Por Assis Ângelo
– Assis, interessante a lembrança do Zito sobre o total de vaqueiros que tangeram aquela histórica boiada no sertão de Minas. Tudo bem, tudo bem, mas achei um tanto estranho o Chico Moreira não ter sido citado pelo Zito na entrevista que deu à revista Cult.
– Pensando bem, Flor Maria, o caso não é tão estranho assim.
– Pois é, mas não entendo.
– Bom, olhe só: todos ali citados por Zito eram vaqueiros profissionais. À exceção do escritor Rosa e do violeiro Aquiles. O Cruzeiro registra entre os vaqueiros o cidadão Chico Moreira. Esse Chico, de batismo Francisco, vinha a ser simplesmente o dono daqueles bois todos.

– Então tá. E o jornalismo na vida de Guimarães Rosa há algo mais a dizer além do que você já disse?
João Guimarães Rosa estreou na imprensa brasileira através de contos literários que publicou na extinta O Cruzeiro. Tinha então 21 anos de idade. Pouco se sabe é da rápida presença dele em O Jornal.
O Jornal teve longa vida entre os outros 35 diários do velho Chatô. Não custa lembrar que, além dos jornais, formavam a rede associada 18 revistas, 18 canais de TV e 36 emissoras de rádio.
No decorrer da vida, Rosa publicou textos diversos em dezenas de jornais e em revistas, além de O Cruzeiro. Foram mais de 130 textos, que ganharam páginas em livros. Os livros publicados receberam os títulos de Primeiras Estórias (1962), Tutameia – Terceiras Histórias (1967), Estas Estórias (1969) e Ave, Palavra (1970).

Não será exagero dizer que o autor de Grande Sertão passou parte do seu tempo ligado no que ocorria na imprensa. E tudo o que publicava tinha bom dinheiro em pauta. Há pelo menos um exemplo disso. Paulo Francis (1930-1997), editor da revista Senhor, contou que negociou longamente com o escritor para que ele participasse da revista com contos de sua autoria. Ele topou, mas o público passou a querer mais. A resposta foi positiva e mais: escreveria sobre qualquer assunto, desde que continuasse sendo bem pago.
A participação de Guimarães Rosa na revista Senhor durou pouco tempo, mas ao fim e ao cabo deu tudo certo.

– Já ouvi muita gente dizer que a obra de Guimarães Rosa é única, sem paralelo na literatura brasileira. Você concorda, acha que há algum paralelo, literariamente falando, entre ele e Ariano Suassuna, por exemplo?
– Acho, sim. Porém, o cabra foi muito bom na escrita que deixou. Originalíssimo. O texto Um Moço Muito Branco, que ele classificou de novela, é simplesmente encantador. Trata de um desconhecido que chega a um lugar devastado por um terremoto ocorrido nos cafundós de Minas. Tem um cego de nome Nicolau e uma espécie de milagre num 5 de agosto. Tudo isso é assunto pra depois.

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