Na disputa com as empresas de tecnologia, mídia quer a paz, mas não a dos cemitérios

*Por Luciana Gurgel, especial para o Jornalistas&Cia

Luciana Gurgel

Em tempos de discórdia entre organizações de mídia e empresas de tecnologia, uma boa notícia. Os dois mundos que pareciam tão distantes uniram-se no Reino Unido para combater um inimigo comum: as fake news. A iniciativa é da BBC, que está liderando uma espécie de força-tarefa reunindo gigantes como Financial Times, AFP,  Microsoft, Wall Street Journal, Reuters, Facebook e Google, entre outros.

As notícias falsas circulando pela internet são um flagelo que afeta a todas as organizações, já que geram descrédito sobre o jornalismo. Ninguém ganha com isso. O objetivo do esforço, segundo a BBC, é conter a disseminação de informações sem fundamento que coloquem em risco a vida humana ou tenham o potencial de afetar o resultado de eleições.

O Reino Unido é particularmente sensível quanto ao impacto de fake news sobre processos eleitorais, depois do escândalo da Cambridge Analytica, história dissecada pelo excelente documentário The Great Hack (Privacidade Hackeada), lançado pela Netflix em julho. E os danos sobre a saúde pública são cada vez maiores, com a escalada da incidência de doenças que poderiam ser evitadas em consequência das campanhas online contra a imunização de crianças.

As ações ainda não foram detalhadas, mas devem incluir um mecanismo de alerta entre as empresas envolvidas sempre que uma notícia falsa começar a ser transmitida. Tony Hall, diretor-geral da BBC, descreveu as fake news como “veneno na corrente sanguínea da sociedade”.

A união contra elas não é o único sinal de colaboração entre empresas de tecnologia e veículos de imprensa. A decisão do Google de alterar o algoritmo de pesquisas na internet para privilegiar conteúdo original – destacando na busca a matéria original – anunciada na semana passada, foi um movimento importante nessa direção.

O Facebook também está tentando fazer a parte dele. No Reino Unido, lançou o projeto Community News, com investimento de 4,5 milhões de libras para preencher 83 vagas em jornais regionais, que vêm definhando no país. A primeira turma, com 33 profissionais selecionados entre mais de quatro mil que se candidataram, começou agora o treinamento, ministrado pelo National Council for the Training of Journalists.

Os jornalistas comunitários serão treinados e pagos durante dois anos pela rede social, e trabalharão em veículos de cidades pequenas. Não há garantia de contratação ao final do período. Mas o programa tem o potencial de servir como um incentivo ao jornalismo local e de revelar novos talentos para a grande imprensa.

Será que a paz entre as empresas de mídia e de tecnologia está a caminho? Pode perder quem apostar muitas fichas nisso. Ainda que situações pontuais tenham conseguido a façanha de colocá-las lado a lado, continuam as pressões para conter domínio de plataformas como Google e Facebook sobre o mercado publicitário. A mais recente manifestação  nesse sentido foi feita pela DMG Media, que publica os populares Daily Mail e Mail on Sunday. Em resposta a uma investigação em curso pela Competition and Markets Authority (CMA), que regula a concorrência no país, afirmou que a indústria jornalística pode não ser capaz de sobreviver por muito tempo a esse domínio se ações efetivas não forem adotadas.

A investigação, cujo relatório final sairá em julho do ano que vem, tem como um dos objetivos avaliar se o modelo atual de propaganda digital está produzindo bons resultados para os consumidores. A DMG Media é uma das empresas que defende a implantação de regras mais rígidas em relação à distribuição de verbas publicitárias, que em sua ótica vêm sendo indevidamente apropriadas pelas plataformas digitais.

Em sua resposta, a DMG observa que enquanto a distribuição de jornais é competitiva, visto que os impressos são podem chegar aos leitores por meio de mais de 50 mil pontos de venda no país, as versões digitais têm como forma de acesso apenas o Google e o Facebook. Já o The Guardian sugeriu que a CMA também inclua na investigação o mercado de podcasts, devido ao aumento da utilização de assistentes pessoais.

Outras empresas jornalísticas também se posicionaram duramente contra Google e Facebook, que tiveram a oportunidade de se manifestar. A julgar pelas declarações até agora, é razoável esperar que medidas efetivas devem ser propostas pelo órgão de competição, mesmo com pontos de convergência aqui e ali.

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