Um dado preocupante foi divulgado nesta sexta-feira (29/5), durante o primeiro dia de encontro do Festival de Jornalismo 3i, que acontece até domingo (31/5), no Rio de Janeiro. De acordo com o primeiro extrato de uma pesquisa que analisou o perfil das associadas da Associação de Jornalismo Digital (Ajor), organizadora do encontro, 80% das publicações afirmaram já terem sofrido algum tipo de ataque ou praticaram autocensura para evitar problemas judiciais ou ameaças.

Para Veronica Lima, coordenadora de Comunicação da Ajor e que participou da revisão e apresentação da pesquisa, o perfil das associadas, que na média possuem entre quatro e cinco funcionário em seus quadros, deixam essas organizações ainda mais vulneráveis a ataques e ameaças.

“É um fator natural do jornalismo. Quanto menor é a organização, menor é o seu faturamento e a sua estrutura de apoio, inclusive jurídica. Com isso, as prioridades acabam sendo outras e se torna mais difícil contar com um profissional dedicado para protegê-las desse tipo de assédio. Além disso, também temos um problema cultural onde no geral, não temos uma cultura de nos resguardarmos juridicamente, o que deixa o jornalismo independente ainda mais exposto”.

Verônica Lima, coordenadora de Comunicação da Ajor

Entre os casos mais comuns de ataques citados pelos associados estão campanhas de desinformação ou difamação, assédio judicial, intimidação e hostilidade durante as coberturas, sendo que mais da metade dos entrevistados sofreu ataques mais de uma vez.

Para combater esse problema, a entidade mantém desde o ano passado uma parceria com o Instituto Tornavoz, associação que se propõe a garantir defesa jurídica especializada àqueles que sofrem processos em razão do exercício da manifestação do pensamento e da expressão. Com o apoio da Media Defense, órgão britânico que também atua de maneira global na mesma linha do Tornavoz, essa parceria está sendo renovada. O anúncio será feito neste sábado (30/5) durante o segundo dia do Festival 3i.

Charlene Nagae

“A constituição brasileira garante à população o acesso facilitado e gratuito ao judiciário, o que é muito importante porque dá um poder às pessoas que são prejudicadas de alguma forma, mas por outro lado, quando trazemos para o contexto do jornalismo, esse acesso acaba sendo utilizado com frequência de uma maneira muito errada, como forma de intimidação, principalmente à veículos menores, que não contam com uma estrutura jurídica por trás”, destaca Charlene Nagae, diretora Executiva do Instituto Tornavoz. “Isso é ainda pior para publicações que fazem cobertura local, porque na maioria das vezes esses processos são movidos por figuras políticas ou pessoas com muito poder econômico, inclusive com influência sobre o judiciário naquele local. Os processos judiciais são uma forma de silenciar sem sujar as mãos”.

A pesquisa que analisou o perfil dos associados da Ajor foi realizada no segundo semestre do ano passado, contou com a participação de 90 das 150 associadas da entidade e teve como base para análise os doze meses anteriores ao levantamento. A coordenação foi de Marcelo Crispim da Fontoura (Famecos-PUCRS), que contou com apoio de Bruna Suptitz, revisão de Verônica Lima e design de Sariana Fernández Monsalve. Em julho a Ajor apresentará ao mercado um relatório completo do levantamento com dados e comentários qualitativos.

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