Pauta hemisférica

Área de Livre Comércio das Américas (Alca)

Por Sílvio Ribas

Para nós, correspondentes da grande imprensa em Belo Horizonte, o 3º Encontro das Américas, em maio de 1997, foi uma pauta inesquecível, não apenas porque vimos de perto o maior evento internacional realizado em Minas e a mais relevante reunião diplomática organizada pelo governo brasileiro, fora as cúpulas ambientais (Rio92 e Rio+20). A pauta hemisférica, termo que esbanjávamos, foi única, sobretudo por suas histórias paralelas.

Por meses, fizemos reportagens exclusivas sobre bastidores de negociações duras e desafios para os anfitriões. Depois, mais de 100 jornalistas nacionais e estrangeiros cobriram os ministros de 34 países (Cuba excluída) e suas respectivas delegações, engajados na fracassada missão de criar até 2005 a Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Destaque para a cobertura de quatro da Gazeta Mercantil Latino-Americana, com André Lacerda à frente.

O consenso prévio, de implantação gradual do tratado, com salvaguardas para blocos regionais (leia-se Mercosul) acabou assim que Charlene Barshefsky, a líder da numerosa comitiva dos Estados Unidos, pousou na capital mineira. A tensão estava tão alta que um guarda-costas dela aplicou vistoso “balão” em Eduardo Oliveira, da Globo, na entrada do Palácio das Artes, sede da conferência, só porque o repórter apontara seu microfone.

Às 11h40 de 7 de abril, um mês antes desse episódio, o principal auditório reservado ao encontro havia sido destruído pelo fogo. Fabiano Lana, do Jornal do Brasil, flagrou as chamas da janela da sucursal, no sétimo andar do prédio em frente. Uma hora após seu chefe Teodomiro Braga avisar o governador da notícia, o local com 1,6 mil assentos desabou e as sessões de abertura e encerramento precisaram ser transferidas para o teatro do Minascentro.

Os espaços de reuniões ministeriais e empresariais e o comitê de imprensa ficaram intactos. A cidade recebeu dois mil visitantes cadastrados, ávidos por oportunidades de negócios num eventual contraponto americano à União Europeia. Curiosamente, a realização do foro empresarial estava ameaçada até a véspera pela polêmica disputa em torno de sua marca de fantasia.

Foram quatro dias de divergências e falsos progressos no 3º Encontro das Américas. O Mercosul insistiu que precisava de tempo para sua indústria preparar-se para competir com a dos apressadinhos ianques. Mas o tempo revelou grande disparate: ignorada, a China exerceu em todo o mundo papel crescentemente dominante nessa seara e, sem Alca, o mercado americano consolidou-se como o maior comprador de manufaturas made in Brazil.

A Alca – iniciativa americana durante a 1ª Cúpula das Américas, em Miami (1994) – motivou várias reuniões de ministros, sendo que de Belo Horizonte sairiam detalhes do acordo. Curiosamente, nessas duas décadas e meia, as tratativas entre Mercosul e Europa evoluíram paralela e lentamente até chegarem ao tardio, embora muito festejado, entendimento em 2019.


Sílvio Ribas

A história desta semana é novamente uma colaboração de Sílvio Ribas, assessor parlamentar do senador Lasier Martins (Podemos-RS).


Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para baroncelli@jornalistasecia.com.br.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *