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quinta-feira, abril 15, 2021

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Marginal ou intelectual?

Crédito: Markus Winkler/Unsplash

Por Luciano Martins-Costa

Quando era repórter de Veja, eu costumava visitar semanalmente o Deic, o delegado-geral, algumas delegacias especializadas, a Polícia Federal e o Tribunal de Justiça, onde o corregedor Walter Maierovitch tinha sempre a melhor conversa e o café fresco. Às vezes, no inverno, parava um pouco na Praça da Sé, sentava num banco e ficava observando os pregadores, os vendedores ambulantes e os batedores de carteira. Mas isso é outra história.

Um dia, numa delegacia especializada, estava jogando conversa fora com o delegado e vi um relatório sobre a mesa. Comecei a ler disfarçadamente, mas ele notou e virou o papel. Em seguida, perguntou se eu aceitaria água e café, eu disse que sim. Quando saiu, peguei o relatório, li e, enquanto tomava o café, propus a ele uma negociação: eu publicaria o que sabia sobre o caso Hebe Camargo [NdaR: que teve joias furtadas em sua casa em abril de 2008] e diria que a fonte era a delegacia dele, ou ele me contava tudo e eu protegeria a fonte. Ele topou, porque evidentemente queria que eu publicasse a história, que estava interditada pelo governador [NdaR: José Serra].

Era o seguinte: um advogado com escritório na Faria Lima, ex-genro de um ex-prefeito de São Paulo, era chefe de uma quadrilha. Sócio de um clube de elite e filho de uma senhora que tinha uma butique de especiarias de moda, ele pegava a agenda da mãe, anotava as festas e recepções da elite paulistana e fazia o projeto do roubo para os ladrões, que eram clientes de seu escritório. Assim, furtaram Hebe Camargo, Sig Bergamin e outros socialites. Publiquei a história na Veja.

O advogado me processou, a mãe dele me processou, e de repente me vi com quatro processos nas costas. Elio Gaspari me chamou e disse: nosso advogado está cuidando disso, mas se quiser, tire uns dias e ajude a reforçar as provas contra ele. Passei a perseguir o sujeito.

Um dia, ele tinha um almoço com o presidente do tribunal no Jóquei Clube. Fui até lá, dei uma gorjeta pro garçom e ele me contou o que a dupla tinha comido, que vinho tinham bebido etc. Saí de lá, fui ao tribunal, esperei o magistrado chegar e lhe perguntei quais eram suas relações com o elemento. Ele disse que conhecia apenas socialmente. Eu disse: “O salmão à belle meunière e o chianti de hoje são parte desse relacionamento? O senhor também é relacionado com um advogado chamado Romano, não é?” (O presidente do TJ era sócio de um mafioso chamado Romano, coisa que eu soubera por acaso no gabinete de Maierovitch). Bom, pra resumir, consegui que ele não interferisse no processo em favor do bandido.

Também fui à PF e levantei citações de casos de traficantes que eram clientes dele. Mas não precisei fazer nada. Ele era viciado em jogo, estava envolvido num plano de financiamento do tráfico de cocaína organizado pela máfia americana, com a participação de bicheiros (história que pretendo contar) e a Interpol já estava de olho. Nesse período, foi preso em Atlantic City comprando fichas no cassino com notas falsas de dólar, que certamente foram plantadas pela DEA. Fez um acordo de delação dos traficantes e acabou assassinado.

O advogado que ele tinha contratado também estava envolvido e tentou se candidatar a deputado, mas fui ao TRE e, por meio do saudoso jornalista Paulo de Tarso Costa, do Estadão, encaminhei um processo de anulação da candidatura. Esse advogado também foi assassinado logo depois.

Quando soube disso, o editor Tales Alvarenga me chamou e perguntou se eu tinha feito algum trabalho na encruzilhada. Eu disse: “Não, é tudo coincidência. Meus desafetos têm a boa educação de morrer cedo”.

Daí o Augusto Nunes só me chamava de “marginal”. Elio Gaspari me chamava de “intelectual”.


Luciano Martins-Costa

A história desta semana é de Luciano Martins-Costa, que teve passagens por Estadão, Folha de S.Paulo e Abril, além de ter atuado em comunicação corporativa e como coordenador de Curso de Extensão Universitária na FGV – GVPEC, entre outras atividades.


Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para baroncelli@jornalistasecia.com.br.

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