Sem mudanças profundas, jornalismo poderá ficar à margem das novas gerações

* Por Luciana Gurgel, especial para o Portal dos Jornalistas

Luciana Gurgel

Ainda que a disputa pelo furo continue sendo parte da vida de qualquer jornalista, as mudanças que a imprensa enfrenta acrescentaram novos inimigos ao roteiro. E a união pode fazer a diferença no final deste filme.

Essa é a tese de Sue Brooks, diretora de produto e estratégia da Reuters: “Competição sempre vai existir, e isso é bom, mas muitos já compreenderam que o mais importante neste momento é transmitir informação confiável para o público, em vez de perdermos tempo e energia brigando entre nós, pois isso não vai ajudar em nada a melhorar o cenário”.

Brooks refere-se ao pesadelo das fake news e à mudança de hábitos dos consumidores, principalmente aqueles abaixo dos 30 anos. No Reino Unido há várias iniciativas colaborativas entre veículos, como o que une a BBC a uma rede de jornais regionais para a produção de conteúdo local.

A Reuters também está nesse jogo. Em 2017 criou a Reuters Connect, que se propõe a ser uma one-stop-shop de conteúdo, oferecendo aplicativos de parceiros externos que vão de grandes corporações jornalísticas, como CNN e BBC, a especializados como Variety, National Geographic e Weather Channel.

Sue admite que no início a equipe da agência viu com preocupação a ideia de permitir a competidores o acesso ao seu público. Mas é enfática ao defender a colaboração:  “Se nós mesmos não formos disruptivos, alguém será por nós”. E sinalizou que a rede poderá ser expandida para um mecanismo de colaboração entre jornalistas produzindo matérias ou checando fatos mundo afora.

O que os jovens querem? – Essa pode ser uma das fórmulas para contornar os desafios que afetam o jornalismo, que são reais. Um novo estudo do Instituto Reuters, que funciona na Universidade de Oxford, reconfirma as preocupações que vêm dominando o debate sobre o futuro da imprensa.

O objetivo do trabalho foi mapear como os jovens consomem notícia e o que os veículos tradicionais devem fazer para conquistá-los. Concluiu que se trata mesmo de uma questão geracional: o público jovem difere dos grupos maduros não apenas na maneira como se informa, mas também em suas expectativas em relação ao noticiário, mais alinhadas ao desejo de progresso e diversão em suas vidas.

Foram pesquisados jovens de Reino Unido e Estados Unidos, divididos em dois grupos: 18-24 anos e 25-35 anos. Eles tiveram a atividade dos smartphones acompanhada, preencheram questionários e foram entrevistados sobre os hábitos e percepções.

Segundo o trabalho, os jovens têm sede de notícias que conectem seu próprio mundo com o mundo exterior, mas não veem a imprensa tradicional como a melhor fonte para obter tal conteúdo. De forma simplificada, o Instituto Reuters aponta que as empresas jornalísticas veem as notícias como “aquilo que o leitor precisa saber”, enquanto os jovens vão além: não apenas aquilo que precisam saber, mas que também seja útil, interessante e divertido.

Uma das conclusões mais impressionantes é a atitude diante das fake news. Para a faixa etária pesquisada, são vistas como um “inconveniente” e não como uma ameaça ao jornalismo ou à democracia.

O estudo é longo, detalhado e pode servir como base para a definição de estratégias de longo prazo destinadas a capturar as novas gerações. Elas foram resumidas em três recomendações.

A primeira é que as organizações de mídia tradicionais precisam facilitar o acesso por meio de sites e aplicativos destinados a grupos mais jovens, simples e intuitivos como Facebook e Netflix, tornando as notícias mais fáceis de consumir. Isso se traduz em linguagem mais clara, narração mais interativa e conteúdo de interesse dessa faixa etária.

A segunda é que os veículos precisam dar a notícia de forma mais alinhada ao momento em que o público jovem está aberto a recebê-la, empregando formatos adequados às plataformas móveis e mídias sociais, sem perder a associação com a legitimidade de suas marcas.

O estudo recomenda ainda que a maneira de cobrir notícias seja revista no que diz respeito a questões como negatividade, estereótipos e diversidade. Os autores afirmam que os jovens não querem que a mídia deixe de abordar temas difíceis ou sérios, mas gostariam de ver mais matérias que inspirem mudança e indiquem caminhos positivos. E que tenham utilidade pessoal ou contribuam para o seu próprio desenvolvimento.

Parece uma boa receita, e não tão difícil de ser seguida. Mas o Instituto Reuters não é muito otimista sobre o futuro. Destaca que, mesmo que a imprensa tradicional adote as sugestões do relatório, não há garantia de sucesso, pois vai ser cada vez mais difícil engajar essa turma. Será que ficou tarde demais para mudar?

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