A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) realizou, de 30/7 a 1º/8, o seu tradicional Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, que este ano chegou à sua 21ª edição. O evento, na Unip, em São Paulo, reuniu repórteres, editores, diretores de redação, executivos de mídia, estudantes de jornalismo e convidados internacionais para debater o presente e o futuro da imprensa.
Temas como a cobertura das eleições, desinformação, financiamento de reportagens e projetos jornalísticos, mudanças climáticas, conflitos armados e inteligência artificial pautaram as mesas e palestras do Congresso, que teve recorde de palestrantes internacionais: 22 profissionais de 15 países ao longo dos três dias do evento.
Na mesa Cobertura ética e humanitária de conflitos armados: como colocar as pessoas no centro da narrativa, Patrícia Campos Mello (Folha de S.Paulo), Pedro Borges (Alma Preta) e Omar Mohammed (jornalista iraquiano, pesquisador da Universidade George Washington) falaram sobre a cobertura de regiões em guerra e conflitos armados, e como o jornalismo pode e deve abordar o lado humano dessas situações, falando sobre os inocentes envolvidos, e nem sempre no sentido trágico, mas também do cotidiano, da esperança, das pequenas alegrias em meio ao medo e ao terror. A mediação foi de Claudia Jardim, coordenadora de Comunicação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).

Patrícia falou sobre sua experiência cobrindo zonas de guerra como repórter especial da Folha, dando dicas de cobertura, a importância de sempre se manter preparado e ter “jogo de cintura” para possíveis contratempos durante as viagens, ter mais de um plano de pauta caso alguma não dê certo, sempre estar atento para conseguir pautas e ser cético e duvidar sempre, principalmente quando se está entrevistando autoridades e porta-vozes, que muitas vezes podem querer emplacar ou valorizar seus pontos, desvalorizando o outro lado.
Pedro abordou suas experiências na República Democrática do Congo e a importância de se ter contatos ao trabalhar na cobertura de conflitos armados. O cofundador da Alma Preta também falou sobre como iniciar a trajetória nesse ramo específico do jornalismo, a importância da primeira experiência cobrindo guerra e como, curiosamente, os brasileiros acabam tendo “credenciais” especiais em outros países, sobretudo pela identificação cultural na música ou no futebol.
Omar contou a sua experiência escrevendo no blog anônimo Mosul Eye, no qual relatou o que de fato acontecia na cidade de Mossul, no Iraque, entre 2014 e 2017, quando a cidade foi controlada e ocupada pelo Estado Islâmico. O jornalista falou sobre a importância do compromisso com a verdade e a de relatar apenas fatos, o que realmente aconteceu, e não boatos ou especulação. Abordou ainda tentações como as de “manipular” os fatos relatados, com a esperança de combater o terrorismo e o Estado Islâmico, mas que iam contra o princípio da verdade do jornalismo.
O Congresso da Abraji focou ainda na cobertura esportiva, em especial do futebol, muito popular especialmente entre jovens estudantes. Porém, a mesa Além da Copa: investigando o jogo político e econômico no futebol brasileiro e nas bets tratou da cobertura esportiva para além do padrão de resultados, análises de jogos, mesas-redondas e opiniões sobre o desempenho de atletas ou times.
Amanda Audi, repórter da Agência Pública; Fred Justo, diretor de PLD da Legitimuz e ex-servidor da SPA/MF; e Pedro Lopes, colunista do UOL, falaram sobre suas experiências cobrindo o futebol para além das quatro linhas, com foco nas bets e em apostas esportivas, e como esse mercado está extremamente enraizado no esporte. A mediação foi de Vinícius Valfré, repórter do Estadão em Brasília.

Amanda explicou o seu trabalho na série especial Jogo Perigoso: O Brasil das bets, publicada no site da Agência Pública. As reportagens investigaram a atuação de bets ilegais no País, golpes e fraudes financeiras, e a “facilidade” de sair ileso de retaliações na justiça em casos do tipo. Amanda explicou como se infiltrou em grupos sobre criação de sites de apostas, para identificar como as bets ilegais atuam. Ela destacou como foi “fácil” ter acesso a informações sobre como criar seu próprio site de apostas enganosas, o que evidencia a falta de fiscalização e como o assunto ainda não é tratado com a seriedade que merece no Brasil.
Fred falou sobre sua experiência como repórter investigativo na TV Globo e seu trabalho como analista de dados na Legitimuz, verificando fraudes e transações financeiras, incluindo repasses de dinheiro em sites de apostas esportivas. Analisou o cenário como ainda difícil de lidar, especialmente no que se refere à relação lucrativa entre as bets e o próprio futebol brasileiro, com clubes que têm, inclusive, empresas de apostas como patrocinadores.
Pedro Lopes contou sobre sua atuação de pesquisa e investigação sobre a relação de empresas de apostas com os clubes brasileiros. No UOL, ele publicou uma reportagem sobre o aumento de bets como patrocinadoras de times das principais divisões do futebol brasileiro. Até o final do ano passado, quase 90% dos clubes da Série A tinham empresas de apostas como patrocinadoras másters. O repórter falou ainda sobre a importância de ter “jogo de cintura” ao cobrir temas delicados, como corrupção no futebol, uma vez que muitas portas acabam se fechando após a publicação de investigações.
Para além de temas e métodos de trabalho, o Congresso teve também mesas sobre formatos de projetos e a forma de vender e financiar o conteúdo produzido pela imprensa. Foram os casos da mesa Como precificar serviços jornalísticos, com Juliana Faddul (jornalista e documentarista independente) e Vinicius Mororó (editor-chefe do Jornal Impacto Cotia), que abordou como vender o próprio peixe para os veículos jornalísticos, como atuar de forma independente na imprensa, e exemplos de pitchs para financiamento de reportagens e sugestões de pautas; e a mesa Como emplacar um projeto de podcast em plataformas e produtoras?, com Adriana Alcântara (CEO da Audible Brasil) e Gabriela Mayer (diretora da Rádio Guarda-Chuva), que falaram sobre o presente e o futuro do podcast, como criar roteiros narrativos interessantes, como começar na área e desenvolver/acelerar ainda mais projetos já existentes.
O Congresso ofereceu ainda oficinas de ferramentas de IA e de programação úteis para as redações, além do lançamento de livros-reportagem sobre os mais diversos assuntos.









