Câmara paulistana inaugura praça Vladimir Herzog

Espaço vai se transformar no Memorial da Liberdade de Imprensa, com três obras de Elifas Andreato Sob uma leve garoa, cerca de cem convidados participaram na última 6ª.feira (25/10) da inauguração da praça Vladimir Herzog, localizada no começo da rua Santo Antônio, ao fundo da Câmara Municipal de São Paulo, no Centro da cidade. Nela já se vê com destaque, no paredão da Câmara, a reprodução, em mosaico de cerâmica, da tela 25 de outubro, que Elifas Andreato criou em 1981 para retratar o suplício dos que passaram pelo DOI-CODI. À sua direita, será afixada uma placa com o nome de todos os jornalistas ganhadores do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos; e à esquerda, relação dos 1.004 jornalistas que, em 6 de janeiro de 1976, tiveram a coragem de assinar e publicar o manifesto Em defesa da verdade, contestando a farsa da versão de suicídio de Vlado dada pelo Exército. Inspirada em Guernica, de Pablo Picasso, 25 de outubro foi ao mesmo tempo uma homenagem de Elifas ao centenário de nascimento do pintor espanhol, que faria aniversário exatamente nessa data, e uma denúncia contra a foto farsante de 1975 de Vlado Suicidado. Patrimônio do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, a tela está em exposição permanente na sede da entidade. Outras duas obras de Elifas integrarão o Memorial da Liberdade de Imprensa: ao centro, a reprodução em tamanho natural da escultura Vlado Vitorioso, que o artista concebeu, em 2008, a pedido das Nações Unidas, para celebrar os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos; e à esquerda, próximo à escadaria que dá para a praça da Bandeira, uma reprodução ampliada do Troféu Vladimir Herzog que, anualmente, desde 1979, é entregue aos vencedores do Prêmio Vladmir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. A praça foi inaugurada pelo presidente da Câmara Municipal, vereador e jornalista José Américo Dias, com as participações dos vereadores José Police Neto, Gilberto Natalini, (ex) Italo Cardoso, além do deputado estadual Adriano Diogo. Estiveram presentes ainda o atual presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo Guto Camargo, e os ex-presidentes Audálio Dantas, Lu Fernandes, José Hamilton Ribeiro, Antonio Carlos Fon, Everaldo Gouveia e Fred Ghedini, além de Ivo Herzog, filho de Vlado e presidente do Instituto Vladimir Herzog. ABI contestada – A celebração dos 38 anos de assassinato de Vladimir Herzog teve um momento de tensão, quando Ivo Herzog, ao fazer uso da palavra, reafirmou o que havia dito anteriormente sobre o uso dos veículos de comunicação da Fundação Padre Anchieta, da qual é conselheiro, para manifestações e ironias contra os que se empenham na defesa dos direitos humanos, caso do próprio instituto que preside: “Não podemos admitir que numa instituição como a Fundação Padre Anchieta, em que meu pai trabalhou e de onde saiu para ser assassinado, pessoas usem seus microfones e câmaras para achincalhar aqueles que defendem os direitos humanos. É um ultraje à memória do meu pai e daqueles que tanto se empenharam e se empenham pela justiça social nesse País. Não se pode admitir que numa emissora pública como a Fundação Padre Anchieta, cujos valores em defesa da pessoa humana todos nós conhecemos, esse tipo de coisa aconteça. E não aceito a pecha de censor, como me chamaram, porque não sou, tanto que estou aqui, nessa bela manifestação a favor das liberdades democráticas. Vou continuar incomodando e se as coisas não mudarem posso até entregar o mandato de conselheiro da Fundação”. O episódio que deu origem ao desabafo foi o repúdio manifestado por Ivo à Fundação Padre Anchieta em decorrência de comentários que considerou desairosos de Salomão Schwartzman, em seu programa Diário da Manhã, que vai ao ar de 2ª a 6ª.feira pela Cultura FM. Salomão referiu-se com ironia aos defensores dos direitos humanos como “aquela turma dos direitos humanos”, aludindo à parcela de culpa que esta teria pela triste realidade da segurança pública nos dias atuais. A manifestação de Ivo gerou manifestações de solidariedade a Salomão, entre elas uma da ABI-SP, assinada por seu presidente Rodolfo Konder, em que afirma ter causado espanto a notícia de que um “conselheiro da Fundação havia pedido que um jornalista seja banido de seu trabalho por ter feito um comentário sobre a triste realidade da segurança pública dos dias atuais” e que “querer calar um jornalista é algo parecido com o que faziam os censores do regime militar”. Curiosamente, a ABI é uma das instituições signatárias do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos desde que este foi instituído. E mais curiosamente ainda sua representação São Paulo teve como presidente, antes de Konder, Audálio Dantas, figura reconhecida nacional e internacionalmente por sua incansável luta pelos direitos humanos. Presente ao ato de inauguração da Praça Vladimir Herzog, Audálio, ao saber da manifestação contra Ivo e o Instituto Vladimir Herzog, repudiou veementemente a ABI e Konder, por entender que prestaram um grande desserviço à causa da democracia e dos direitos humanos. Pouco depois, Sérgio Gomes, diretor da Oboré e idealizador do movimento que levou a Câmara Municipal de São Paulo a dar àquele espaço o nome de praça Vladimir Herzog, tomou a palavra e, aplaudido, sugeriu que, a partir daquele momento e “enquanto essa diretoria da ABI estiver entronada no poder”, fosse afastada da organização do Prêmio Vladimir Herzog. Por triste coincidência, na mesma noite faleceu o presidente nacional da ABI Maurício Azêdo, que, acusado por vários de seus próprios pares de centralizador e autoritário, levou, em 2007, Audálio e todo o Conselho Consultivo da Representação São Paulo a renunciar – no caso de Audálio, houve ainda a renúncia ao mandato de vice-presidente nacional que ocupava. Logo depois, Azêdo nomeou Konder para o cargo. Recentemente, o próprio Azêdo protagonizou outro embate, desta vez com a oposição liderada por Domingos Meirelles, que, ao ser impedida de concorrer, levou as eleições da entidade à Justiça, onde ainda aguarda decisão. Aniversário da sentença – E no dia 27/10, completaram-se 35 anos da histórica sentença do juiz Marcio José de Moraes que, ainda em plena ditadura militar, considerou a União responsável pela morte de Herzog, também um marco no processo de redemocratização do País. A propósito desse episódio, a GloboNews exibiu o especial A sentença que mudou o Brasil, que teve produção e reportagem de Cláudio Renato (confira em http://glo.bo/1azVRbu).