Executivo da BBC defende mudança nas regras de controle de mídia no Reino Unido

Objetivo é estancar a desigualdade em relação aos gigantes americanos, que, livres, veem a audiência multiplicar-se de forma exponencial 

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia (*)

Pura coincidência: no dia seguinte à cerimônia do Emmy, em que a Netflix empatou com a HBO, levando para casa 23 estatuetas, o tema da Conferência Bienal da Royal Television Society (RTS), realizada em Londres na terça-feira (18/9), foi justamente o impacto dos provedores via streaming sobre as TVs. Tony Hall, diretor-geral da BBC, fez um incisivo discurso defendendo mudança nas regras de controle de mídia, para que as emissoras possam competir em igualdade de condições contra os por ele denominados “gigantes americanos” Netflix, YouTube e Amazon.

O discurso repercutiu em vários jornais. Hall afirmou que, sob a atual legislação, as emissoras competem “com uma das mãos atada às costas”, já que as companhias de tecnologia não estão submetidas às mesmas regras em aspectos como concorrência, propaganda, impostos e cotas de produção.

Segundo o diretor da BBC, Netflix e Amazon investem £10 bilhões por ano em conteúdo, dos quais apenas £ 150 milhões em produções no Reino Unido. Ao mesmo tempo, afirma, o investimento das principais emissoras caiu, resultando em redução da oferta de conteúdo local. Na visão de Hall, as pessoas querem ver conteúdo identificado com a sua realidade. Ele defende a importância desse conteúdo não apenas do ponto de vista comercial ou institucional para as emissoras, mas também para a consolidação de uma identidade nacional.

Ele parece estar certo. Ironicamente, um dos mais importantes Emmys conquistados pela Netflix foi justamente o de Melhor Atriz para a inglesa Claire Foy, no papel da Rainha Elizabeth, em The Crown.

O diretor-geral dimensionou a perda de terreno para as plataformas. Segundo ele, o tempo dedicado à BBC por jovens caiu de 11,5 para 7,5 horas por semana. Menos que o tempo que destinam a Spotfy e YouTube, que juntos ocupam oito horas semanais. A audiência jovem da Netflix é equivalente à dos canais BBC transmitidos por TV e iPlayer somados, segundo a BBC.

Enquanto a mudança das regras não é atendida, Hall anunciou a intenção de aprimorar o BBC iPlayer, aumentando a oferta de conteúdo para jovens, além de destinar mais investimento a produções fora de Londres. O objetivo é refletir melhor a realidade de todo o Reino Unido e assim ganhar maior identificação com o público.

O papel da BBC na produção de jornalismo de credibilidade também foi destacado por Hall, como antídoto ao que chamou de “praga das fake news“. Com ele concordou o secretário de Cultura do Reino Unido, Jeremy Wright, que na mesma conferência conclamou as emissoras públicas a se empenharem ainda mais na conquista da confiança do público com jornalismo de qualidade.

Nesse aspecto, a força da BBC continua reconhecida. No Digital News Report 2018, publicado pelo Instituto Reuters em junho, a emissora figura com os mais altos índices de confiança, acompanhada por Channel 4 e ITV, superando veículos como The Times e Sky News. O relatório revela que a confiança no jornalismo manteve-se estável no Reino Unido: 42% dos entrevistados confiam no jornalismo de forma geral; 54% confiam nos veículos que assistem ou leem; 23% afirmaram confiar nas notícias obtidas por meio de buscas e 12%, nas notícias recebidas via mídias sociais.

Luciana Gurgel

(*) Luciana Gurgel é jornalista formada pela UFF, trabalhou no Globo e em 1988 fundou, com Aldo De Luca, a Publicom, agência de comunicação que em 1998 tornou-se afiliada da Golin / Weber Shandwick e em 2010 fundiu-se com a S2. Em 2016, a S2Publicom foi adquirida pelo IPG, tornando-se a atual Weber Shandwick Brasil.

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