Governo britânico apoia imprensa com campanha publicitária

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

A consciência sobre a necessidade de garantir a sobrevivência do bom jornalismo diante do impacto do novo coronavírus, que está derrubando circulação e receitas publicitárias de organizações de todos os tamanhos, ecoou na sociedade britânica e sensibilizou a administração de Boris Johnson.

Mesmo severamente questionado pela imprensa por sua condução no controle da pandemia, o  Governo conclamou o público a continuar comprando jornais. Liderou um duro chamado aos anunciantes, desconfortáveis por verem suas peças próximas a matérias sobre a doença, para retomarem a compra de mídia. E deu o exemplo, investindo em uma campanha de três meses nos principais jornais nacionais e regionais do país.

A largada foi dada na sexta-feira (17/4), quando centenas de impressos britânicos circularam com uma sobrecapa da campanha “All in, all together” (Todos em casa, todos juntos). A face interna trazia um poster para afixar na janela com o arco-íris, símbolo dos trabalhadores em serviços essenciais − inclusive jornalistas − e o texto “Staying at home for Britain”.

A ação foi articulada com a Newsworks, entidade dedicada a promover o marketing de veículos jornalísticos. Canais de propaganda estimam que os investimentos alcancem £ 45 milhões. A campanha seguirá com novas etapas, como branded content para esclarecer sobre a prevenção da Covid-19 e mensagens segmentadas.

Michael Gove, ministro do Gabinete, afirmou que os jornais são vitais para a sociedade, e que agora se tornaram ainda mais necessários. “Com a campanha, salvaremos vidas ao prover informação essencial ao público e daremos suporte às instituições”, disse Gove, que antes de entrar para a política foi jornalista e trabalhou na BBC.

É uma boa ajuda aos coleguinhas. Mais de dois mil profissionais de cerca de 500 organizações foram dispensados ou licenciados, por enquanto a maioria em áreas de apoio. Mas as projeções para as redações não são animadoras. Segundo a empresa de pesquisa Enders Analysis, cinco mil jornalistas podem ser dispensados nos próximos meses se não houver uma reversão da tempestade perfeita formada por redução das tiragens e fuga dos anunciantes no papel e no digital.

Uma das exceções é o grupo DMGT, que edita Mail, Metro e i. Em vez de colocar os empregados em licença ou demitir, propôs uma redução nos salários entre 1% a 26% dependendo da faixa de remuneração, em troca de ações da companhia que poderão ser mantidas ou recompradas posteriormente pelo grupo. E manteve a circulação do Metro, distribuído no transporte público, como forma de continuar proporcionando o noticiário matinal gratuito − e a atividade dos jornalistas.

Credibilidade da imprensa em alta e BBC brilhando − O paradoxo é que a crise acontece quando a imprensa britânica vive dias de glória. A cobertura sobre a pandemia tem sido notável, tanto no que diz respeito a informações relativas à doença quanto na marcação cerrada sobre o Governo − incluindo os jornais pró-Boris. Uma enquete do Ofcom, órgão de controle da imprensa, apontou que 2/3 dos entrevistados estão acompanhando a mídia nacional com mais frequência durante a pandemia.

A BBC, com sua qualidade e penetração nacional, se destaca. Segundo o The Observer, que no domingo chegou a fazer um perfil do editor e do principal repórter de saúde da emissora, a audiência do News at One subiu 85%, a do News at Six, 74% e a do News at Ten, 50% desde meados de março.

E em linha com seu perfil de serviço público, a rede criou uma série de programas educacionais  estrelados por celebridades, voltados para crianças em quarentena, como extensão da plataforma Bitesize. As aulas diárias trazem personalidades como David Attenborough ensinando Geografia e o jogador de futebol Sergio Agüero lecionando espanhol.

Se continuar nessa trajetória de prestígio e relevância, a BBC pode ter com o novo coronavírus bons argumentos para reverter as pressões sobre o seu modelo de negócio, baseado na taxa obrigatória paga por todas as residências britânicas, que entrou na mira do atual Governo. Será que a “Auntie Beeb” vai conseguir fazer deste limão uma limonada? 

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