, para liquidar opositores e trocar prisioneiros entre si. 

Quando os militares brasileiros intensificaram a repressão política, com a promulgação do Ato Institucional de número 5 (dezembro de 1968), o povo chileno elegeria pela via democrática o presidente Salvador Allende, dois anos depois, em 1970. 

Foi no interregno de seu governo que o Chile abrigou diversos brasileiros, alguns dos quais viriam a ocupar postos-chave na política nacional contemporânea e que tiveram de deixar o Brasil por perseguição política. 

Posteriormente, com o golpe militar de 11 de setembro de 1973, milhares de opositores chilenos, exilados brasileiros e militantes políticos estrangeiros – que não foram sumariamente assassinados − foram enviados a campos de concentração. O mais famoso deles, o Estádio Nacional do Chile, na capital Santiago, deixou de lado as partidas de futebol para ser utilizado como campo de torturas. 

Um jornalista brasileiro − com quem trabalhei anos depois e construí uma grande amizade −, esteve preso no local e de lá saiu quase morto. Foi salvo por uma campanha internacional que intercedeu para liberar os presos políticos estrangeiros. 

Vítima de várias sequelas, foi submetido a três cirurgias para se recuperar das torturas que sofreu. Escapou com um leve tremor involuntário que por vezes surgia em sua face. Na Suíça, onde foi operado e se exilou, morou durante muitos anos, aprendeu o idioma alemão, constituiu família e filhos. 

Evito revelar o nome dele pois a identidade envolve a vida de outras pessoas da família, que não sei se gostariam de ser expostas. 

Quando voltou ao Brasil, um pouco antes da anistia política de 1979, tratou de refazer a vida. Por ironia, foi obrigado a deixar o país de origem para evitar ser preso e acabou detido no Chile, por um regime que viria ser ainda mais violento que o nosso. 

Quando soube da prisão eminente no Brasil, deixou o País às pressas e não conseguiu levar a namorada que estava grávida. Reencontrou-a anos depois de seu regresso, quando ela já estava casada, com dois filhos, um dos quais o filho adolescente, que ele finalmente pode conhecer. 

O impacto do reencontro foi forte. Sentiram que apesar dos anos de separação ainda se amavam. Ela se divorciou para se casarem em seguida. Fui testemunha dessa história de amor e da cerimônia de casamento. Da união, nasceu mais uma filha. 

Meu amigo não está mais entre nós. Depois de tantas desventuras, morreu vítima de um câncer. Tudo isso e mais o fato de me relacionar com a comunidade chilena em São Paulo, por meio da Associação Brasileiro-Chilena de Amizade – de apoio a imigrantes e exilados chilenos −, despertou o meu interesse de conhecer o Chile. 

Em 1986, antes de partir, ofereci-me para ser correspondente no país ao jornal Retrato do Brasil − uma experiência de jornal diário da época, a partir de uma coleção de fascículos do mesmo nome, de muito sucesso. A iniciativa foi do jornalista Raimundo Pereira (editor do jornal Movimento, repórter e um dos fundadores da revista Veja, entre outros veículos de comunicação de grande impacto na história do jornalismo brasileiro). 

Fiz o percurso por via terrestre. Foram cerca de 60 horas de viagem de ônibus, desde São Paulo, atravessando a Argentina, pela Cordilheira dos Andes. Entrei no Chile pela vigiada fronteira argentino-chilena. 

Antes de ir, tratei de me garantir de alguma forma. Procurei o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, na época presidido por Gabriel Romeiro (TV Cultura, TV Globo, Revista Realidade), que achou estranho eu solicitar uma carta da entidade para me credenciar no Colegio de Periodistas de Chile e na Asociacion de Corresponsales de La Prensa Extranjera. 

Pedi uma carta de apresentação também para a editora do jornal, ironicamente chamada de “Política”. Apresentei apenas esta e guardei a do Sindicato para alguma eventualidade. 

Gabriel achou na ocasião, com certa razão, que aquele jornalista não estava de posse de suas faculdades mentais, conforme me disse quando o reencontrei anos depois. “Alguém pedir uma carta de recomendação a um sindicato de jornalistas para trabalhar num país sob regime de exceção? Achei que você era maluco”, afirmou. 

Quando cheguei, o Chile era um país em ebulição. Naquele ano, a oposição e os sindicatos convocaram uma greve geral, com uma série de manifestações com a intenção de derrubar o regime. 

Por segurança, os correspondentes estrangeiros que cobriam os acontecimentos organizavam caravanas de carros para registrar as manifestações nas periferias de Santiago, onde o movimento era bastante organizado. A repressão assassinaria naquele ano quatro dirigentes do Partido Comunista do Chile. 

Presenciei alguns episódios de selvageria do regime. Certa vez, estávamos em uma población, o equivalente às nossas comunidades. Os militares chegaram com caminhões e jipes equipados com metralhadoras atirando a esmo. Foi um corre-corre geral. Solidários, os moradores abriam as portas de suas casas para nos acolher. Enquanto os militares disparavam nas paredes e janelas das moradias, deitávamos no chão para não sermos atingidos. 

Cobri manifestações também no centro de Santiago. Por precaução, os jornalistas andavam sempre juntos, prontos para dar o alerta caso um de nós fosse preso. Os mais visados eram os fotógrafos. A repressão, quando os conseguia agarrar, inutilizava máquinas e filmes. 

Muitos jovens, que deixaram o Chile com os pais durante o golpe, regressaram naquele ano. Saíram crianças e retornaram adultos. Pouco conheciam do seu próprio país. Um desses jovens era o fotógrafo Rodrigo Rojas Denegri, um rapaz de 19 anos, que frequentemente estava conosco. Denegri voltara dos Estados Unidos, onde vivia com a mãe, militante política exilada naquele país.

Ele e Carmen Quintana, uma jovem chilena de 18 anos, foram detidos por uma patrulha militar na periferia de Santiago. Com requintes de enorme perversidade, os militares os espancaram, jogaram gasolina neles, ainda vivos, e puseram fogo. 

Seus corpos foram encontrados em uma vala no campo, há 20 km do local original, por trabalhadores agrícolas. Chegaram ainda vivos ao hospital, mas Rodrigo não resistiu às queimaduras; Carmen sobreviveu, com mais de 60% do corpo queimado. 

Naquele ano, estive no Chile em duas oportunidades, em um total de seis meses de estadia. Entrevistei dirigentes sindicais, políticos de oposição, militantes políticos e moradores. Foi uma das experiências mais marcantes de minha vida profissional, que interrompi quando o Retrato do Brasil encerrou suas atividades, ainda no final de 1986. 

O Chile é um país de povo bastante hospitaleiro e de uma geografia invejável, plena de contrastes entre o Norte, do Deserto de Atacama, até próximo da fronteira do Peru, e o Sul, da região dos Lagos, nos limites da Patagônia, próximo à Argentina. 

Os acontecimentos daquele ano não foram suficientes para dar fim à ditadura. Esta prosseguiu até 1989, quando enfim foi derrotada também pela via plebiscitária, numa campanha política que mobilizou a população pelo não ao regime. 

No ano seguinte, um presidente civil, Patrício Aylwin, eleito pelo voto direto, assumiria o poder. A redemocratização fez bem ao país e o tornou um dos mais prósperos da América do Sul. A nova Constituição, que será elaborada por um congresso constituinte, fechará de vez as contas do país com o passado.

Fotos: as fotos preto e branco foram tiradas do livro El Pan Nuestro de Cada Dia, dos fotógrafos chilenos Carlos Tobar, Oscar Navarro, Claudio Pérez e Paulo Slachevsky – Terranova Editores (21/11/1986)


O jornalista que escapou do Brasil para a tortura no Chile e outras histórias
Silvano Tarantelli

A história desta semana é novamente de Silvano Tarantelli, que trabalhou em A Tribuna, de Santos, A Voz da Unidade (órgão do antigo PCB) e em jornais da chamada imprensa alternativa na cobertura política nacional e como correspondente internacional, com reportagens em Uruguai, Cuba, Chile e Coreia do Norte. Há muitos anos tem atuado em assessorias de imprensa de sindicatos de trabalhadores, em campanhas políticas eleitorais, como assessor na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e em órgãos públicos do município e do Estado de São Paulo. Foi diretor do Sindicato dos Jornalistas. Hoje é assessor de imprensa da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania do Município de São Paulo.

Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para baroncelli@jornalistasecia.com.br.

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