A tragédia de Mariana, pelos olhos de Cristina Serra

Cristina Serra

Cristina Serra, que aos 19 anos já militava no Jornal Resistência, da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, e naquele início da carreira de repórter (1982) arriscava-se na oposição à ditadura militar, lançou em 6/11, no Rio de Janeiro (Livraria da Travessa do Shopping Leblon), pela Editora Record o livro Tragédia em Mariana – A história do maior desastre ambiental do Brasil, que completa três anos em 5 de novembro.

Cristina, que teve passagens por Jornal do Brasil, TV Globo – onde também atuou como correspondente em Nova York – e atualmente está no canal de jornalismo online MyNews, propôs-se a relatar em livro as múltiplas perspectivas de uma tragédia de enorme magnitude.

Segundo ela, para que a complexidade do fato pudesse ser adequadamente narrada, foi necessário “explicar os aspectos técnicos da construção, operação e funcionamento da barragem de Fundão, bem como os diversos impactos ambientais, sociais, econômicos e jurídicos da inundação de lama, o que exigiu incontáveis horas de entrevistas com peritos, investigadores, servidores públicos, engenheiros, funcionários e dirigentes das três empresas envolvidas no desastre, autoridades e especialistas de vários ramos que, com inesgotável paciência, ouviram minhas perguntas e esclareceram dúvidas”.

Faber Teixeira e Oswaldo Braglia, de Jornalistas&Cia Norte, conversaram com ela sobre como viu o maior desastre socioambiental brasileiro:

Jornalistas&Cia Norte – Naquele 5 de novembro de 2015, como foi seu contato com a tragédia e sua percepção inicial do que estava ocorrendo?

Cristina Serra – Assisti ao noticiário pela televisão e vi algumas imagens de celular que começaram a aparecer na internet. Tudo muito assustador. Mas só entendi realmente o que havia acontecido, a dimensão da catástrofe, quando cheguei ao local, alguns dias depois, para fazer uma reportagem para o Fantástico, onde eu trabalhava na época. Só vendo de perto para entender a magnitude do que aconteceu.

J&CiaN – Ao acessar o complexo da Samarco, onde estava situada a barragem que rompeu, pela paisagem remanescente e o olhar das pessoas, era possível verificar que aquele era apenas o início de algo maior, que acabaria no litoral do Espírito Santo?

Cristina – Alguns especialistas apontaram essa possibilidade logo após o rompimento. Já nas primeiras horas depois do colapso da barragem, a lama de rejeitos de mineração alcançou afluentes do rio Doce. Era uma questão de dias para que aquela massa descomunal chegasse ao mar, como chegou, pouco mais de duas semanas depois. E chegou densa e compacta. A lama não se diluiu ao longo de mais de 600 quilômetros percorridos nos rios.

J&CiaN – Em um trecho da canção Notícia de Jornal, de Chico Buarque, o poeta diz que “a dor da gente não sai no jornal”. Com que intensidade esse sentimento, de vidas que desabaram com a barragem de Fundão, contribuiu para a decisão de escrever o livro?

Cristina – Esse verso tão pungente e tão verdadeiro da canção de Haroldo Barbosa e Luís Reis está na epígrafe do livro e norteou-me durante todo o trabalho. Esse desastre pode ser explicado com muitos números: 34 milhões de m3 de lama vazados; 38 municípios atingidos; 660 quilômetros percorridos pela lama etc. Mas o número que mais me interessava era o de vítimas: 19 mortos, sendo cinco moradores do povoado de Bento Rodrigues e 14 trabalhadores que estavam na Samarco (12 terceirizados, um empregado da mineradora e um vendedor de uma empresa de São Paulo que estava lá no dia do colapso). E mais do que o número, eu queria saber quem eram as pessoas por trás das estatísticas. Entrevistei as famílias de 12 vítimas. As outras, por motivos variados, não quiseram falar e respeitei o seu silêncio.

J&CiaN – Durante o período de produção do livro, colhendo depoimentos, lendo, analisando documentos e relatórios, em algum momento você sentiu que seu trabalho pudesse ser ou estava sendo “atrapalhado” por parte das empresas e autoridades envolvidas no acidente?

Cristina – O único órgão público que procurei e que não quis me atender foi o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), que deveria ter sido rigoroso na fiscalização da barragem e não foi, segundo mostra a investigação oficial. Eu queria ouvi-los sobre isso, mas não foi possível. As três empresas foram ouvidas por meio de seus porta-vozes e suas explicações estão contempladas no livro. A Samarco permitiu, inclusive, que eu entrasse na área do desastre duas semanas depois, para uma reportagem exclusiva também para o Fantástico. Depois voltei lá, quando já estava escrevendo o livro.

J&CiaN – As dificuldades em entrevistar familiares e amigos dos 19 mortos prejudicaram de alguma forma a narrativa, dado o silêncio de algumas dessas testemunhas? Alegaram motivos para não expressar suas opiniões?

Cristina – Não tive dificuldade de apurar informações para essa narrativa. Entrevistei e/ou conversei com mais de cem pessoas, inclusive algumas que foram tragadas pela lama e, milaculosamente, sobreviveram. A lama não era só lama. Junto com ela vieram veículos, pedras gigantescas, pedaços da barragem, árvores, equipamentos etc. Era uma massa de material sólido levando tudo pelo caminho. As pessoas me contaram com muita riqueza de detalhes tudo o que viveram. Há um personagem incrível no livro, Romeu, que estava na crista da barragem, a cerca de três metros do local exato do rompimento. Ele afundou na lama e sobreviveu. É uma história extraordinária. Ele se pergunta até hoje como conseguiu sair da lama. Empregados da mineradora que ajudaram os bombeiros no resgate dos sobreviventes também me contaram, com muito boa vontade, como foi o trabalho. Como eu disse antes, apenas as famílias de sete terceirizados que morreram não quiseram falar. Percebi que, para alguns, é doído falar sobre isso.

J&CiaN – Você vem de um estado (Pará), onde a exploração mineral ocorre com a mesma intensidade que a região de Minas Gerais. Recentemente, a empresa Hydro Alunorte foi flagrada, além do transbordo de sua barragem, despejando dejetos nas águas que servem ao município de Barcarena. Como você enxerga a mineração na Amazônia?

Cristina – Fiz poucas coberturas sobre mineração na Amazônia e todas elas sobre garimpos ilegais. O que sei sobre a mineração em grande escala é que, tal como em Minas Gerais, é uma atividade basicamente extrativa, destinada, sobretudo, ao mercado externo, sem estar associada à produção de valor agregado, que geraria maior número de empregos e desenvolvimento regional. Sem falar no passivo ambiental. Ninguém vive sem os minerais. Eles estão no nosso cotidiano. Mas a atividade da mineração no Brasil tem que ter mais responsabilidade social e ambiental.

J&CiaN – De certa forma, as lutas sociais por demarcação de terras indígenas e quilombolas, além da preservação do modo de vida das populações ribeirinhas da Amazônia, dão uma espécie de “barreira” ao avanço dos interesses econômicos. Na possibilidade de Bolsonaro partir para a desregulamentação do código florestal e negar demarcações e/ou reconhecimento das terras onde habitam essas etnias, como já anunciou, o jornalismo poderia tornar-se um instrumento para coibir abusos? Você frustrou-se com a morosidade e praticamente impunidade que ocorreu no caso de Mariana?

Cristina – De fato, é frustrante ver que três anos depois do desastre o processo criminal ainda esteja, digamos, engatinhando. O juiz responsável pelo caso começou a ouvir as testemunhas em junho deste ano e a perspectiva de um desfecho para breve é inexistente. O processo tem mais de 400 testemunhas, quase todas de defesa dos réus. Infelizmente, acho que há um risco muito grande de prescrição dos crimes apontados pelo Ministério Público Federal. Mas o processo está em andamento e é preciso aguardar. Como jornalista, acho que cumpri o meu papel. O livro traz muitas informações inéditas sobre o processo de licenciamento da barragem, cheio de falhas e omissões graves; erros na gestão de risco da estrutura, além, claro, das histórias das vítimas e dos impactos ambientais na bacia do rio Doce. No próximo governo, acho que o jornalismo será ainda mais demandado e deve ficar atento porque, como você expôs na sua pergunta, os riscos para determinadas comunidades tenderão a se agravar enormemente. Espero que o jornalismo cumpra o seu papel.

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