Por Assis Ângelo

Dois anos após publicar Demônios, Aluísio Azevedo trocou seu fiel público leitor por um público diplomático. Pois foi no ano de 1895 que passou a defender as cores da nossa bandeira no exterior. Ficou muito tempo em Buenos Aires, Argentina, onde chegou a se casar e constituir família. Aliás, foi na Argentina que ele morreu.

Não são poucos os escritores diplomatas, historicamente. Entre esses, nomes muito relevantes, como João Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto.

Rosa morreu com grossos óculos de alto grau e Melo Neto, vítima de erro médico, partiu para a eternidade frustrado e completamente cego.

Pois bem, são muitos e muitos os poetas e romancistas que seguiram a carreira diplomática.

Parece brincadeira, mas não é. Felipe Fortuna, filho do chargista Fortuna, seguiu o caminho diplomático sem abandonar a poesia e a crítica literária. Representou o Brasil na Inglaterra e até na Coreia do Norte. Tem vários livros publicados.

Fortuna, de batismo Reginaldo José Azevedo Fortuna (1931-1994), foi um dos fundadores do extinto semanário Pasquim. Pouco antes, mas ainda na década de 1960, foi levado pelo jornalista e romancista Antonio Callado (1917-1997) para cuidar da editoria de arte do jornal Correio da Manhã. É dele charge que mostra dois mendigos com chapéus nas mãos e outro sem chapéu nem nada, esticando a mão e dizendo para os pedestres: “Um chapeuzinho, pelo amor de Deus!”

(Crédito: Folhapress)

Voltemos a Monteiro Lobato.

No decorrer da vida, Lobato fez muitas traduções antes de publicar o primeiro livro, Urupês.

As primeiras traduções de Monteiro Lobato, iniciadas em 1908, foram feitas para o jornal O Estado de S. Paulo. Essas traduções eram de artigos originalmente publicados no jornal The New York Times. Depois ele partiu célere a traduzir obras de escritores ingleses e franceses. No total foram mais de 70, 80 ou mais livros.

Entre os vários autores estrangeiros traduzidos por Lobato acham-se Perrault (1628-1703), Irmãos Grimm – Jacob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859) –, Andersen (1805-1875).

A conhecida historinha para crianças João e Maria tem sua primeira versão assinada pelos Grimm. Mas há uma versão curiosíssima contada pelos índios da etnia Krahó. Nessa história o lenhador pai de João e Maria atende pelo nome de Velho Cego. E, em vez de dois irmãos, no caso são três. O final não é muito diferente da versão dos Grimm.

História por história, deve-se pôr os pingos nos is: há muito é debitada a Ariano Suassuna a autoria do caso que dá conta de um cego que punha numa panela, enterrada no quintal, as moedas que ganhava no dia a dia. Esse caso – causo ou simplesmente história de cego – faz parte da tradição popular portuguesa, originalmente intitulado O Cego e o Mealheiro, incluída na obra de Teófilo Braga (1843-1924).

E por falar em Braga, que foi presidente de Portugal entre 1910 e 1911, é da sua recolha a historinha A Mulher Que Cegou o Marido, até hoje contada de boca em boca nos botecos de Portugal. Trata da mulher que pensou cegar o marido enchendo sua pança com carne de frango ou de galinha. A ideia dela era ficar com o amante no mesmo teto onde morava com o marido. Deu errado.

Braga foi advogado com papel passado em Coimbra.

Além de advogado querido por todos de seu tempo, encontrou na literatura e na política o caminho mais forte da sua vida.

Há muitas histórias de cego na literatura portuguesa, sem falar no escritor Camilo Castelo Branco, que, ao ficar cego, desesperado matou-se com um tiro na têmpora.

Contatos pelo http://assisangelo.blogspot.com.

0 0 votos
Article Rating
Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários