Entre os anos de 2019 e 2020, este que chamo de ano Vinte-Vinte e que já foi tarde, ao menos cinco jornalistas e profissionais do rádio talentosos foram embora anonimamente deste insensato mundo, onde a situação está de fazer a égua não reconhecer o potro. 

 Que eu saiba, as nossas folhas, como dizia o Cony referindo-se aos jornalões(?), não deram uma linha sequer sobre as mortes de Flávio Guimarães, em 12 de maio de 2019, aos 69 anos; Odayr Baptista, falecido em 30 de julho de 2019, aos 83 anos; Celso Guisard Faria, que partiu pro lado do mistério em 22 de abril de 2020, aos 74 anos; Douglas Ladeira, que foi pro andar de cima em 26 de julho de 2020 (idade desconhecida), e Paulo Edson, cuja partida se deu em 10 de agosto de 2020. Tinha 77 anos.

Depois de começar a carreira numa rádio de Sorocaba, Flávio veio para São Paulo, mas, se não me falha a cachola, trabalhou antes em Santos. Trabalhei com ele na Rádio Bandeirantes e na TV Cultura. Bom amigo e bom profissional na “canequinha” (microfone) e em frente às câmeras da máquina de fazer doido, como Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, chamava a televisão.

 Mineiro de Poços de Caldas e de fala mansa, Odayr Baptista notabilizou-se no Show de Rádio, que Estevam Sangirardi comandava na Jovem Pan depois das jornadas esportivas.

 Foi no Show de Rádio, a partir dos anos 1970, que Odayr, também desenhista, criou a Rádio Camanducaia e, mais pra frente, inventou a Rádio Cotia. Certamente muitos se lembram dos locutores Alberto Neto e Alberto Júnior, ambos criados e interpretados por Odayr.

 A vida simples e sossegada de uma cidade interiorana, com a praça da Matriz e a sorveteria da esquina, era destacada pela Rádio Camanducaia, que também transmitia futebol.

 Futebol também era o carro-chefe da Rádio Cotia, com um detalhe: as transmissões eram em japonês. Claro que Odayr dava uma enrolada, talvez conhecendo umas dez palavras em japonês. Era mais divertido do que discurso do Bolsonaro, que corre o risco de ficar diabético de tanto consumir leite condensado.

 Odayr não usava palavrões em seu humor. Vai ver estava certo, até porque grandes humoristas também rechaçavam palavrões ou “palavras de alto escalão”, como disse uma colega de TV de Bauru. 

 Já Celso Guisard Faria eu conheci na Rádio Bandeirantes. Era um sujeito elegante, com jeitão de galã francês. Além de radialista, era publicitário. Apresentava o jornal Gente, com José Paulo de Andrade e Salomão Esper, dois ícones do rádio.

 Descrito pelo saudoso Fiori Gigliotti como a pessoa mais “humilde e bondosa” que havia conhecido, como destaca Milton Neves em seu blog, Douglas Ladeira “ralava” nas madrugadas da Rádio Bandeirantes, onde trabalhou por mais de 20 anos.

 Apresentava o programa Bandeirantes a Caminho do Sol, ou seja, varava a madrugada até às cinco da matina. Não é tarefa para qualquer um ou “quaisquer dois”. Diziam que Douglas imitava Hélio Ribeiro

 De fato, as vozes eram parecidas. Segundo Douglas me contou, uma vez Hélio apareceu de madrugada no estúdio para “reclamar”. Douglas explicou que sua voz era daquele jeito mesmo. Antes de ir embora, Hélio sugeriu ao apresentador que alterasse o tom da voz, realizando exercícios vocais. Douglas Ladeira morava em Itanhaém, onde dirigia a Rádio Comunitária Cidade FM.

 Já Paulo Edson era o “histórico plantão esportivo do rádio”, como bem definiu Milton Neves. Paulo Edson brilhou nas rádios Tupi e Bandeirantes. Fez parte da lendária Equipe 1040 na Tupi e, na Bandeirantes, “fez bonito” no programa Atualidades Esportivas, que antecedia O Trabuco, do inigualável Vicente Leporace.


Sandro Villar

A história desta semana é novamente uma colaboração de Sandro Villar, radialista e jornalista que por muitos anos atuou como correspondente do Estadão em Presidente Prudente, no interior de São Paulo.

Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para baroncelli@jornalistasecia.com.br.

 

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