Por Álvaro Bufarah (*)
Em um cenário de crescente polarização política e pressão sobre instituições de mídia, a nova campanha da rede norte-americana National Public Radio (NPR) surge como mais do que uma ação publicitária – ela se posiciona como uma resposta estratégica a um momento crítico para o jornalismo público nos Estados Unidos.
Sob o lema Pelo seu direito de ser curioso, a iniciativa foi lançada após um período de forte tensão institucional, marcado por críticas recorrentes de setores conservadores e pela redução significativa de financiamento federal – estimada em mais de US$ 1 bilhão. Em um ambiente em que o financiamento da mídia pública torna-se alvo de disputas ideológicas, a NPR opta por reposicionar sua narrativa não em torno da defesa institucional, mas de um valor universal: a curiosidade.
A campanha, desenvolvida em parceria com a agência Mischief @ No Fixed Address, aposta em uma estratégia multiplataforma que combina mídia tradicional e digital. Vídeos, ativações em redes sociais, inserções impressas – incluindo um manifesto publicado no The New York Times – e até produtos físicos compõem uma ação que busca ampliar o debate para além do público habitual da emissora.
Mas é no campo simbólico que a campanha revela sua maior força. Pela primeira vez em seus mais de 50 anos de história, a NPR altera seu próprio logotipo, substituindo as tradicionais iniciais por palavras como “HOW”, “WHY” e “WHO” – ou “COMO”, “POR QUÊ” e “QUEM”. A mudança não é meramente estética: trata-se de uma tentativa de redefinir a identidade da marca a partir de sua função essencial.

Ao deslocar o foco do nome institucional para o ato de perguntar, a NPR constrói uma narrativa que associa o jornalismo à prática da investigação contínua – um elemento central para o funcionamento de sociedades democráticas. Em um contexto marcado por desinformação, bolhas algorítmicas e erosão da confiança pública, essa estratégia busca reposicionar o jornalismo não como produto, mas como processo.
Esse movimento dialoga diretamente com tendências identificadas por centros de pesquisa como o Reuters Institute e o Pew Research Center, que apontam uma queda global na confiança nas notícias, especialmente em ambientes digitais. Ao mesmo tempo, cresce a percepção de que o jornalismo precisa reafirmar seu papel como mediador qualificado da realidade, capaz de oferecer contexto, verificação e profundidade.
A escolha da curiosidade como eixo central da campanha também revela uma inflexão importante na comunicação institucional. Em vez de adotar um discurso defensivo – centrado na legitimidade da organização –, a NPR opta por um apelo mais amplo, que transcende disputas políticas e se conecta a uma dimensão quase antropológica: o desejo humano de compreender o mundo.
Nesse sentido, a campanha opera em dois níveis. No plano imediato, busca mobilizar apoio público e reforçar a relevância da emissora em um momento de fragilidade financeira e política. No plano estrutural, tenta reposicionar o jornalismo público como uma “infraestrutura cívica” – um conceito cada vez mais presente no debate internacional sobre o papel dos meios de comunicação em democracias contemporâneas.
Essa ideia de infraestrutura é particularmente relevante. Assim como sistemas de saúde ou educação, a mídia pública passa a ser entendida como um serviço essencial para o funcionamento da sociedade. Sua fragilização, portanto, não afeta apenas uma organização, mas o próprio ecossistema informativo.
Ao mesmo tempo, a campanha evidencia uma mudança na forma como marcas de mídia constroem sua comunicação. A incorporação de elementos de branding – como redesenho de logotipo, storytelling e produtos licenciados – indica uma aproximação cada vez maior entre jornalismo e estratégias típicas do marketing contemporâneo.

Essa convergência, por sua vez, levanta questões importantes. Até que ponto a adoção de estratégias de marca fortalece o jornalismo? E em que medida pode gerar tensões entre identidade editorial e posicionamento institucional? No caso da NPR, a aposta parece clara: utilizar as ferramentas do marketing para proteger – e não diluir – os valores jornalísticos.
A campanha Pelo seu direito de ser curioso também pode ser interpretada como uma resposta indireta ao ambiente digital dominado por algoritmos. Em plataformas onde o conteúdo é frequentemente guiado por engajamento e polarização, a valorização da pergunta – em vez da resposta imediata – funciona como um contraponto simbólico.
No fundo, a NPR não está apenas defendendo seu financiamento ou sua operação. Está defendendo uma ideia de jornalismo baseada na dúvida, na investigação e na complexidade – elementos cada vez mais raros em um ecossistema midiático orientado pela velocidade e pela simplificação.
E talvez seja justamente essa a principal mensagem da campanha: em tempos de certezas fáceis e respostas prontas, continuar fazendo perguntas pode ser, por si só, um ato de resistência.
Fontes para pesquisa
- https://www.npr.org/
- https://www.nytimes.com/
- https://www.pewresearch.org/journalism/
- https://www.reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/digital-news-report
- https://www.niemanlab.org/
- https://www.current.org/ (especializado em mídia pública)
- https://www.poynter.org/
- https://www.ft.com/media
- https://www.theguardian.com/media
- https://www.statista.com/topics/979/media-trust/
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