Por Assis Ângelo

I

Senhora! A Poesia outrora era Estrangeira, 

Pálida, aventureira, errante a viajar,
Batendo em duas portas – ao grito das procelas –
Ao céu – pedindo estrelas, à terra – um pobre lar!

Visão de áureos lauréis porém de manto esquálido,
Mulher de lábio pálido e olhar cheio de luz.
Seus passos nos espinhos em sangue se assinalam…
E os astros lhe resvalam à flor dos ombros nus…

II

Olhai! O sol descamba… A tarde harmoniosa
Envolve luminosa a Grécia em frouxo véu.
Na estrada ao som da vaga, ao suspirar do vento,
De um marco poeirento um velho então se ergueu.

Ergueu-se tateando… é cego… o cego anseia…
Porém o que tateia aquela augusta mão?…
Talvez busca pegar o sol, que lento expira!…
Fado cruel… mentira!… Homero pede pão!

III

Mas ai! volvei, Senhora, os vossos belos olhos…

 

Como se vê no trecho aí do poema Poesia e Mendicidade, publicado no livro Espumas Flutuantes (1870), tema algum escapou da visão aguçada e privilegiada de Castro Alves. Falou e escreveu tudo que lhe vinha à mente. Escreveu sobre sol, lua, céu, estrelas, flor, justiça, Deus, natureza, amor, paixão, liberdade, liberdade, liberdade… Também não deixou de referir-se nos seus textos a nomes consagrados na literatura universal, como Victor Hugo, Dante, Camões e Homero.

O autor de Os Escravos conheceu de perto José de Alencar e o bruxo Machado de Assis.

Castro Alves não foi vítima da seca ou de qualquer outra catástrofe natural, mas entendia perfeitamente as mazelas do tempo.

As desgraceiras da vida ocorrem em todo e qualquer lugar, mas parece que Deus escolheu o Nordeste brasileiro para testar a força e a paciência do povo que vive lá.

As três maiores secas ocorridas no Brasil até hoje ocuparam espaço violento e fatal no Ceará de José de Alencar. Essas catástrofes tiveram lugar nos calendários de 1877, 1915 e 1932.

A seca de 1877 durou até 1879, deixando mais de meio milhão de mortos.

Essa primeira grande seca, que durou três anos, passou incrivelmente despercebida pelos poderosos de plantão daquele tempo. Entre esses e mais aqueles se achavam intelectuais e políticos do porte de José Martiniano de Alencar. À época, o autor de O Sertanejo, livro publicado em 1875, não dava bola para os miseráveis da vida.

Jornais da Corte começaram a dar uma nota aqui e outra acolá sobre o que acontecia no Ceará a partir do momento em que um cara de nome José do Patrocínio (1854-1905) arrumou as malas e decidido partiu rumo ao local para cobrir, jornalisticamente, a tragédia que caía sobre os cearenses. Essa viagem deu-se no dia 10 de maio de 1878. Alguns colegas seus, de jornal, chegaram a ironizar sua ida à região, dizendo algo como “não vá morrer de fome por lá, hein?”.

Patrocínio retornou são e salvo ao Rio, nem mais magro nem mais gordo, no dia 12 de agosto do trágico ano de 1878. Mais triste: é verdade.

No geral, deve ser dito que os textos de Patrocínio chamaram a atenção dos leitores que mais e mais pareciam ter interesse ou curiosidade do que se passava na terra de Alencar.

No jornal Gazeta de Notícias (RJ) os textos de Patrocínio ganhavam destaque na primeira página, sob o título Viagem ao Norte, por ele mesmo assinada.

Destaque também ganhavam os textos e fotos que Patrocínio enviava para o semanário anarquista O Besouro, criado e editado pelo chargista de origem portuguesa Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905).

As duas primeiras fotos, de uma série de 14, foram publicadas na edição do dia 20 de julho de 1878. Chocantes.

Essas fotos podem ser classificadas hoje como fotorreportagens do repórter fotográfico Joaquim Antônio Correia ou J. Correia. Detalhe: à época, as expressões fotorreportagem e repórter fotográfico ainda não existiam.

Depois de tudo, em 1879, José do Patrocínio pôs à praça o livro Os Retirantes. Arrepia. Personagens masculinas e femininas movimentam-se como podem e até morrendo à míngua. É romance. Entre as personagens desse livro, achavam-se crianças e idosos. Mulheres, muitas delas ainda na flor da idade, entregavam seus corpos por migalhas oferecidas por canalhas, como o padreco sem escrúpulos denominado Paula.

No livro de Patrocínio, o pai de uma das jovens vítimas da seca, Rogério Monte, acaba morrendo doente e cego. A essa altura, a sua família já estava destroçada.

Cenas igualmente violentas são narradas no livro de poucas páginas, mas denso, intitulado Violação (1898). O autor foi o baiano radicado no Ceará Rodolfo Teófilo (1853-1932).

Teófilo era farmacêutico de formação, como coincidentemente o fluminense José do Patrocínio.

Sem dúvida, esses são dois dos grandes heróis do Brasil.

Cá pra nós, considero também Joaquim Maria Machado de Assis um herói. Das letras, pelo menos.

E, coincidência por coincidência, não será impróprio dizer que Castro Alves estreou na literatura com 15 anos de idade, mesma idade em que estreou em jornal o bruxo do Cosme Velho.

O poema de estreia de Castro Alves foi A Destruição de Jerusalém.

Contatos pelo http://assisangelo.blogspot.com.

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