Por Assis Ângelo
Ainda sobre a tal Maria dos Olhos Tortos, acrescento:
Cantava com todo mundo
No mundo todo brilhou
De repente ganhou asas
E direto ao céu voou
No céu cantou com Cristo
Mas com Deus sequer tentou
Não tentou porque não quis
Talvez por temer falhar
Pois Deus estava pronto
Pra com ela duelar
Na base do Martelo
Somente pra começar…
– Espera, espera. Assis, o que é Martelo?
Martelo é modelo
E também modalidade
Existe há muito tempo
Cantado sem piedade
Por mestres que cantam tudo
Sem dó e com sagacidade
– Gostei. É isso que é Martelo?
– Não, Maria. Estou falando de Martelo, mas cantando em sextilhas. Essa é uma das dezenas de modalidades ou formas de poesia desenvolvidas no calor dos improvisos por cantadores em desafio ao som de viola. No livro Eu Vou Contar Pra Vocês (1990), cheguei a enumerar 70 ou 80 modos ou tipos de baiões comuns ao mundo da cantoria. O poeta repentista Oliveira de Panelas anotou mais de uma centena. Na origem, o Martelo é construído em estrofes de dez versos decassílabos. E a rima é assim, com métrica e tudo: o 1° verso rima obrigatoriamente com o 4° e o 5°, o 2° com o 3°, o 6° com o 7° e o 10° e, finalmente, o 8° com o 9°.

– Legal! Estou gostando desse papo. A propósito, o tal Martelo tem autoria nas origens?
– Se são remotíssimas as origens do Martelo, não sei. Porém, dá pra dizer que é criação do cordelista e violeiro patoense Silvino Pirauá (1848-1913). Aliás, foi ele também um dos primeiros improvisadores a cantar versos em sextilhas. Antes dele houve um maranhense chamado Antônio Gonçalves Dias (1823-1864), que cantou versos próprios em sextilhas. É dele, por exemplo, o poema Sextilhas de Frei Antão. Esse frei era português e um tanto chegado ao autor de Canção do Exílio (1846). É desse poeta Olhos Verdes, que dedicou a uma de suas musas e por quem acabaria morrendo de amor. Um trecho:
Dizei vós: “Triste do bardo!
Deixou-se de amor finar!
Viu uns olhos verdes, verdes,
Uns olhos da cor do mar:
Eram verdes sem esp’rança,
Davam amor sem amar!”
Dizei-o vós, meus amigos,
Que, ai de mi!
Não pertenço mais à vida
Depois que os vi!

– Interessante isso. Esses olhos verdes me lembram os olhos verdes de Diadorim, de Grande Sertão.
Como curiosidade, posso acrescentar que Guimarães Rosa começou a carreira literária fazendo poesia. Chegou a ganhar um prêmio como poeta, com direito a publicar um livro bancado pelos promotores do concurso de que participou. Esse livro, porém, só foi publicado muito anos depois, sob o título de Magma.
Dez anos depois de se consagrar como autor literário com Sagarana (1946), Rosa lançou aquele que seria a sua obra-prima: Grande Sertão: Veredas. O lançamento deu-se no dia 16 de julho no ano da graça de 1956.
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