A mídia regional pede socorro

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

A imprensa britânica acompanha atentamente a movimentação em torno da venda do Archant, um dos mais antigos grupos editoriais do país, dono de títulos regionais. Rumores sobre o interesse em passar a empresa adiante não são novos. Mas no início de julho a SkyNews revelou que os proprietários nomearam a KPMG para encontrar compradores.

O Archant, sediado em Norwich, foi fundado em 1845 pela família Colman, famosa pela marca de mostarda. Com 1,1 mil funcionários, publica 60 jornais e 75 revistas. Segundo a Sky, a tiragem total chega a 6 milhões de cópias, além de 9 milhões de visitantes únicos nas edições digitais.

A exemplo de outras organizações, a receita caiu nos últimos anos: quase 20% entre 2017 e 2019. Nem o reforço da parceria com o Google para a criação de um novo modelo de jornalismo digital, o PeterbouroughMatters.co.uk, resolveu a questão financeira. Mas é uma empresa legendária, e há interessados em adquiri-la.

Jornalismo regional sob risco −Ainda que o plano de vender o Archant tenha sido confirmado no momento em que o jornalismo enfrenta dificuldades financeiras devido à pandemia, a fragilidade da imprensa regional vem de longe. Essa tem sido uma preocupação recorrente no Reino Unido, país com forte tradição de veículos locais, sobretudo impressos, que desapareceram ou reduziram tiragem nos últimos anos.

Em 2009, Claire Enders, uma das mais respeitadas analistas de mídia britânica, projetara em depoimento a uma comissão do Parlamento sobre o futuro do jornalismo local no país que a metade dos então 1,3 mil veículos regionais britânicos fechariam nos cinco anos seguintes.

São jornais altamente dependentes de propaganda local e de venda individual. Assinaturas não são tão comuns, principalmente em pequenas localidades. Os jornais são vendidos em pontos como supermercados ou lojas de conveniência. Muitos são gratuitos e entregues nas residências.

Mesmo em Londres há jornais de bairro deixados nas casas e disponíveis nas estações de metrô. Por eles sabemos de fatos da vizinhança, como mudanças no trânsito e eventos, que não aparecem na BBC.

Muitas cidades britânicas padecem com o declínio econômico causado pelo fechamento de indústrias e pela concorrência do comércio online com lojas de rua, secando a fonte da receita publicitária. E com a pandemia, até nas cidades grandes os anunciantes sumiram, por causa de negócios fechados e lazer paralisado.

A Enders Analysis estimou que as vendas em bancas devem cair à metade este ano, um choque que muitos títulos não conseguirão absorver. O governo fez uma campanha de propaganda em jornais nacionais e locais, mas não alcançou boa parte dos pequenos sites e jornais que circulam pelo país.

Em março, jornais dos quatro principais grupos de mídia local, incluindo os do Archant, veicularam uma capa idêntica, chamando a atenção para a importância deles, sobretudo no momento da crise do coronavírus. Por vezes eles são a única fonte de notícias sobre as medidas de controle da Covid-19 na comunidade.

A sobrevivência da mídia regional − incluindo impressos e digitais, muitos deles independentes e sem o suporte de uma organização para atravessar crises como a que vivemos − não é uma questão que interesse apenas a jornalistas e donos de veículos. Um estudo do Pew Research Center nos Estados Unidos, publicado em 2016, apontou que pessoas que se mantêm informadas sobre as suas comunidades são mais engajadas civicamente.

Elas mantêm conexão forte com a sociedade local, atuando como voluntárias e votando nas eleições (o voto no país é facultativo). A falta desses jornais cria uma lacuna difícil de ser suprida por veículos nacionais, por melhores que sejam.

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