Após mais de uma década de luta para o reconhecimento oficial da obra e méritos do padre Roberto Landell de Moura, inventor do rádio, na História do Brasil, finalmente o MEC rendeu-se ao crescente movimento em prol da causa e deu vida à saga de Landell, com a inclusão da sua história na série infantil Conta pra Mim.

Hamilton Almeida

O problema é que a obra recém-lançada contém vários erros sobre acontecimentos e datas, comprometendo o próprio propósito de enaltecer o personagem. O mais grave é que, por ser o MEC a principal instância de educação do País, as informações que veicula acabam se tornando oficiais, o que, no caso, contraria toda a pesquisa, documentos e evidências reunidas ao longo de décadas por estudiosos e historiadores, entre eles o biógrafo Hamilton Almeida, que já escreveu cinco obras sobre Landell, a mais recente ainda inédita.

Outro aspecto importante é que a própria série, como um todo, vem sendo questionada de forma contundente por educadores, como mostra matéria da PublishNews, de outubro passado.

Especificamente no que se refere à narrativa sobre Landell, Hamilton Almeida escreveu para Jornalistas&Cia o artigo a seguir:

Pioneiro mundial na transmissão da voz por ondas de rádio, Roberto Landell de Moura, o padre Landell, não recebeu apoio governamental e da sociedade para desenvolver e comercializar sua prodigiosa invenção. Nem com várias patentes nas mãos!

Mesmo injustiçado, teve a virtude de compreender os que não o compreendiam: “Aqueles que não compreendem bem uma razão científica não podem enquadrá-la em seu justo mérito (…) nem ajudar-me com recursos para prosseguir estudando e trabalhando…”, declarou.

O que ele diria hoje se pudesse ler um certo livro infantil do Ministério da Educação?

Certamente, ficaria feliz. E também muito infeliz.

Como é que é?

Melhor relatar os fatos desde o início. Em 2020, o MEC lançou o Programa Conta pra Mim para incentivar a leitura, reforçar os laços familiares e auxiliar o processo de alfabetização.

Trata-se de uma minibiblioteca, em formato digital, com obras de ficção, biografias, poesia, informativos e para bebês disponíveis para download gratuitamente.

É possível ler online, imprimir ou baixar uma versão em preto e branco para colorir. Dispõe também de uma série de vídeos com 20 fábulas de Monteiro Lobato narradas pelo cantor e compositor Toquinho, além de oito cantigas infantis, interpretadas pelo artista.

No final de março, dentro da série Biografias, colocaram no ar mais quatro volumes: as vidas de Anna Nery, irmãos Rebouças, Padre Landell e Carlos Chagas. Esses livretos se somam a outros 40 títulos da coleção que promove a literacia familiar: a aprendizagem em casa, na convivência entre pais e filhos.

A inclusão do inventor do rádio nesta coletânea é pra lá de elogiável e merecida. O MEC o distingue, finalmente. 

Aplausos!

A iniciativa coincide com os esforços em prol do reconhecimento oficial dos méritos científicos deste brasileiro, que vêm sendo empreendidos há mais de uma década por Jornalistas&Cia, Prefeitura de Porto Alegre, Correios, Futurecom, radioamadores, filatelistas, jornalistas, professores, engenheiros e outras tantas entidades e pessoas, incluindo este repórter que pesquisa a vida e as façanhas do sábio gaúcho há 40 anos e é autor de vários livros sobre o tema, um deles ainda inédito.

A difusão deste saber simboliza uma reversão na roda da injustiça? O gênio das telecomunicações está deixando de ser um personagem marginalizado na memória da civilização?

Não é bem assim. A publicação do MEC decepciona. Há erros crassos em seu conteúdo de apenas 12 páginas:

  • Roberto Landell de Moura teve 13 e não 11 irmãos.
  • É correto dizer que construiu um telefone aos 16 anos. Porém, não há nenhuma evidência de que tenha lido “um artigo em inglês sobre um dispositivo que transmitia a voz”. Também não é verdade que tenha mostrado o artefato ao seu professor, “que ficou admirado com o talento do aluno”.
  • Não há provas de que “em 1892 construiu um aparelho para a transmissão da voz humana, sem fio” e que “realizou a primeira transmissão pública” em 1894. Documentos revelam que o evento primordial aconteceu em 16 de julho de 1899. Pela lógica, os testes preliminares, privados e não públicos, ocorreram em um período próximo a essa data.
  • A patente brasileira foi obtida em 9 de março de 1901 e não no dia 3 de março. A incorreção é ilustrada com outro lapso: a imagem alterada de uma das figuras das patentes registradas nos EUA!
  • Faleceu em 30 de junho de 1928 e não no dia 30 de julho.
  • Não há uma linha sobre o destino do inventor e das invenções. Nem de que vislumbrou as comunicações interplanetárias, antes mesmo de o homem começar a voar, ou de que tenha sido alvo de alguma arbitrariedade: os seus aparelhos foram destruídos sob a acusação de que era “um padre que falava com o demônio”. 

Passa-se a informação, já contaminada de falhas, de que a sua carreira científica foi completamente exitosa. Dá para compreender? 

Vaias!

Resumo da ópera: assim se perde uma oportunidade de fazer História de uma forma bem feita!

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