Mengo na Mangueira?

Por Magda Almeida

Tijolinho era um dos repórteres esportivos mais queridos onde quer que trabalhasse. Com ele não tinha mimimi, era pra fazer, feito estava – gostava de dizer. Uma semana antes da decisão pelo título estadual entre Flamengo e Vasco, no Maracanã, o chefe o escalou para uma importantíssima pauta. Prevendo a vitória do mengão, o que acabou acontecendo, o editor começou a elaborar a cobertura das comemorações, sabidamente muitas. E mandou Tijolinho para o morro da Mangueira, onde, lhe avisaram, haveria um espetáculo de fogos de artifício comandado pela torcida rubronegra que morava na favela.

Antes de ir morro acima, Tijolinho ficou sabendo que precisaria “pedir licença ao homem”, o poderoso chefão da comunidade, que tinha o sugestivo apelido de Ricardo Coração de Leão. Achou melhor passar por lá uns dias antes, conhecer o ambiente, fazer uns contatos, essas coisas muitas vezes indispensáveis para o sucesso desse tipo de matéria. Passou por algumas biroscas, tomou umas cachaças “para dar coragem”, conversou com uns, com outros, até que ficou combinado: o encontro entre ele e “seu” Coração de Leão (ele gostava de ser chamado assim). Seria num lugar conhecido como Buraco Quente, onde funcionava a principal boca de fumo da Mangueira naquela época. Já meio cá meio lá por conta das cachaças, Tijolinho foi pontual. O traficante-chefe também não se fez de rogado.

Ricardo Coração de Leão chegou montado numa motocicleta poderosa. Trazia na cintura duas pistolas calibre 45, arma só permitida às Forças Armadas. Todo cerimonioso, Tijolinho explicou que precisava fazer umas fotos da torcida mangueirense comemorando o título do Flamengo. Precisava de sua autorização. Cheiradão, o homem tirou o capacete, virou-se para o repórter e, entre dentes, debochou: “Festa do Flamengo, é? Pois eu quero que você, seu patrão e seu jornal vão tomar…” Dito isso, ainda berrou: ” Eu só é Vasco. E já que você tá querendo um show pirotécnico, vai ter agora”. E puxou as pistolas da cintura, dando vários tiros para o alto, no que foi seguido pelos comparsas que, confusos, já não sabiam quem estava atirando em quem. 

Os que assistiram à cena disseram mais tarde ao próprio Tijolinho que ele parecia uma perereca descendo o morro em meio ao tiroteio que se seguiu. Chegou na redação roxo de susto, mas inteiro. Ricardo Coração de Leão cumpriu pena no presídio de segurança máxima Bangu 3. Tijolinho faleceu no final dos anos 1990, deixando no setor um vazio que ainda não foi preenchido em jornal algum, dizem os que com ele conviveram.


Magda Almeida

A história desta semana é novamente uma colaboração de Magda Almeida. Carioca, hoje residindo em Porto Alegre, no Rio teve passagens por Jornal do Brasil (repórter especial e editora), Jornal da Tarde e O Estado de S. Paulo (repórter especial) e O Dia, onde foi ombudsman e criou e administrou o Instituto Ary Carvalho, braço social, cultural e de educação do grupo O Dia.


Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para baroncelli@jornalistasecia.com.br.

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