Por Albino Castro

Um inquieto e visionário paraibano de Umbuzeiro, de nome afrancesado, Francisco de Assis Chateaubriand (1892-1968), mas com sobrenomes lusitaníssimos, Bandeira de Mello, criaria, em 1950, em São Paulo, a TV Tupi, a primeira emissora de televisão de língua portuguesa do planeta – e, também, a primeira da América Latina. Só no ano seguinte a novidade chegaria à Argentina do casal Juan Domingo (1895-1974) e Evita Perón (1919-1952). Itália e Espanha fundariam suas estações em 1956 – e Portugal um ano depois.

A televisão foi ao ar, pela primeira vez, em 22 de março de 1935, na Alemanha – embora a França reivindique a invenção, por ter iniciado em 1931 estudos experimentais. O Reino Unido ganharia uma TV em 1936 e, em 1941, a magia do “petit écran” desembarcaria nos Estados Unidos.

A ousadia de Chateaubriand encorajaria, em meados dos anos 1970, outro inquieto e visionário brasileiro, o publicitário paulistano José Roberto Filippelli, responsável pela divulgação e comercialização em todos os continentes, com extraordinário sucesso, das novelas da Rede Globo. Aos 84 anos, de volta à sua desvairada São Paulo, Filippelli, de família originária de Nápoles, acaba de publicar o livro A Melhor Televisão do Mundo. A obra, escrita em tom de memórias, é fruto dos quase 25 anos nos quais o autor esteve na linha de frente, como um “caixeiro-viajante”, a vender os produtos da emissora carioca do Jardim Botânico. Residiu, inicialmente, na espanhola Barcelona, seguindo, após, para Roma, instalando-se entre as colinas do Circo Massimo, onde estão os bairros do Aventino e San Saba, e, por último, na esplêndida Londres.

A novela campeã de vendas foi A Escrava Isaura, de 1976, sucesso em todos os países em que foi exibida. Da Itália à China e de Portugal às Áfricas. A estrela da trama, Lucélia Santos, atriz nascida em Santo André, no ABC paulista, de 64 anos, se tornaria um dos ícones da teledramaturgia mundial – e, aqui, aparece ao lado de Filippelli. O desempenho de Lucélia, como uma jovem branca escravizada, comoveria os telespectadores até no Leste europeu. E, na Hungria, então sob regime comunista, fãs chegaram a organizar uma “vaquinha”, como recorda Filippelli, para que a personagem, que acreditavam ser verdadeira, pudesse pagar sua alforria.

As telenovelas expandiram sua popularidade, inegavelmente, a partir do Brasil, porém, surgiram em Cuba, no século XIX, onde os textos de folhetins são lidos para entreter homens e mulheres que trabalham na confecção dos charutos. Passaram, no início da década de 1930, ao rádio e, 20 anos depois, à televisão. Uma das mais celebradas autoras de novelas cubanas, Glória Magadan (1920-2001), refugiou-se em São Paulo, em 1964, contratada por Chateaubriand e, posteriormente, pela Rede Globo.

O livro de Filippelli tem a colaboração de Mary Lou Paris, da Editora Terceiro Nome, e a apresentação do jornalista Dácio Nitrini. O título, ao contrário do que possa parecer, não afirma que a Rede Globo é a melhor televisão do mundo. Trata-se de uma brincadeira com o fato de que, nas feiras internacionais, todos os vendedores se diziam representantes da melhor TV do mundo. Inclusive Filippelli.   

O sucesso, contudo, nunca lhe subiu à cabeça. Modestíssimo, lembro-me dele, entre os anos 1970 e 1980, quase se “justificando” pelo enorme êxito de suas vendas. Eu era correspondente de O Globo e seu vizinho, em Roma, à Via Latino Malabranca. Ouvi dele em várias ocasiões que o sucesso só fora possível pela qualidade dos produtos da Globo. E, cá entre nós, arremataria respondendo que, sem Filippelli, talvez a emissora da família Marinho jamais teria alcançado o merecido destaque universal. 


Albino Castro

A história desta semana é novamente uma colaboração de Albino Castro, ex-SBT, EBC, tevês Gazeta-SP e Cultura, entre outros, que atualmente publica a coluna Mundos ao Mundo no jornal semanal luso-brasileiro Portugal em Foco.

Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para baroncelli@jornalistasecia.com.br.

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