Por Assis Ângelo
Bom, um cego puxa outro.
Não, não. Se um cego puxa outro, ambos correm o risco de cair, embolando ladeira abaixo de um lugar ermo qualquer. O correto é dizer: um guia vidente puxa o cego para onde for.
Há pouco falei de José Américo de Almeida, que morreu cego.
João Guimarães Rosa, que nasceu em 27 de junho de 1908, não morreu cego. Porém, morreu com graus enormes nos óculos para poder ver um pouco mais além do próprio nariz. Mas, ao contrário de Zé Américo, Rosa pôs cegos e míopes para se movimentarem nas páginas de seus livros. O mais famoso de seus cegos é o Borromeu, que transita sabiamente nas páginas de Grande Sertão: Veredas. Dele o míope mais conhecido é o menino Miguilim, que aparece no conto Campo Geral. Pois é, como um cego puxa outro… Não, não!
Quem ainda não leu, sempre será tempo para ler O Burrinho Pedrês.
Esse burrinho de Rosa já foi burrinho novo, mas o tempo passou e ele naturalmente envelheceu. Tinha olhos vivos, brilhantes, enormes, mas isso tudo o tempo apagou. Vira herói, mas antes disso há uma guerrinha feia entre dois vaqueiros. O motivo foi que um roubou do outro a noiva, que era vesga. Essa história abre o livro de contos Sagarana (1946).

Não sou cega nem surda
E ouço só se quiser ver
O senhor… Mire veja
Houve um que viu sem querer
O Riobaldo falar
Que matava pra não morrer
Matou e matou muito
Como um cangaceiro
Ou jagunço que era
Lá no Sertão mineiro
Há! Claro: Diadorim
Foi seu melhor parceiro
Branco de olhos verdes
Atirava pra matar
Assim na hora: pá, pum!
Pra outra bala não gastar
Bom moço Diadorim
Pois matava sem judiar
– Assis, posso falar?
– Claro, claro.
– Esse poeminha aí é seu seu?
– Fiz agora, Flor Maria. Fiz pra lembrar o romance Grande Sertão, lançado em 1956 com sucesso estrondoso. Repentistas e cordelistas deitaram e rolaram com as estripulias de Riobaldo, Hermógenes, Joca Ramiro e companhia.
– Então é por isso que você começa falando como se fosse mulher?
– Mais ou menos. Veja isso aqui:
…Mas era macho ou fêmea
Esse tal Diadorim
Que atirava pra matar?
Todo mundo diz que sim
E todo mundo diz que não
Eu, da minha parte, por fim…
– Mas Assis, ele era homem ou era mulher?
– Bom, todo mundo diz que sim e eu… sei não!
– Você lembra que João Guimarães Rosa nasceu em 1908. Não foi nesse mesmo ano que morreu Joaquim Maria Machado de Assis, nosso maior escritor?
– Maria, não me ponha em fria.
– Por quê?
– Olha, eu já li quase tudo que o Bruxo do Cosme Velho escreveu e publicou. Claro que ele era muito bom no que escrevia, mas não podemos esquecer de Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar e outros e outras do século 19, como Júlia Lopes de Almeida. Também não podemos esquecer de José Américo, José Lins do Rego, Graciliano Ramos…
– E a Rachel de Queiroz, hein?
– Claro, dona Rachel de Queiroz foi incrível. Depois de O Quinze, não precisava escrever mais nada. E o que dizer da Lygia Fagundes Telles?
– Que mais coincidência há entre Machado e Rosa, além de um ter morrido em 1908 e naquele mesmo ano ter nascido Rosa?
– Atenção, atenção! Guimarães Rosa não achava bom nem graça no estilo literário de Machado. Mais: achava-o pernóstico. E tem mais, quer ver? Rosa dizia que o melhor dos escritores brasileiros era Dyonélio Machado (1895-1985), autor dos clássicos Os Ratos (1935) e O Louco do Cati (1942).
– Iiiih, isso dá pano pra manga!
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